As Jornadas de Junho de 2013 e o real valor de vinte centavos

Como as manifestações pelo aumento dos vinte centavos nas passagens de ônibus revelaram sintomas de um Brasil polarizado que ascendeu à extrema direita
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

As Jornadas de Junho de 2013 são um dos pontos de partida obrigatórios para entender a ascensão da extrema direita no Brasil e o ecossistema político que se deu na década seguinte.

Onde você estava em junho de 2013? Dos investimentos do governo brasileiro para a Copa do Mundo de 2014, passando pelo impeachment de Dilma Rousseff até a ascensão do bolsonarismo e a extrema direita, todo o debate político foi inflamado a partir dos protestos que cobravam o aumento de vinte centavos das passagens de ônibus, em junho de 2013.

Mesmo após mais de uma década do ocorrido, o legado das manifestações de 2013 deixou cicatrizes e feridas que ainda sangram na República. A juventude teve papel primordial, em momentos raros em que foi possível ver movimentos de esquerda e direita juntos, na mesma manifestação, ainda que com perspectivas e causas distintas.

As Jornadas de Junho, como ficaram popularmente conhecidas, foram um momento determinante na polarização entre direita e esquerda no país e não culminaram somente no impeachment de Dilma Rousseff em 2014, mas também na eleição de Jair Bolsonaro em 2018, revelando fissuras contemporâneas na política brasileira.

Em poucos dias, o protesto organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL) se transformou em um levante de milhões de pessoas, trazendo tanto a esquerda quanto a direita para as ruas e inflamando um período de polarização política.

O que estava por trás dos vinte centavos?

Na foto, manifestante em Brasília durante as jornadas de junho de 201. Foto: Fabio Rodrigues - Pozzebom/Agência Brasil 
Na foto, manifestante em Brasília durante as jornadas de junho de 201. Foto: Fabio Rodrigues – Pozzebom/Agência Brasil

Não foi só a Copa do Mundo que inflamou o debate. O Brasil vivia um cenário de insatisfações políticas generalizadas. No ano de 2013 observamos conflitos em terras indígenas que mobilizaram o país.

No estado do Mato Grosso, acontecia um grande conflito fundiário entre fazendeiros e indígenas do povo Xavante, que enfrentava invasões em suas terras há duas décadas, até que uma ação judicial do Superior Tribunal Federal (STF) garantiu a desocupação dos posseiros que ocupavam ilegalmente a terra. O episódio foi conhecido como retomada indígena, em uma luta sangrenta pela demarcação de seus territórios originários.

No mesmo ano, acontecia uma mobilização digital em que as pessoas colocaram ‘Guarani Kaiowá’ em seus sobrenomes nas redes sociais em uma campanha de visibilidade para denunciar os ataques armados e assassinatos dos povos originários e suas lideranças.

Guarani-Kaiowá em protesto no Mato Grosso do Sul, exigindo a demarcação de suas terras tradicionais diante da demora do governo federal na conclusão dos processos demarcatórios, em 2013. Foto: MST
Guarani-Kaiowá em protesto no Mato Grosso do Sul, exigindo a demarcação de suas terras tradicionais diante da demora do governo federal na conclusão dos processos demarcatórios, em 2013. Foto: MST

Os anos que antecederam 2013 também foram marcados por aumentos significativos no número de greves no país. Segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), em 2011 foram realizadas 554 greves e, apenas dois anos depois, o número aumentou para mais de 2 mil paralisações.

As populações das áreas urbanas viviam uma piora nas condições de saúde pública, mobilidade e aumento do preço dos aluguéis, forçando muitas pessoas a se mudarem para regiões periféricas e aumentando o tempo de deslocamento de casa para o trabalho, o que também foi fator motriz para que em junho de 2013 as manifestações fossem centralizadas no transporte público.

Com essa realidade, o cenário de insatisfação política inflamou o país. Para a população, crescia a ideia de que o governo investia dinheiro nas obras e estádios da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016, enquanto a saúde e educação estavam sendo deixadas de lado.

Neste cenário, nascem dois movimentos de direita que seriam protagonistas nas manifestações. O “Vem Pra Rua” e o “Movimento Brasil Livre (MBL)”, liderado por jovens figuras em ascensão: Kim Kataguiri e Fernando Holiday, que tiveram participação relevante no impeachment de Dilma Rousseff em 2014, o que mostra que os acontecimentos como a caminhada de Nikolas Ferreira em 2026 pela liberdade de Bolsonaro não foram casos isolados de jovens liderando a pauta da extrema direita em momentos delicados do país durante os governos do PT, mas um sintoma político.

Manifestante segura cartaz pedindo equipamentos públicos no "padrão FIFA", em alusão grandes investimentos realizados em obras de infraestrutura para a Copa do Mundo de 2014. Foto: Wikimedia Commons 
Manifestante segura cartaz pedindo equipamentos públicos no “padrão FIFA”, em alusão grandes investimentos realizados em obras de infraestrutura para a Copa do Mundo de 2014. Foto: Wikimedia Commons

A juventude nas ruas, tática black bloc e os hackers Anonymous

Para entender tais cicatrizes, é preciso contextualizar não somente a política no território nacional no período, mas também entender o contexto político global, como por exemplo o black bloc, tática de ação, sem lideranças, com vieses anarquistas, caracterizada pelo anonimato, em que os manifestantes se vestem de preto e utilizam máscaras para impossibilitar sua identificação.

A prática, que surge na Alemanha nos anos 1980, manifestando-se contra grupos neonazistas e a polícia, ganha força nos Estados Unidos nas manifestações contra a conferência da OMC (Organização Mundial do Comércio) na cidade de Seattle em 1999, protestando contra impactos globais, desigualdade econômica e a globalização neoliberal.

No Brasil, a tática ganhou notoriedade justamente nas manifestações das jornadas de junho de 2013, quando manifestantes, em sua maioria jovens, atacaram símbolos de consumo como agências bancárias e promoveram o enfrentamento à polícia, com a visão de que a instituição militar é uma ferramenta de controle e opressão usada pelo poder público.

Além disso, também se popularizou no Brasil um reflexo global, o grupo Anonymous. Marcado pela utilização de máscaras em alusão ao filme ‘V de Vingança’, o grupo atuava hackeando sites de partidos, acusando a polícia militar de repressão durante os protestos, criticando os vetos ao uso de máscaras nas manifestações e fazendo cobranças à, então presidente, Dilma Rousseff.

O grupo Anonymous se tornou tão forte globalmente que inclusive inspirou posteriormente a cultura pop, no seriado Mr. Robot. Tais conexões mostram que o cenário das jornadas de junho foi um movimento nascido no Brasil, mas com alta conexão com os acontecimentos políticos globais.

Manifestante durante as jornadas de junho, com a máscara adotada pelo Anonymous. Foto: Marcos Santos/USP Imagens 
Manifestante durante as jornadas de junho, com a máscara adotada pelo Anonymous. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O ano de 2013 foi marcado por uma ruptura histórica para a esquerda no Brasil. Á época, a esquerda, que já estava há 10 anos no governo federal e vivia um momento tão frágil politicamente, perdeu força política de articulação, entrando em campos imaginativos e enfrentando dificuldades de unificar suas lutas e agendas, enquanto a extrema direita se organizou perante a inércia da pauta progressista, alimentando-se do ódio e da indignação como ferramenta motriz.

Pelo Brasil. Contra tudo e contra todos

Sem uma liderança central definida e com a diversidade de grupos políticos presentes, desde movimentos sociais de esquerda até de classes econômicas mais altas, a narrativa dos protestos foi disputada ao longo do tempo, abrindo espaços para que diferentes atores políticos conseguissem capturar as narrativas do movimento.

Esse caráter difuso e amplo fez com que o discurso antipolítico ganhasse força em narrativas que seriam apropriadas pela extrema direita. Além disso, a cobertura midiática usava o tom do caos generalizado, falando sobre a violência, destruição e a falta de uma pauta clara nas manifestações.

A partir disso, o papel da grande mídia passa a ser questionado e mais observado de forma crítica pela população, que via com clareza as opiniões enviesadas e a interpretação dos veículos. Por isso, as redes sociais se tornaram uma força para a disseminação de informações e, também, de fake news.

Através das redes sociais, veículos independentes e investigativos ganham força e se consolidam na pauta progressista, trazendo relatos de violência policial e da repressão às manifestações, mostrando o real ponto de vista de dentro da manifestação.

Esse também foi um ponto de virada no fortalecimento da liberdade de imprensa e na pluralidade de vozes no espaço midiático brasileiro.

Veja mais: A ameaça à liberdade de imprensa nos dias atuais

As primeiras rupturas causadas pelos vinte centavos

As Jornadas de Junho não ficaram isoladas na história do Brasil e impactaram diretamente eventos posteriores na política nacional.  A partir deste momento histórico, por meio da queda significativa na popularidade de líderes e dos governos, o país refletia a perda de confiança na política, nas instituições públicas e, principalmente, na capacidade de diálogo da sociedade.

Com o contexto das manifestações das jornadas de junho, entramos em uma fase de polarização política de direita versus esquerda. No ano de 2014, Dilma Rousseff derrotou Aécio Neves na corrida presidencial com uma diferença curta de pouco mais de 3 milhões de votos válidos.

Mas mesmo assim, com a queda da popularidade do governo, forte influência da oposição e uma grande dose de misoginia (pelo fato de o Brasil ter sido presidido por uma mulher pela primeira vez em sua história), as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff logo chegaram. Elas foram inflamadas da mesma forma como aconteceu nas Jornadas de Junho de 2013, porém, agora, com o controle da narrativa pela direita.

Manifestantes pedem impeachment de Dilma Rousseff na Avenida Paulista, em 2014. Foto: Jorge Araújo/Folhapress
Manifestantes pedem impeachment de Dilma Rousseff na Avenida Paulista, em 2014. Foto: Jorge Araújo/Folhapress

Em 2016, Dilma Rousseff foi derrubada do governo, que foi assumido por uma figura da direita, o, até então vice-presidente, Michel Temer.

Em um governo com uma roupagem silenciosa, Temer abriu as portas para reformas que impactam até hoje a vida do brasileiro, como a reforma trabalhista que trouxe a ‘pejotização’ e a retirada de direitos de milhões de trabalhadores, a reforma da previdência, aprovada anos depois durante o governo Bolsonaro e a regulamentação dos jogos de azar e legalização das bets, já no final de seu mandato.

Apesar da roupagem silenciosa que o governo construía, por dentro do Planalto, o governo de Michel Temer foi alicerce para a ascensão da extrema direita. Com tantas reformas “em prol da economia”, nos pleitos seguintes o país elegeu na presidência, senado e na câmara uma quantidade nunca antes vista de políticos conservadores, que abriram, enfim, o caminho para o projeto de Jair Bolsonaro.

Os frutos da polarização foram colhidos nas eleições presidenciais que sucederam as jornadas de junho de 2013. Após Temer, Jair Bolsonaro (PL) venceu Fernando Haddad (PT) no segundo turno com uma diferença de 10% dos votos válidos em 2018. Já em 2022, tivemos a eleição mais acirrada desde o período da redemocratização, em 1989. Lula foi eleito novamente Presidente da República com uma diferença de apenas 1,8% de votos válidos no segundo turno contra Bolsonaro.

O legado das jornadas de junho

O legado das jornadas de junho foi muito mais do que simples manifestações pelo aumento de vinte centavos na passagem de ônibus. Esse legado representa um sintoma de crise de representação política e expõe tensões profundas e polarizadas na sociedade brasileira, que fomentam a reconfiguração do debate público e midiático que tomou conta da política também na década seguinte.

Calcular hoje o impacto das jornadas de junho ainda não é algo consensual, assim como o debate entre esquerda e direita. Enquanto parte da população vê como uma legítima manifestação de indignação popular, outras a interpretam como a base para a ascensão da extrema direita no Brasil, que não se encerra apenas com a prisão de Bolsonaro em 2025.

É importante nos atentarmos de que, mesmo que Jair Bolsonaro tenha sido condenado e preso, não se pode prender um ideal. Não se resolve um problema atacando o sintoma, mas enfrentando a causa. Enquanto repetirmos a nossa história, novas figuras da extrema direita continuarão nascendo e caminhando pela intolerância e por um projeto de país que beneficia a poucos.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail