Por Iago Filgueiras*
Para quem mora na cidade, sonhar com a compra de uma casa própria é um desejo quase universal. Nas famílias que já realizaram o sonho, histórias sobre tempos não tão favoráveis e a insegurança de não ter um teto para chamar de seu são comuns. No campo, a realidade não é muito diferente.
Ter uma terra para trabalhar, uma casa para morar e um lugar para colher os frutos do próprio trabalho também é um desejo. Mas, no Brasil, aqueles que trabalham, produzem e geram riqueza tiveram o acesso à terra historicamente negado. E é essa realidade que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tenta mudar.
Por meio de ocupações de terras improdutivas e que descumprem a Constituição, o movimento já conquistou um pedaço de chão para mais de 450 mil famílias desde 1984, ano em que foi fundado. Mas, se de um lado há milhares de pessoas produzindo comida e vivendo dignamente, de outro, há a pressão do agronegócio e dos latifúndios.
Neste artigo, você vai descobrir aquilo que não querem que você saiba sobre o MST. Afinal, qual o objetivo do movimento? Como eles se sustentam? Como eles contribuem para o país? A resposta para essa e outras perguntas, você encontra a seguir.
O que é o MST?
MST significa Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e é um movimento social que busca organizar as famílias que lutam para ter uma terra para morar e trabalhar no campo. Surgido em 1984, no contexto da redemocratização brasileira após a ditadura militar, o movimento floresceu junto à esperança de que uma sociedade mais justa fosse possível.
Mais do que um movimento que ocupa terras, o MST é um projeto de vida. Sua atuação se baseia no princípio de que a terra deve cumprir uma função social — ou seja, deve ser produtiva, gerar emprego e respeitar o meio ambiente.
O MST organiza famílias em acampamentos e assentamentos, pressionando pelo uso de latifúndios improdutivos para um fim socialmente justo: a produção de alimentos saudáveis e a construção de comunidades rurais dignas. O movimento atua em 24 estados brasileiros, com exceção do Acre, Amapá e Amazonas.
Mas a organização não termina quando as terras são conquistadas e os assentamentos da reforma agrária surgem. Não basta apenas ter a terra, é preciso dignidade. Por isso, as famílias assentadas mantêm seu vínculo com o MST, lutando por infraestrutura básica, como saneamento, eletricidade e acesso à cultura, educação e lazer.
Veja a explicação de Eduardo Moreira sobre a diferença entre os acampamentos e assentamentos do movimento:
A concentração fundiária no Brasil e o surgimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
A luta por um pedaço de chão é uma constante na história brasileira. Desde o período colonial, a estrutura fundiária foi moldada para a concentração: um modelo de latifúndios, monocultura e trabalho escravizado que excluiu a maioria da população do acesso à terra.
Em 1850, a Lei de Terras regulamentou o acesso à terra no país. Se antes áreas rurais eram baseadas em sesmarias — terras doadas pelo rei e sem título de posse — e na ocupação espontânea do solo, essa nova lei criou um mercado para comercialização de propriedades rurais.
A partir de 1850, as terras que já estavam ocupadas passaram a ser propriedade do ocupante, mas para adquirir um novo terreno, passou a ser necessário pagar — e muito. Vale lembrar que aqueles que ocupavam as terras eram, em geral, fazendeiros abastados e brancos. Com a nova lei, a posse dessas terras foi reconhecida, mas para expandir as propriedades, os latifundiários forjavam documentos para provar ocupação em áreas anteriores à lei.
Na prática, povos indígenas, escravizados, ex-escravizados e imigrantes pobres tiveram o acesso à terra negado. O resultado disso? Uma desigualdade fundiária que ainda permanece e um país cuja área rural é palco de conflitos há séculos. Em 2025, 1% das propriedades rurais concentravam metade de todas as terras agricultáveis do Brasil.
Saiba mais sobre a questão agrária no Brasil neste episódio especial de WebComunistas, apresentado por Ian Neves e Laura Sabino no ICL Notícias:
A origem do MST
Como você viu, a desigualdade fundiária não é recente. E a luta contra ela também não. Já em 1945, as Ligas Camponesas ganhavam força, denunciando a concentração de terra e reivindicando a reforma agrária. Essas mobilizações, no entanto, foram brutalmente interrompidas com o início da ditadura militar, em 1964.
Com o regime militar, o modelo de desenvolvimento agrícola passou a priorizar o agronegócio e a exportação, aumentando a concentração de terras e a exclusão dos pequenos agricultores. A violência no campo, que sempre existiu, se intensificou sob a conivência do Estado, com casos emblemáticos de assassinatos e massacres de posseiros, líderes sindicais e agricultores familiares. Tudo com a conivência ou até mesmo a força do aparato estatal.
Segundo o colaborador da Universidade Nacional de Brasília e ex-preso político, Gilney Viana, foram mais de 1.600 camponeses mortos pelo Estado de 1964 até a promulgação da Constituição Federal de 1988. Nesse cenário de repressão e injustiça, a Comissão Pastoral da Terra, criada pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 1975, tornou-se fundamental para a resistência, documentação dos crimes e organização dos camponeses.
Foi em 1985, durante o período de redemocratização do Brasil e maior abertura política, que diversas lutas locais e movimentos se uniram. Neste ano, durante o 1º Encontro Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra realizado em Cascavel, no oeste paranaense, foi fundado o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST.
Sua fundação foi a resposta de um povo historicamente silenciado que decidiu ocupar de vez o seu lugar na terra e na história.
Qual o objetivo do MST?
O MST, historicamente, tem sua atuação organizada em torno de três objetivos principais, conforme declara:
- Lutar pela terra
- Lutar por Reforma Agrária
- Lutar por uma sociedade mais justa e fraterna
As decisões do movimento são coletivas e a organização conta com estruturas que garantem a participação democrática para as famílias assentadas e acampadas. O principal espaço de debate e tomada de decisões são os Congressos Nacionais do MST, ocorridos a cada cinco anos em média. A cada dois anos, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra também realiza encontros nacionais para avaliar e atualizar aquilo que foi decidido nos congressos.

Na luta por uma sociedade mais justa, o movimento também entende que é necessário apoiar e se envolver em iniciativas para combater a desigualdade social e de renda, as muitas formas de discriminação, a concentração do poder midiático e a exploração no contexto urbano. Por isso, tanto na escala local quanto nacional, as famílias também se organizam em setores, atuando nas necessidades de cada acampamento, assentamento ou estado. São eles:
- Frente de Massas
- Formação
- Educação
- Produção
- Comunicação
- Projetos
- Gênero
- Direitos Humanos
- Saúde
- Finanças
- Relações Internacionais
- Cultura
- Juventude
- LGBT Sem Terra
A Reforma Agrária Popular defendida pelo MST
A Reforma Agrária Popular defendida pelo MST é um conceito que busca expandir a reforma agrária para além da simples redistribuição de terras. O movimento entende que o Brasil se relaciona com o espaço agrário é um aspecto fundamental para o desenvolvimento do país. Por isso, defende que falar de terra é falar sobre controle dos bens naturais e econômicos, que produzem implicações sociais e culturais.
A proposta tem como base a democratização do acesso à terra e a preservação ambiental, defendendo que os bens da natureza não devem ser mercantilizados. O programa prioriza a produção de alimentos saudáveis por meio da agroecologia, garantindo soberania alimentar e confrontando diretamente o modelo do agronegócio baseado em agrotóxicos e transgênicos.

Esta visão abrangente se materializa em iniciativas como a Escola Nacional Florestan Fernandes, dedicada à formação política e técnica dos trabalhadores rurais. A proposta engloba ainda a democratização da energia, o direito à educação do campo e a garantia de condições dignas de vida, posicionando a reforma agrária como alicerce para um projeto de sociedade que priorize a classe trabalhadora.
O movimento defende que as propriedades rurais devem ter limite máximo de tamanho e que a exportação de commodities não pode se sobrepor à produção de alimentos para o mercado interno.
Você pode conferir mais informações sobre o Programa da Reforma Agrária Popular aqui.
5 perguntas polêmicas sobre o MST: verdades e mentiras
Entre mitos, fake news e desonestidade, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ainda é alvo de ataques que ignoram a importância do movimento no combate à desigualdade. Aqui, vamos desmistificar as dúvidas mais comuns sobre o MST e mostraremos como ele atua, se financia e qual seu verdadeiro papel na sociedade brasileira.
Por que o MST invade terras?
Em um país cuja história do campo é marcada pelo extermínio de povos originários, pelo uso intensivo de mão de obra escravizada e um modelo de propriedade que sempre privilegiou as elites, dizer que quem ocupa é o invasor é, no mínimo, uma inversão de valores.
O MST defende que se cumpra o uso social da terra previsto na Constituição. Uma propriedade que não produz, degrada o meio ambiente e tem irregularidades trabalhistas descumpre essa função. As ocupações do movimento atuam para pressionar o Estado e fazer com que essas terras sejam desapropriadas e destinadas à reforma agrária.

Como o MST se sustenta? De onde vem o dinheiro?
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra se financia por meio de diversas fontes, desde a venda dos alimentos produzidos nos assentamentos, financiamento público por meio de programas de crédito e assistência e até mesmo com parcerias com o mercado financeiro, por meio da ferramentas como o Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) — títulos emitidos por cooperativas do MST para financiar a produção.
Diversas cooperativas de trabalhadores atuam na produção e beneficiamento de alimentos que são comercializados pelo movimento tanto para o público comum quanto para o Estado, por meio de programas como o Programa Nacional de Aquisição de Alimentos (PNAE) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PAA). Em 2025, só na 5ª edição da Feira Nacional da Reforma Agrária, realizada em São Paulo, foram vendidas 500 toneladas de alimentos.
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O MST e as ONGs causam incêndios florestais?
As acusações que associam o MST a queimadas são falsas e já foram desmentidas por veículos jornalísticos de diversos aspectos ideológicos, como Agência Pública, BBC e Estadão Verifica. Os assentamentos do movimento atuam justamente no sentido oposto, utilizando o método de manejo agroecológico, recuperando áreas degradadas e preservando nascentes.
Os incêndios florestais têm origens diversas, mas em alguns casos, puderam ser associados à expansão ilegal da fronteira agrícola, ao desmatamento e às mudanças climáticas. Culpar o MST é uma estratégia frequentemente adotada para deslegitimar o movimento e influenciar a opinião pública.

O MST é violento?
A violência no campo brasileiro é historicamente dirigida contra agricultores familiares, indígenas e quilombolas, não causada por eles. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), contidos no relatório Conflitos no Campo Brasil, registraram 1.768 conflitos por terra em 2024, com 1.680 casos de violência contra essas populações.
O documento identificou a presença de grupos como o Movimento Invasão Zero em ataques coordenados em vários estados. Em 2024, os conflitos no campo produziram 1.528 casos de violência contra a pessoa. Do total, foram 272 ameaças de morte, 103 tentativas de homicídio — quase 80% delas contra indígenas — e 13 assassinatos.
Em 1996, 21 sem-terras morreram em decorrência de ação da Polícia Militar durante uma marcha pacífica realizada no Pará, onde lutavam pela desapropriação de uma fazenda improdutiva. O episódio ficou conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás.
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O MST produz alimentos ou atrapalha a agricultura?
O MST é hoje o maior produtor de arroz orgânico da América Latina — na safra 2024/2025, foram 14 mil toneladas. O movimento também produz 7 milhões de litros de leite por dia, cerca de 2,5 bilhões por ano. Seus assentamentos transformaram áreas degradadas em polos produtivos, como no Sul da Bahia, onde substituíram latifúndios de cacau devastados pela vassoura-de-bruxa por sistemas agroflorestais biodiversos.
Fruto da atuação do movimento, surgiram 185 cooperativas, 120 agroindústrias e 1900 associações. O MST conta com 400 mil famílias assentadas e cerca de 70 mil acampadas. A produção, comercializada tanto sob marcas próprias quanto vendida para a indústria tradicional, comprova que a reforma agrária não só produz comida de qualidade, como respeita o meio ambiente e movimenta a economia.

Mais que terra, um projeto de país
A luta do trabalhador rural no Brasil é uma súplica antiga. Num país que passou cinco séculos negando o direito à terra a quem a faz viver, ainda pesa sobre o campo o fardo da violência. Quem luta por Reforma Agrária, semeia no chão a esperança, colhe os frutos da justiça e faz florescer a equidade em um país com tantas contradições.
O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) segue cultivando, dia após dia, o que o Brasil nunca deixou brotar: justiça social e dignidade. Cada lote conquistado é um passo rumo a um mundo melhor, um gesto símbolo da insistência diante da desigualdade.
Mas, só a terra não basta. É preciso investimento. Da ausência de crédito para financiar agroindústrias às máquinas agrícolas que parecem feitas para um outro mundo — um onde o pequeno produtor e a agricultura familiar não cabem —, o movimento segue lutando coletivamente com um projeto inclusivo.
Quando a ideologia do MST passa a ser alvo de narrativas distorcidas e tentativas de ataque, é essencial retomar Paulo Freire. O educador pernambucano, dizia que a imparcialidade não existe, tudo tem uma base ideológica, “a questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”.
Foi para desafiar o que os poderosos tentam nos fazer acreditar sobre o movimento, que Eduardo Moreira quis conhecer o movimento com seus próprios olhos. O resultado é o documentário “De Quanta Terra Precisa o Homem?”, uma produção exclusiva disponível na plataforma do ICL.
Ficou interessado? Não perca tempo, se torne membro e tenha acesso a centenas de documentários.
*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu