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Poucos termos atravessam tanto o debate público brasileiro quanto direitos humanos. Ao mesmo tempo em que aparecem em leis, políticas públicas e acordos internacionais, também são alvo de rejeição, desconfiança e disputa política.

Em parte da sociedade, a expressão deixou de ser associada à garantia de direitos básicos e passou a ser vinculada à ideia de proteção indevida a criminosos ou à imposição de valores. Esse deslocamento não acontece por acaso, se constrói ao longo do tempo, atravessando disputas políticas, narrativas midiáticas e experiências concretas de desigualdade.

Entender o que são direitos humanos, de onde vêm e como passaram a ser questionados ajuda a explicar por que o tema se tornou um dos símbolos da polarização política  no país.

Como os direitos humanos surgiram a partir de contextos de violência?

Fotografia em preto e branco de Eleanor Roosevelt segurando uma grande impressão da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O registro marca a aprovação do documento após a Segunda Guerra Mundial como resposta aos horrores do Holocausto e para estabelecer padrões mínimos de proteção à vida.
Eleanor Roosevelt, primeira-dama dos Estados Unidos (1933-1945) com uma impressão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em Nova York Créditos: UN Photo

Direitos humanos são um conjunto de garantias reconhecidas a todas as pessoas pelo simples fato de existirem. Eles incluem direitos civis, políticos e sociais, como vida, liberdade, segurança, acesso à educação, saúde e participação política .

A formulação mais conhecida desse conjunto está na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada após a Segunda Guerra Mundial. O documento estabelece que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, sem distinção de origem, raça, religião ou posição social.

A declaração surge em um contexto de ruptura. O mundo acabava de enfrentar o Holocausto e conflitos que expuseram os limites da violência estatal. Segundo o alto comissário da ONU Volker Türk, o texto foi construído como resposta a esse cenário e buscava estabelecer um padrão mínimo de proteção à vida humana.

Ao longo das décadas, esse conjunto de direitos passou a orientar constituições, tratados internacionais e movimentos sociais. Lutas contra o apartheid, por independência nacional e por direitos civis se apoiaram nesses princípios.

Movimentos sociais e direitos humanos

Apesar da formulação universal, a aplicação dos direitos humanos nunca foi automática. Grupos historicamente excluídos precisam disputar o reconhecimento desses direitos na prática.

No Brasil, movimentos sociais tiveram papel direto nesse processo. Os movimentos negros e indígenas, por exemplo, contribuem para redefinir o conteúdo dos direitos humanos ao incorporar o debate sobre racialidade e território.

Essa dinâmica reforça um ponto central apontado pela Teoria crítica dos direitos humanos: o direito não é neutro. Ele reflete relações de poder e pode tanto reproduzir desigualdades quanto ser utilizado para enfrentá-las.

Mesmo com avanços institucionais, como a Constituição de 1988, a distância entre norma e realidade permanece. Violações continuam sendo registradas em diferentes áreas da vida social.

A ideia de “Direitos humanos para humanos direitos” mudou o sentido do conceito

Fotografia de uma pessoa segurando nas costas um bastão de madeira onde está escrito manualmente "Direitos Humanos". A imagem ilustra a deslegitimação do conceito no debate público brasileiro, onde o termo muitas vezes é associado à violência ou à ideia seletiva de "direitos humanos para humanos direitos".
A associação de violência contra os direitos humanos é o caminho de algumas pessoas de extrema-direita. Produtos como este são vendidos livremente na internet, com esta e outras palavras com estímulos violentos. Foto: Reprodução/JusBrasil

Ao longo do tempo, os direitos humanos passaram a ser reinterpretados no debate público. Uma das expressões mais difundidas desse processo é a ideia de “direitos humanos para humanos direitos”.

Essa formulação sugere que os direitos não devem ser universais, mas condicionados ao comportamento ou à posição social. Essa ideia se espalha como um padrão cultural, reforçado por meios de comunicação e programas policiais.

Uma pesquisa realizada pela ONU Mulheres em parceria com o Instituto Ipsos, divulgada em 2024, ajuda a dimensionar essa percepção no Brasil contemporâneo. O levantamento mostrou que 38% dos entrevistados afirmam que os direitos humanos defendem mais os criminosos do que as vítimas. O dado ajuda a entender como o tema passou a ser associado à impunidade.

Esse deslocamento altera o sentido original da política de direitos humanos. Em vez de garantir proteção universal, o conceito passa a ser visto como instrumento seletivo.

O papel da mídia na construção dessa percepção

A forma como a violência é retratada influencia diretamente a percepção pública sobre direitos humanos. Programas de rádio e televisão voltados à cobertura policial reforçam a ideia de que segurança pública e direitos são agendas opostas, promovendo incitação à violência, exposição indevida de pessoas e desrespeito à presunção de inocência.

Esse padrão de cobertura tende a apresentar a violência como resultado de ações individuais e a defender respostas baseadas no aumento da punição. Nesse contexto, direitos humanos aparecem como obstáculo, e não como parte da solução.

Como a construção de inimigos redefine quem tem direito à proteção do Estado

A ideia de que determinados grupos representam uma ameaça à sociedade também influencia o debate. Esse processo envolve a definição de quem merece proteção e quem deve ser tratado como inimigo.

No campo jurídico, essa lógica se aproxima do chamado Direito Penal do Inimigo, que parte da distinção entre cidadãos e pessoas vistas como ameaça ao Estado. Para esse segundo grupo, a teoria admite a redução de garantias legais, como a presunção de inocência e o direito à defesa, com base na justificativa de prevenção de riscos. Esse tipo de raciocínio aparece em debates sobre segurança pública e no tratamento diferenciado dado a determinados grupos.

No Brasil, essa perspectiva aparece em práticas como o encarceramento em massa e a violência policial direcionada a determinados grupos. A criminalização da pobreza e da população racializada se insere nesse contexto.

Além disso, mecanismos legais podem ser utilizados para perseguir adversários políticos ou movimentos sociais, prática conhecida como lawfare, o uso do sistema de Justiça como instrumento de disputa política, por meio de investigações, processos ou medidas judiciais que produzem desgaste público e restrição de direitos.

Como o Estado atua entre garantir os direitos humanos, mas também violá-los

O Estado ocupa uma posição central nesse debate. Ele é responsável por garantir direitos, mas também aparece como agente de violação em diferentes contextos.

Em tempos contemporâneos, políticas públicas voltadas aos direitos humanos voltaram a ganhar espaço na estrutura federal. A retomada de programas e o fortalecimento de instâncias como o Conselho Nacional de Direitos Humanos indicam uma tentativa de reorganizar essa agenda.

Ao mesmo tempo, os próprios dados mostram limites dessa atuação. Entre 2023 e 2024, foram registrados 486 casos de violência contra defensoras e defensores de direitos humanos no Brasil, incluindo 55 assassinatos, segundo levantamento de organizações como Justiça Global e Terra de Direitos. O estudo aponta ainda que a violência ocorre, em média, a cada 36 horas, com participação de agentes públicos em parte dos casos.

Essa ambiguidade não é recente. A criminalização de quem atua na defesa de direitos também aparece no uso de mecanismos institucionais para restringir a atuação de movimentos sociais e lideranças. Processos judiciais, investigações e outras medidas legais são utilizados como forma de pressão e desgaste, especialmente em disputas envolvendo território, meio ambiente e direitos coletivos.

No cenário internacional, a disputa também se manifesta na tentativa de influenciar organismos multilaterais. Em 2026, articulações envolvendo Donald Trump e Javier Milei buscaram interferir na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão responsável por monitorar violações na região.

As movimentações incluem a indicação de nomes alinhados a essas agendas e a tentativa de alterar o funcionamento da instituição, o que pode impactar investigações e recomendações sobre direitos humanos no continente.

Esse tipo de posicionamento se conecta a um padrão mais amplo de deslegitimação do tema no discurso público.

O que acontece quando direitos humanos deixam de ser garantidos

A negação de direitos humanos aparece em indicadores concretos. Ela se traduz em restrição de acesso a direitos básicos e em maior exposição à violência, especialmente entre grupos mais vulneráveis.

No Brasil, diferentes formas de violação seguem sendo registradas. Algumas violações comuns no país nos permitem observar como esse cenário se manifesta no cotidiano.

Pessoas em situação de rua

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada estimou que, em 2023, o número de pessoas em situação de rua ultrapassou 280 mil. O aumento da população está associado a fatores como desemprego, informalidade e dificuldade de acesso a políticas de moradia.

A falta de acesso a documentação, alimentação e serviços públicos coloca essa população fora do alcance de direitos básicos, dificultando inclusive o acesso a políticas de assistência.

Trabalho análogo à escravidão

O trabalho análogo à escravidão segue sendo identificado em diferentes regiões do país. Em 2025, o Ministério do Trabalho e Emprego resgatou quase 3 mil trabalhadores em condições desse tipo, em 1.594 ações fiscais realizadas ao longo do ano.

As situações identificadas incluem jornadas exaustivas, condições degradantes, restrição de liberdade e servidão por dívida. Dados acumulados mostram que, desde 1995, mais de 63 mil pessoas foram resgatadas desse tipo de exploração no Brasil. A recorrência dos casos indica que essas práticas não desapareceram e seguem vinculadas a contextos de vulnerabilidade social e econômica.

Tortura e violência estatal

Casos de tortura e violência estatal seguem sendo registrados no país, inclusive em ações policiais. O Ministério Público Federal mantém investigações abertas sobre esse tipo de ocorrência, que envolvem detenções arbitrárias, agressões físicas e mortes em operações.

Os dados indicam que esses episódios não são isolados. Entre 2023 e 2024, ao menos 45 casos de violência contra defensores de direitos humanos tiveram participação de policiais militares, incluindo registros de assassinatos. A presença de agentes do Estado em parte dessas ocorrências reforça o papel ambíguo das instituições responsáveis tanto por garantir quanto por violar direitos.

Esses registros mostram que a negação de direitos humanos não se distribui de forma homogênea. Ela incide com maior frequência sobre grupos já expostos a desigualdades estruturais, ampliando a distância entre o que está previsto na lei e o que se verifica na prática.

Por que existe distância entre os direitos previstos na lei e a realidade

A distância entre o que está previsto na lei e o que acontece na prática é um dos pontos centrais do debate sobre direitos humanos.

A Declaração Universal estabelece um conjunto de garantias, mas sua aplicação depende de políticas públicas, decisões judiciais e disputas sociais.

Em 2026, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que há um cenário global de enfraquecimento dessas garantias, com aumento de conflitos, desigualdades e violações. Esse contexto reforça a ideia de que direitos humanos não são um dado consolidado, mas um campo em disputa permanente.

Os direitos humanos e o caminho para uma sociedade justa

A discussão sobre direitos humanos envolve mais do que a definição de políticas públicas. Ela trata de como a sociedade organiza a distribuição de proteção e acesso a direitos.

Quando o conceito deixa de ser universal, abre espaço para critérios que definem quem deve ser protegido e quem pode ser excluído.

Esse deslocamento aparece em discursos, políticas e práticas institucionais. Ele também influencia a forma como diferentes grupos são tratados no cotidiano.Os direitos humanos foram formulados como resposta a contextos de violência e exclusão. Ao longo do tempo, passaram a ser reinterpretados e disputados em diferentes arenas.

No Brasil, essa disputa envolve história, desigualdade, mídia e política. O resultado é um cenário em que o conceito permanece presente, mas com significados em disputa.

A forma como esse debate evolui impacta diretamente a vida de quem depende dessas garantias para acessar direitos básicos.

No Brasil, falar sobre direitos humanos também envolve reconhecer as violações já cometidas. E a ditadura militar é um desses casos. Décadas depois do fim do regime, muitos detalhes seguem ocultos. No dia 17 de maio, domingo, às 20h, o ICL exibe o documentário original “Bandidos de Farda”, que revela os detalhes do arquivo do coronel Cyro Etchegoyen e os crimes que os militares esconderam por décadas. Inscreva-se gratuitamente!

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