Desigualdade econômica: por que o Brasil continua desigual mesmo crescendo?

Mesmo em períodos de crescimento da economia, o Brasil mantém uma das maiores concentrações de renda do mundo. Entenda como salários, impostos, patrimônio e desigualdade histórica ajudam a explicar esse cenário
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O crescimento da economia costuma aparecer como indicador de melhora do país. Quando o PIB (Produto Interno Bruto) sobe, governos, bancos e parte do mercado tratam o resultado como sinal de avanço generalizado. Mas, no Brasil, a experiência cotidiana pode não acompanhar esses números.

Essa diferença ajuda a entender uma das principais contradições da economia brasileira: o país pode crescer sem que a maior parte da população veja mudanças proporcionais em renda, moradia, qualidade dos serviços públicos ou segurança financeira.

O debate sobre desigualdade econômica vai além da diferença entre ricos e pobres. Ele envolve acesso desigual à terra, educação, saúde, crédito, patrimônio, aposentadoria e oportunidades. Também passa pela forma como os impostos são cobrados, como os salários são distribuídos e questiona quem concentra os ganhos produzidos pelo crescimento da economia.

Por que a desigualdade econômica no Brasil vai muito além da diferença de salários?

Apesar de a desigualdade econômica ser associada apenas à renda mensal, ela também envolve patrimônio acumulado, acesso a serviços públicos, capacidade de investimento e herança familiar.

No Brasil, a concentração de riqueza ajuda a mostrar essa diferença.

Em 2024, por exemplo, o Brasil registrou crescimento de 3,4% do PIB e ficou na sétima posição entre 40 economias analisadas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ainda assim, mais de 35% dos trabalhadores brasileiros continuavam vivendo com até um salário mínimo por mês, segundo dados do IBGE divulgados em 2025.

Além disso, dados da Oxfam divulgados em 2025 apontaram que 63% da riqueza do país estavam nas mãos de apenas 1% da população. Ao mesmo tempo, os 50% mais pobres detinham apenas 2% do patrimônio nacional.

Isso significa que a expansão econômica pode aumentar o volume total de riqueza produzida sem alterar quem controla esse patrimônio.

O próprio mercado de trabalho revela essa concentração. Os dados apontam que o rendimento médio mensal do 1% mais rico do Brasil chegou a R$ 21 mil em 2024, segundo a PNAD Contínua. Já o rendimento médio dos grupos mais pobres permaneceu próximo de R$ 600 mensais.

Essa diferença afeta praticamente todas as áreas da vida social. Quem possui patrimônio consegue acessar crédito com juros menores, morar em regiões com mais infraestrutura, investir em educação privada, acumular herança e ampliar sua renda financeira. Já quem depende exclusivamente do salário costuma ficar mais vulnerável ao desemprego, à inflação e ao endividamento.

Veja mais: DESIGUALDADE: No Brasil, 63% da riqueza do país está nas mãos de apenas 1% da população.

A origem histórica da desigualdade brasileira

O morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro, evidencia o contraste entre áreas de alto padrão e regiões marcadas pela desigualdade urbana no Brasil
O morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro, evidencia o contraste entre áreas de alto padrão e regiões marcadas pela desigualdade urbana no Brasil. (Foto: Johnny Miller/ Unequal Scenes/ BBC News Brasil)

Parte importante da desigualdade brasileira é anterior à industrialização e ao crescimento urbano do século XX.

A concentração de terras durante o período colonial e a escravidão estruturaram um modelo econômico baseado na acumulação de riqueza por pequenos grupos proprietários. O acesso à terra, à educação e à renda permaneceu restrito durante décadas.

A abolição da escravidão não foi acompanhada de políticas de inclusão social, distribuição de terras ou acesso amplo à educação. A população negra passou a ocupar os espaços mais precarizados das cidades e do mercado de trabalho.

Essa herança continua aparecendo nos dados atuais.

Segundo o Censo divulgado pelo IBGE em 2025 (realizado em 2022), trabalhadores brancos possuem rendimento médio de R$3.659, enquanto trabalhadores pretos recebem R$2.061 e trabalhadores pardos, R$2.186. A desigualdade também aparece no patrimônio acumulado: os super-ricos brasileiros são, majoritariamente, homens brancos.

O debate tributário também começou a incorporar essa discussão. Em 2025, um projeto apresentado pela deputada Benedita da Silva propôs incluir a autodeclaração racial no Imposto de Renda, para medir os impactos raciais do sistema tributário brasileiro.

A proposta parte da informação de que a população negra e de baixa renda paga proporcionalmente mais impostos sobre consumo, enquanto grupos de maior renda concentram patrimônio e renda financeira menos tributada.

A desigualdade econômica continua mesmo com o crescimento do PIB.

O crescimento da economia mede o aumento da produção de bens e serviços de um país. Mas ele não informa como essa riqueza será distribuída. Na prática, diferentes setores podem se beneficiar de maneiras muito distintas.

O lucro da Petrobras no primeiro trimestre de 2026 ajuda a visualizar este mecanismo. A empresa registrou um valor líquido de R$32,6 bilhões e distribuiu R$ 9 bilhões em dividendos aos acionistas, o que beneficiou principalmente investidores e detentores de ações.. Parte do resultado foi impulsionado pela alta internacional do petróleo e pelo aumento das exportações. Mas isso não significa automaticamente, um aumento proporcional dos salários ou melhora imediata das condições de vida da população.

O mesmo acontece em outros setores ligados ao mercado financeiro, exportações agrícolas e commodities minerais. O país pode ampliar exportações, aumentar lucros corporativos e registrar crescimento do PIB sem reduzir desigualdades históricas.

Essa lógica aparece também no discurso de que “o bolo precisa crescer primeiro para depois ser dividido”. Na prática, a divisão depende das regras econômicas, tributárias e trabalhistas existentes durante o próprio crescimento. Sem mecanismos de redistribuição, parte significativa da riqueza continua concentrada nos mesmos grupos econômicos.

A forma como os impostos são cobrados ajuda a manter a concentração de renda.

A tributação brasileira funciona de forma regressiva. Isso significa que pessoas de baixa renda comprometem uma parcela maior do orçamento com impostos sobre consumo.

Os mais ricos concentram patrimônio, enquanto grupos mais pobres arcam proporcionalmente com maior peso tributário no consumo cotidiano. Na prática, produtos básicos, energia elétrica, alimentação e transporte impactam mais o orçamento das famílias de baixa renda.

Ao mesmo tempo, o Brasil possui baixa tributação sobre grandes fortunas, heranças e patrimônio financeiro. Essa diferença ajuda a explicar por que o crescimento da economia frequentemente amplia os ganhos patrimoniais de grupos ricos.

A financeirização da economia — quando os ganhos financeiros passam a ter peso crescente sobre salários e produção — também influencia esse processo.

Quem possui capital investido em ações, juros e fundos financeiros tende a capturar parte importante dos ganhos econômicos sem depender diretamente do salário. Isso cria um modelo em que renda do trabalho e renda do patrimônio crescem em velocidades diferentes.

O trabalho precário limita o crescimento econômico.

O crescimento da economia também depende da forma como empregos são criados e remunerados. Mesmo em períodos de expansão econômica, o Brasil mantém grande parcela da população em empregos de baixa renda.

Mais de um terço dos trabalhadores brasileiros ganha até um salário mínimo. Apenas 7,6% recebem acima de cinco salários mínimos. Esse cenário se conecta ao avanço da informalidade e da pejotização.

Em 2025, o então secretário-executivo do Ministério da Previdência Social, Adroaldo da Cunha, afirmou em audiência pública que 73% do financiamento da Previdência Social vinha da folha salarial de trabalhadores formais. Ao mesmo tempo, a expansão de contratos informais e vínculos sem carteira reduz a arrecadação previdenciária e aumenta a insegurança social.

O Raio X do Investidor Brasileiro, publicado em 2025, afirmou que 82% da população economicamente ativa não possuía reserva financeira formal e que 88% dos aposentados tinham no INSS sua principal fonte de renda.

Isso ajuda a explicar por que parte relevante da população permanece vulnerável mesmo durante períodos de crescimento do PIB. Sem aumento consistente dos salários, acesso a patrimônio e fortalecimento da proteção social, o crescimento econômico tende a produzir melhora limitada para os grupos de menor renda.

Por que o crescimento não reduz desigualdades regionais?

A desigualdade econômica brasileira não aparece apenas entre classes sociais. Também possui forte dimensão regional.

O IBGE afirmou em 2025 que o rendimento médio mensal no Nordeste foi de R$ 2.015, enquanto o Centro-Oeste registrou média de R$ 3.292. Estados como Maranhão, Piauí e Bahia possuem os menores rendimentos médios do país. Essas diferenças estão ligadas à concentração histórica de infraestrutura, industrialização, crédito e investimentos públicos em determinadas regiões.

A desigualdade regional também afeta o acesso à saúde, educação e moradia. Em 2024, a Fundação João Pinheiro estimou que 26 milhões de brasileiros viviam em moradias inadequadas, principalmente trabalhadores de baixa renda, mulheres e população negra.

Ao mesmo tempo, o Censo divulgado em 2023 identificou cerca de 11 milhões de imóveis vazios no país. Esse contraste ajuda a mostrar que o problema brasileiro não envolve apenas falta de riqueza produzida, mas também distribuição desigual de recursos e infraestrutura.

A desigualdade acumulada ao longo da vida também aparece na velhice.

O Brasil registrou crescimento acelerado da população idosa nas últimas décadas, mas isso não significa a mesma experiência para todas as classes sociais. O envelhecimento da população brasileira também expõe diferenças econômicas acumuladas ao longo da vida.

A dependência da Previdência Social também ajuda a entender a importância das políticas públicas redistributivas. Sem os benefícios do INSS, a pobreza entre idosos aumentaria drasticamente. Idosos pobres possuem piores indicadores de saúde, menos acesso a planos privados e menor renda disponível.

Ao mesmo tempo, o debate sobre Previdência frequentemente aparece associado ao déficit fiscal sem considerar diferenças internas entre regimes.

Em 2025, por exemplo, quase metade do orçamento da Defesa foi destinada a aposentadorias e pensões militares. Segundo cálculos do Tribunal de Contas da União (TCU), um beneficiário do sistema de proteção social dos militares pesa, em média, 17 vezes mais no déficit público do que um aposentado do Regime Geral do INSS.

Essas diferenças mostram que o debate sobre gastos públicos também envolve distribuição desigual de benefícios estatais.

Políticas públicas reduziram desigualdades, mas a renda segue concentrada.

O Brasil sustenta um modelo em que o crescimento econômico se concentra nas camadas mais altas da sociedade, ampliando a desigualdade entre os mais pobres.
O Brasil sustenta um modelo em que o crescimento econômico se concentra nas camadas mais altas da sociedade, ampliando a desigualdade entre os mais pobres. (Foto: Expresso.PT)

No Brasil, políticas de redistribuição de renda alteraram parte dos indicadores sociais nas últimas décadas.

Programas de transferência de renda ampliaram o acesso à alimentação, consumo básico e permanência escolar entre famílias de baixa renda. Na educação, políticas como Lei de Cotas, ProUni, Fies e expansão do Enem aumentaram o acesso de estudantes de escolas públicas ao ensino superior.

Na saúde, o SUS continua sendo a principal porta de acesso a consultas, vacinação, medicamentos e atendimento hospitalar para grande parte da população. Ainda assim, esses avanços coexistem com alta concentração de renda e diferenças históricas no acesso à moradia, patrimônio e infraestrutura pública.

Isso ajuda a explicar por que o crescimento da economia, sozinho, não resolve problemas estruturais.

A distribuição de renda depende de decisões sobre salário mínimo, tributação, acesso à educação, política habitacional, crédito, previdência e investimentos públicos. A forma como a riqueza produzida circula entre os diferentes grupos sociais também influencia esse processo.

Por que o crescimento econômico não reduz a desigualdade econômica?

O Brasil cresceu em diferentes períodos da história contemporânea. Mas os dados mostram que crescimento econômico e redução da desigualdade não caminham automaticamente juntos.

Enquanto o PIB sobe, parte significativa da população continua vivendo com baixa renda, dificuldade de acesso à moradia e insegurança financeira. Ao mesmo tempo, patrimônio, ativos financeiros e lucros seguem concentrados em grupos menores da sociedade.

A permanência da desigualdade ajuda a explicar por que o debate econômico brasileiro continua girando em torno de distribuição de renda, tributação, salários e proteção social.

Nos últimos anos, o Brasil ampliou o acesso ao ensino superior, fortaleceu programas de transferência de renda e consolidou políticas públicas que alteraram parte dos indicadores sociais. Ao mesmo tempo, os dados sobre concentração patrimonial, renda e acesso a oportunidades mostram que a desigualdade continua atravessando o mercado de trabalho, o sistema tributário, a moradia e o envelhecimento da população.

O debate sobre desigualdade econômica no Brasil, portanto, não envolve apenas quanto o país produz. Também envolve quem participa dessa riqueza, quem permanece excluído dela e quais escolhas econômicas continuam organizando essa distribuição.


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