Peronismo na Argentina: história, ideologia e transformações

O peronismo é um dos fenômenos políticos mais duradouros da América Latina. Surgido na Argentina durante a década de 1940, ele se consolidou como movimento de massas, doutrina ideológica e força social capaz de atravessar diferentes regimes, golpes e crises econômicas.
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Por Leila Cangussu

O peronismo é um dos fenômenos políticos mais duradouros da América Latina. Surgido na Argentina durante a década de 1940, ele se consolidou como movimento de massas, doutrina ideológica e força social capaz de atravessar diferentes regimes, golpes e crises econômicas.

Criado a partir da liderança de Juan Domingo Perón e sustentado pela mobilização dos trabalhadores, o peronismo transformou a estrutura do Estado argentino, influenciou políticas públicas e redefiniu a relação entre governo e sociedade.

Mais de sete décadas depois, o peronismo continua presente nas instituições, nos partidos e na cultura política do país. Suas ideias originais — justiça social, independência econômica e soberania política — seguem sendo reinterpretadas por governos de diferentes orientações.

Para entender a Argentina contemporânea, é preciso compreender a formação e as contradições desse movimento que une populismo, nacionalismo e pragmatismo político.

A ascensão de Juan Domingo Perón e a origem do movimento

O peronismo nasceu em um momento de instabilidade política e econômica na Argentina. Após a chamada Década Infame, marcada por fraudes eleitorais e forte dependência comercial do Reino Unido, um grupo de militares nacionalistas tomou o poder em 1943. Entre eles estava o então coronel Juan Domingo Perón, figura que uniria experiência militar, habilidade política e um olhar atento às transformações sociais do país.

Formado no Colégio Militar e especializado em assuntos trabalhistas e de defesa nacional, Perón atuou como adido militar na Itália durante o governo de Mussolini, experiência que influenciou seu entendimento sobre o papel do Estado e das massas organizadas na política. Ao voltar à Argentina, aproximou-se de setores nacionalistas do Exército e se destacou como articulador entre as forças armadas e o mundo do trabalho.

No novo governo, Perón assumiu a Secretaria do Trabalho e da Previdência, onde passou a construir as bases de um projeto político de alcance popular. Criou medidas voltadas à classe trabalhadora, como o reconhecimento de sindicatos, o aumento de salários e a ampliação de direitos sociais. Esse conjunto de ações consolidou sua imagem como defensor dos operários, migrantes internos e setores urbanos empobrecidos, que viam nele um porta-voz de suas reivindicações.

O vínculo entre Perón e os trabalhadores se fortaleceu em outubro de 1945, quando ele foi preso por adversários dentro do próprio governo. Em resposta, uma multidão ocupou as ruas de Buenos Aires exigindo sua libertação. O episódio, conhecido como o Dia da Lealdade, tornou-se o marco simbólico do nascimento do movimento peronista.

Trabalhadores reunidos na Praça de Maio, em Buenos Aires, durante o Dia da Lealdade, em 17 de outubro de 1945. A mobilização exigiu a libertação de Juan Domingo Perón e marcou o nascimento do peronismo como movimento político e social de massas na Argentina. Foto: Wikipedia
Trabalhadores reunidos na Praça de Maio, em Buenos Aires, durante o Dia da Lealdade, em 17 de outubro de 1945. A mobilização exigiu a libertação de Juan Domingo Perón e marcou o nascimento do peronismo como movimento político e social de massas na Argentina. Foto: Wikipedia

Poucos meses depois, em fevereiro de 1946, Perón venceu as eleições presidenciais com 52,4% dos votos, derrotando a coligação opositora União Democrática. A partir daí, a Argentina entrou em um novo ciclo político, sustentado pela mobilização popular, pelo fortalecimento do Estado e pela centralização do poder em torno de sua figura.

O justicialismo e as ideologias do peronismo

A estrutura ideológica do peronismo foi construída em torno da doutrina do Justicialismo, formulada por Juan Domingo Perón como uma alternativa às duas principais forças políticas do século XX: o capitalismo liberal e o socialismo marxista. Sua proposta buscava uma “terceira posição”, que colocasse o Estado como mediador entre capital e trabalho, garantindo equilíbrio social e desenvolvimento nacional.

Justiça social, independência econômica e soberania política

O justicialismo partia da ideia de que o conflito entre patrões e empregados poderia ser resolvido por meio da intervenção estatal e da cooperação entre as classes. O Estado deveria assegurar direitos trabalhistas, promover a produção nacional e defender a soberania do país diante de interesses estrangeiros.

Os pilares do Justicialismo foram resumidos em três princípios: justiça social, independência econômica e soberania política.

  • A justiça social defendia a redistribuição de renda e a valorização do trabalho como caminho para reduzir desigualdades.
  • A independência econômica visava diminuir a dependência da Argentina em relação às potências externas, estimulando a industrialização e o controle nacional de recursos estratégicos.
  • Já a soberania política expressava a necessidade de preservar a autonomia das decisões nacionais e o protagonismo da Argentina no cenário regional.

O peronismo não se encaixava em uma ideologia única. Misturava elementos de nacionalismo econômico, catolicismo social e populismo trabalhista, o que lhe deu amplitude e capacidade de adaptação. Essa combinação permitiu que o movimento sobrevivesse a diferentes conjunturas políticas e econômicas, sem perder sua base popular.

Reformas sociais e construção do Estado peronista

Durante seu primeiro governo, entre 1946 e 1952, Perón transformou profundamente o papel do Estado argentino. Ele implementou uma política de forte intervenção econômica, nacionalizando setores estratégicos como ferrovias, energia e comércio exterior. Criou o Instituto Argentino de Promoção do Intercâmbio (IAPI), responsável por centralizar as exportações e garantir que parte dos lucros do setor agroexportador fosse reinvestida no desenvolvimento industrial.

Ao mesmo tempo, consolidou um Estado de bem-estar que ampliou direitos e benefícios sociais. Foram criadas leis trabalhistas que garantiam férias remuneradas, 13º salário, seguro-desemprego e aposentadoria. O governo investiu na construção de moradias populares, hospitais, escolas e centros esportivos, reforçando a presença do Estado na vida cotidiana.

O papel de Eva Perón e o vínculo com os trabalhadores

Nesse contexto, Eva Duarte de Perón, conhecida como Evita, tornou-se uma das figuras centrais do peronismo. Nascida em 1919, em uma família humilde da província de Buenos Aires, iniciou a carreira como atriz e radialista antes de se casar com Juan Perón, em 1945. A partir da ascensão do marido ao poder, Evita construiu uma trajetória pública marcada pela defesa dos mais pobres e pela promoção dos direitos das mulheres.

Como primeira-dama, criou a Fundação Eva Perón, responsável por programas de assistência social, distribuição de alimentos e construção de hospitais e escolas. Também liderou a criação do Partido Peronista Feminino e foi uma das principais articuladoras da conquista do voto feminino em 1947, marco histórico na política argentina.

Eva Duarte de Perón, a Evita, deixou o rádio e o teatro para se tornar uma das figuras mais influentes da história política argentina. Foto: reprodução
Eva Duarte de Perón, a Evita, deixou o rádio e o teatro para se tornar uma das figuras mais influentes da história política argentina. Foto: reprodução

Carismática, disciplinada e próxima das bases populares, Evita consolidou o elo emocional entre o peronismo e a classe trabalhadora. Sua atuação reforçou a imagem de Perón como líder que representava o povo e legitimou o projeto de Estado que buscava unir progresso econômico e inclusão social. Sua morte precoce, em 1952, aos 33 anos, transformou-a em mito político e símbolo duradouro da identidade peronista.

O resultado desse período foi uma reorganização profunda da sociedade argentina. Os sindicatos se tornaram pilares do regime, o Estado assumiu o papel de mediador entre as classes e o consumo interno cresceu. Essa aliança entre governo, trabalhadores e nacionalismo social definiu a base do Estado peronista, que continuaria a influenciar a política argentina pelas décadas seguintes.

Controle político e autoritarismo

O fortalecimento do Estado peronista também significou o aumento do controle político. Ao mesmo tempo em que ampliava direitos sociais e consolidava a presença do Estado na economia, o governo de Juan Domingo Perón concentrou poder e restringiu o espaço da oposição.

A imprensa passou a sofrer censura e vigilância. Jornais e rádios críticos ao governo foram fechados ou colocados sob intervenção. Partidos opositores enfrentaram perseguições, e líderes que contestavam o regime foram presos ou afastados da vida pública.

A estrutura sindical, reorganizada sob influência direta do governo, foi incorporada à lógica estatal. A Confederação Geral do Trabalho (CGT), principal central sindical da Argentina, transformou-se em um dos pilares de sustentação do peronismo, funcionando como elo entre o Estado e os trabalhadores.

Essa centralização de poder fez parte de uma estratégia política que buscava garantir estabilidade e continuidade ao projeto justicialista, mas acabou reduzindo o pluralismo e a autonomia das instituições.

A relação de Perón com a Igreja Católica, que inicialmente era próxima, começou a se deteriorar a partir de 1954. O governo propôs uma reforma constitucional que ampliava os poderes presidenciais e defendia a separação entre Igreja e Estado, medida que gerou forte resistência em setores conservadores. A ruptura se aprofundou quando o regime proibiu procissões religiosas e retirou o ensino religioso das escolas públicas.

O conflito com a Igreja somou-se às tensões com empresários, militares e parte da elite urbana, que viam o peronismo como uma ameaça à ordem tradicional. O cenário de polarização e desgaste político criou as condições para o golpe de Estado que, no ano seguinte, colocaria fim ao segundo governo de Perón.

A Revolução Libertadora e o exílio de Perón

Em 16 de setembro de 1955, um levante militar conhecido como Revolução Libertadora derrubou o governo de Juan Domingo Perón. O golpe foi liderado pelos generais Eduardo Lonardi e Pedro Eugenio Aramburu, com apoio da Marinha, de parte do Exército e de setores civis ligados à oposição conservadora.

A insurreição começou na província de Córdoba e rapidamente se espalhou pelo país. Os confrontos foram intensos e envolveram as três forças armadas. A Aviação Naval chegou a bombardear Buenos Aires, atingindo a Casa de Governo e áreas próximas à Praça de Maio, o que deixou centenas de mortos e feridos.

Diante da pressão militar e do avanço dos rebeldes, Perón renunciou à presidência e buscou asilo político no Paraguai, iniciando um exílio que duraria 18 anos.

Após o golpe de 1955, Juan Domingo Perón se exilou por 18 anos, passando por Paraguai, Venezuela e Espanha. A queda do governo marcou o início da Revolução Libertadora. Foto: Getty Images
Após o golpe de 1955, Juan Domingo Perón se exilou por 18 anos, passando por Paraguai, Venezuela e Espanha. A queda do governo marcou o início da Revolução Libertadora. Foto: Getty Images

A repressão e a resistência clandestina do movimento

O novo regime instaurou uma ditadura militar, dissolveu o Congresso Nacional, depôs a Corte Suprema e cassou os direitos políticos de milhares de peronistas.

Nos primeiros meses, o general Eduardo Lonardi tentou adotar uma postura conciliadora, mas logo foi substituído por Pedro Eugenio Aramburu, que endureceu o regime. O governo passou a perseguir sistematicamente militantes e simpatizantes do peronismo. Símbolos ligados ao movimento — como retratos de Perón e Evita, hinos e até menções públicas aos seus nomes — foram proibidos.

Mesmo assim, o peronismo não desapareceu. Sobreviveu na clandestinidade, sustentado pela lealdade de sindicatos, trabalhadores e setores populares. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) manteve sua influência e organizou greves e manifestações que mantiveram viva a identidade do movimento.

Durante o exílio, Perón viveu em diferentes países, entre eles Venezuela e Espanha, de onde continuou a se comunicar com seus seguidores. Suas mensagens, transmitidas por emissários e rádios clandestinas, ajudaram a preservar a ideia de que o peronismo era mais do que um partido político: era uma causa nacional.

A Revolução Libertadora não eliminou o peronismo; ao contrário, reforçou seu caráter simbólico e consolidou sua presença na memória coletiva da Argentina.

O retorno e o segundo ciclo peronista

Em 1973, após quase duas décadas de proscrição, o peronismo voltou à cena política argentina. As greves, mobilizações populares e a crise de legitimidade dos governos militares pressionaram o regime a convocar novas eleições. Com a proibição ao seu nome retirada, Juan Domingo Perón pôde, finalmente, retornar ao país.

A volta de Perón representou um momento de euforia nacional, mas também revelou as contradições internas do movimento. O peronismo já não era o mesmo dos anos 1940. Estava fragmentado entre diferentes correntes: de um lado, as alas de esquerda, como os Montoneros e setores sindicais progressistas; de outro, os setores conservadores, próximos à Igreja e às Forças Armadas.

O líder buscou se colocar como figura de unidade, tentando equilibrar as pressões de ambos os lados, mas as tensões logo se tornaram visíveis. Disputas internas, greves e episódios de violência marcaram esse novo ciclo. Ainda assim, Perón conseguiu vencer as eleições de 1973 e reassumir a presidência, quase vinte anos depois de ter sido deposto pela Revolução Libertadora.

Juan Domingo Perón durante seu discurso de posse em 12 de dezembro de 1973, ao assumir a Presidência da Argentina pela terceira vez. O retorno marcou o fim de 18 anos de exílio e a tentativa de reunificar um país dividido entre diferentes correntes do próprio peronismo. Foto: Universidad Nacional de La Plata
Juan Domingo Perón durante seu discurso de posse em 12 de dezembro de 1973, ao assumir a Presidência da Argentina pela terceira vez. O retorno marcou o fim de 18 anos de exílio e a tentativa de reunificar um país dividido entre diferentes correntes do próprio peronismo. Foto: Universidad Nacional de La Plata

A esperança de estabilidade, porém, durou pouco. Juan Domingo Perón morreu em 1974, deixando o país novamente em meio à polarização política e à crise econômica.

Isabel Perón e o fim da experiência democrática dos anos 1970

Após a morte de Perón, o poder foi transferido à sua esposa e vice-presidente, Isabel Martínez de Perón, que havia se aproximado do movimento peronista durante o exílio.

Sem a mesma habilidade política do marido e enfrentando forte resistência de grupos armados e das Forças Armadas, Isabel Perón assumiu um governo fragilizado. A inflação aumentou, os conflitos sociais se agravaram e a violência política atingiu níveis inéditos.

Isabel Perón em cerimônia oficial na Casa Rosada, em 1975. Sua breve presidência ficou marcada por forte instabilidade política, repressão interna e pelo avanço das tensões que antecederam a ditadura militar argentina. Foto: BBC
Isabel Perón em cerimônia oficial na Casa Rosada, em 1975. Sua breve presidência ficou marcada por forte instabilidade política, repressão interna e pelo avanço das tensões que antecederam a ditadura militar argentina. Foto: BBC

Em 1976, um novo golpe militar depôs Isabel e instaurou a ditadura mais repressiva da história argentina, marcando o fim do segundo ciclo peronista e abrindo um dos períodos mais sombrios do país.

O peronismo após a redemocratização

Com o retorno da democracia em 1983, o peronismo voltou a disputar o poder formalmente por meio do Partido Justicialista, criado por Juan Domingo Perón ainda na década de 1940. Mesmo após décadas de golpes e proibições, a legenda manteve presença constante nos sindicatos, nas províncias e na memória popular.

O ciclo de Carlos Menem e a guinada neoliberal

Em 1989, o ex-governador de La Rioja, Carlos Menem, foi eleito presidente e conduziu o país a uma profunda transformação econômica. Sob seu governo, o peronismo adotou políticas neoliberais, com ampla agenda de privatizações, abertura comercial e alinhamento aos Estados Unidos. A década de 1990 foi marcada por estabilidade inicial e crescimento, seguidos por desemprego e endividamento, que expuseram os limites do modelo.

Mesmo ao adotar políticas opostas às do peronismo original, Menem manteve o discurso da unidade nacional e da estabilidade social. Sua gestão consolidou a imagem do peronismo como um movimento camaleônico, capaz de se adaptar a diferentes conjunturas e abrigar correntes ideológicas diversas — da direita conservadora aos setores progressistas.

O kirchnerismo e a retomada das pautas sociais

Nos anos 2000, o movimento voltou a enfatizar suas raízes sociais e nacionalistas com a chegada do kirchnerismo. Sob os governos de Néstor Kirchner (2003–2007) e Cristina Fernández de Kirchner (2007–2015), a Argentina revalorizou o papel do Estado na economia, renegociou a dívida externa e ampliou programas de inclusão social.

Néstor Kirchner, ex-governador da província de Santa Cruz, assumiu o país após a grave crise de 2001, que derrubou o governo de Fernando de la Rúa. Seu governo buscou recuperar a autonomia política e econômica perdida durante o ciclo neoliberal. Ao seu lado, Cristina Fernández de Kirchner, advogada e senadora, manteve a mesma linha após sua eleição, reforçando políticas de redistribuição de renda e integração latino-americana.

O peronismo ganhou novo fôlego nesse período, retomando parte do protagonismo popular que o havia consagrado décadas antes. Ao atualizar suas pautas sociais e recuperar o discurso de soberania, o kirchnerismo mostrou como o movimento seguia sendo uma das forças políticas mais influentes da Argentina.

Contradições e transformações recentes

Nas últimas décadas, o peronismo enfrentou o desafio de conciliar sua herança popular com as exigências de uma economia globalizada. As divisões internas se aprofundaram entre kirchneristas, peronistas moderados e setores conservadores, refletindo a dificuldade do movimento em manter um projeto unificado.

O governo de Alberto Fernández e o retorno das tensões internas

Em 2019, a chapa formada por Alberto Fernández e Cristina Fernández de Kirchner devolveu o peronismo ao poder. A aliança entre um político moderado e uma ex-presidenta de perfil mais à esquerda simbolizou o esforço de reconstrução interna, mas o governo enfrentou um cenário adverso: recessão, inflação e desconfiança social.

O desgaste político e a insatisfação com a economia abriram espaço para uma nova força: a direita ultraliberal, representada por Javier Milei, eleito presidente em 2023. Seu discurso de ruptura contra “a casta política” mirava tanto as elites tradicionais quanto o próprio peronismo, que durante décadas havia ocupado o centro do poder na Argentina.

Mesmo fora do governo, o movimento segue com presença significativa nas províncias, nos sindicatos e nas bases populares. Sua capacidade de reorganização política e simbólica permanece como um fator determinante na dinâmica do país, ainda que suas bandeiras originais sejam constantemente reinterpretadas diante das novas realidades econômicas e sociais.

A ideologia em disputa

Desde sua fundação, o peronismo incorporou elementos contraditórios, oscilando entre o nacionalismo conservador e as pautas progressistas. Essa flexibilidade ideológica explica tanto sua longevidade quanto suas crises.

Entre o nacionalismo e o progressismo: o peronismo como identidade social

Para seus críticos, o movimento foi responsável por alimentar a dependência do Estado, o intervencionismo econômico e o enfraquecimento institucional. Para seus defensores, representa a principal expressão de justiça social, soberania nacional e autonomia popular da história argentina.

Ao longo do tempo, o peronismo deixou de ser apenas um projeto político para se tornar uma identidade social. Essa identidade se manifesta em símbolos, rituais e datas comemorativas que reforçam a ligação entre povo, trabalho e nação.

A lealdade emocional de amplos setores da sociedade ao legado de Perón e Evita mostra que o movimento transcende governos e partidos, funcionando como referência cultural e afetiva no imaginário argentino.

As figuras de Evita e Juan Domingo Perón seguem presentes nas ruas argentinas, especialmente em atos e mobilizações populares. Foto: Getty Images
As figuras de Evita e Juan Domingo Perón seguem presentes nas ruas argentinas, especialmente em atos e mobilizações populares. Foto: Getty Images

O peronismo diante da nova direita argentina

O peronismo nasceu em meio à crise, cresceu com o apoio popular e sobreviveu a golpes, rupturas e contradições internas. Ao longo de mais de sete décadas, deixou de ser apenas um movimento político para se tornar parte da identidade argentina — um reflexo das disputas entre Estado e mercado, povo e elite, estabilidade e transformação.

Sua história mostra a capacidade de adaptação de um projeto que atravessou contextos diversos, redefinindo o papel do Estado e os limites da política social. Mas também evidencia como essa flexibilidade abriu espaço para leituras opostas: para uns, o peronismo é sinônimo de inclusão e soberania; para outros, representa dependência estatal e estagnação.

A vitória de Javier Milei em 2023 marcou o início de um novo capítulo nessa trajetória. Economista de perfil ultraliberal, Milei chegou ao poder com um discurso de ruptura contra o que chama de “casta política” — expressão que engloba justamente o sistema que o peronismo ajudou a construir. Sua ascensão traduz o cansaço de parte da sociedade com décadas de crise econômica e desconfiança nas instituições.

No entanto, mesmo diante dessa virada, o peronismo continua presente nas bases sindicais, nas províncias e no imaginário social argentino. A história mostra que o movimento sempre encontrou caminhos para se reorganizar e voltar ao centro do debate.

O confronto entre o liberalismo radical de Milei e o legado peronista redefine, mais uma vez, as fronteiras da política argentina.

Entender essa tensão é compreender a Argentina de hoje — um país que continua oscilando entre a promessa de mudança e a busca por um projeto nacional capaz de equilibrar justiça social, crescimento econômico e soberania.

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