Delegado afastado por Mendonça recusou operação golpista contra eleitores do Nordeste

Nomeado pelo próprio ministro no governo Bolsonaro, Almada também comandou a PF no caso Marielle
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Por Cleber Lourenço

O delegado Leandro Almada, afastado nesta terça-feira (8) da Diretoria de Inteligência da Polícia Federal por decisão do ministro André Mendonça, recusou participar da operação policial articulada às vésperas do segundo turno de 2022 e posteriormente relacionada à trama golpista para dificultar o deslocamento de eleitores, sobretudo no Nordeste.

Cinco dias antes da votação entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), o então ministro da Justiça Anderson Torres foi à Bahia acompanhado do diretor-geral da PF na época, Márcio Nunes, e se reuniu com Almada, que comandava a corporação no estado.

Em depoimento prestado posteriormente à PF, Almada afirmou que Torres e Nunes propuseram uma atuação conjunta da Polícia Federal com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) durante o segundo turno. O delegado considerou a iniciativa “inadequada” e não aderiu.

Almada relatou ainda que houve pressão para aumentar o número de policiais federais nas ruas, apesar de mais de 70% do efetivo já estar mobilizado. A Bahia era o maior colégio eleitoral do Nordeste e daria 72,12% dos votos válidos a Lula no segundo turno.

As investigações posteriores revelaram que o Ministério da Justiça havia levantado municípios nos quais o petista obtivera votação expressiva. A utilização da PRF para dificultar o deslocamento de eleitores no Nordeste passou a integrar a acusação da Procuradoria-Geral da República contra integrantes da trama golpista.

O STF condenou, em 2025, integrantes do chamado Núcleo 2 e reconheceu entre as ações do grupo o uso da estrutura da PRF para dificultar o deslocamento de eleitores nordestinos.

Almada nunca foi acusado de participar da trama. Ao contrário: recusou envolver a PF da Bahia na ação proposta por Torres e seu depoimento ajudou posteriormente a reconstruir a movimentação realizada às vésperas da eleição.

Mendonça havia nomeado Almada no governo Bolsonaro

A trajetória de Almada torna a decisão desta terça particularmente incomum. O delegado afastado agora por Mendonça já havia sido escolhido pelo próprio ministro para ocupar um cargo de direção durante o governo Bolsonaro.

Em julho de 2020, quando comandava o Ministério da Justiça, Mendonça nomeou Almada diretor de Operações da Secretaria de Operações Integradas (Seopi).

Almada, portanto, não é um quadro que tenha ascendido apenas com a atual direção da Polícia Federal. Durante o governo Bolsonaro, passou por sucessivos postos de comando.

Foi delegado regional executivo da PF no Amazonas e, em abril de 2021, assumiu a superintendência da corporação no estado. Entrou no lugar de Alexandre Saraiva, que deixava o posto em meio ao confronto com o então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles após enviar ao STF uma notícia-crime contra ele.

Em 2022, ainda sob Bolsonaro, Almada foi transferido para a superintendência da Bahia. Foi nesse cargo que, meses depois, recebeu a visita de Torres e recusou a atuação conjunta com a PRF no segundo turno.

Cláudio Castro tentou barrar Almada no Rio

A chegada de Lula à Presidência levou Almada a outro posto estratégico. Em fevereiro de 2023, ele assumiu a Superintendência da PF no Rio de Janeiro. A escolha, porém, enfrentou resistência no próprio estado.

Marcelo Freixo relatou à revista piauí que o então governador Cláudio Castro (PL), aliado histórico do bolsonarismo, atuou contra a nomeação. Segundo Freixo, Castro desconfiava que Almada estivesse envolvido em uma investigação sobre corrupção que o atingia.

A resistência também foi relatada publicamente na época. Em fevereiro de 2023, o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) afirmou na tribuna da Câmara que políticos do Rio haviam feito uma “peregrinação” no Ministério da Justiça para impedir que Almada assumisse.

Mais recentemente, Eduardo Paes (PSD) acrescentou outro relato. Segundo ele, Castro telefonou pessoalmente, em janeiro de 2023, pedindo apoio para tentar convencer Lula a desistir da nomeação. Paes afirmou que recusou o pedido. Na versão atribuída ao então governador, Almada seria ligado a Freixo e poderia perseguir políticos no estado.

A pressão fracassou. Almada assumiu a PF fluminense e colocou entre as prioridades o combate à corrupção e ao crime organizado.

Foi nesse posto que voltou a uma investigação que conhecia desde o governo Bolsonaro: os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Almada já havia apontado Brazão em 2019

A relação de Almada com o caso Marielle começou anos antes de sua chegada ao comando da PF no Rio.

Em 2019, ele coordenou a investigação federal sobre possíveis tentativas de obstruir o inquérito conduzido pela Polícia Civil. A PF identificou uma trama para plantar informações falsas e direcionar as suspeitas para pessoas que não haviam mandado executar a vereadora.

O relatório assinado por Almada naquele ano já colocava Domingos Brazão no centro das suspeitas.

O delegado escreveu que Brazão era, a partir de outros dados disponíveis à PF, o “principal suspeito de ser o autor intelectual” dos assassinatos e defendeu que essa hipótese fosse investigada. Naquele momento, entretanto, ainda não havia provas suficientes para responsabilizá-lo pelo crime.

Quatro anos depois, Almada voltaria ao caso em posição ainda mais estratégica.

Sob seu comando no Rio, a PF participou da fase que rompeu anos de impasse na investigação. Foram fechadas as colaborações dos executores Élcio de Queiroz e Ronnie Lessa e a apuração avançou sobre os suspeitos de encomendar e proteger a execução.

Em março de 2024, a PF prendeu Domingos Brazão, Chiquinho Brazão e Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil fluminense. Almada estava no comando da superintendência e participou do trabalho que levou aos suspeitos de mandar matar Marielle.

O delegado que havia colocado Brazão no radar da PF em 2019, portanto, comandava a corporação no Rio quando a investigação chegou a ele cinco anos depois.

Investigação provocou “fogo amigo”

O avanço da investigação ocorreu em meio a uma relação turbulenta com setores do governo fluminense.

Em março de 2024, a CNN revelou que Almada sofreu “fogo amigo” permanente de integrantes do governo do Rio durante os trabalhos da força-tarefa do caso Marielle. Segundo uma fonte que participou da investigação, o delegado precisou ser blindado pelo então ministro da Justiça Flávio Dino.

Havia também forte desconfiança entre integrantes da PF e da Polícia Civil. O problema ganharia outra dimensão quando a investigação chegou justamente a Rivaldo Barbosa, que havia comandado a Polícia Civil e foi acusado de participar da engrenagem montada para garantir a impunidade dos assassinatos.

A resistência a Almada, portanto, começou antes de sua posse e continuou durante sua passagem pela superintendência.

Da investigação de Marielle à Inteligência da PF

O trabalho no Rio levou Almada, no fim de 2024, a um dos postos mais sensíveis da Polícia Federal.

Andrei Rodrigues o escolheu para assumir a Diretoria de Inteligência Policial, estrutura que concentrava alguns dos principais inquéritos envolvendo Bolsonaro e seu entorno, entre eles as investigações sobre a tentativa de golpe de Estado, as joias sauditas, o 8 de Janeiro e a chamada Abin paralela.

Foi desse cargo que Almada acabou afastado por Mendonça nesta terça-feira.

O ministro também determinou o afastamento de Andrei e mandou a Corregedoria da PF apurar a produção de relatórios de inteligência que, segundo ele, configurariam monitoramento ilegal de autoridades. Mendonça afirma que os documentos revelam condutas de “superlativa gravidade” e potenciais ilegalidades.

A Segunda Turma do STF formou maioria para referendar a decisão, com os votos de Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanhando Mendonça. Gilmar Mendes pediu vista do processo, mas o afastamento permanece em vigor.

A decisão ocorre em meio à crise aberta entre Mendonça, Alexandre de Moraes e a cúpula da Polícia Federal em torno das investigações do Banco Master.

No caso de Almada, o histórico acrescenta um componente político particular ao afastamento. O delegado atingido agora pela decisão de Mendonça foi nomeado pelo próprio ministro no governo Bolsonaro, comandou duas superintendências da PF naquela gestão, recusou colocar a corporação na operação proposta por Anderson Torres às vésperas do segundo turno de 2022, enfrentou resistência do governo de Cláudio Castro no Rio e comandou a PF fluminense na fase decisiva da investigação sobre os mandantes do assassinato de Marielle Franco.

Depois dessa trajetória, chegou ao comando da Inteligência da PF. É desse posto que André Mendonça, seis anos depois de tê-lo levado para um cargo de direção no Ministério da Justiça, decidiu afastá-lo.

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