Denúncia aponta venda de imagens de tortura e mortes ligadas à PM do Paraná

Deputados denunciam ao Ministério Público esquema que cobrava R$ 20 por acesso a grupo no Telegram com vídeos e fotos explícitas de violência policial
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Por Cleber Lourenço

Uma denúncia encaminhada ao Ministério Público do Paraná aponta para a existência de um esquema que transformava cenas de extrema violência em produto. Um perfil no Instagram que fazia referência à Polícia Militar do Paraná era usado para divulgar imagens de operações policiais e vender acesso a um grupo privado no Telegram, onde eram disponibilizados vídeos e fotografias explícitas de pessoas torturadas, mortas ou gravemente feridas.

O caso foi levado ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e à Promotoria de Proteção aos Direitos Humanos pelos deputados estaduais Renato Freitas e Arilson Chiorato (PT). Em entrevista ao ICL Notícias, Renato afirmou que seu gabinete não apenas recebeu a denúncia anônima, como realizou uma apuração própria, acessou o grupo pago e identificou indícios que, segundo ele, justificaram o encaminhamento do caso às autoridades.

“Nós recebemos uma denúncia sobre a existência de um perfil no Instagram, onde estavam sendo divulgadas imagens de violência policial associadas à comercialização de um grupo no Telegram.”

Segundo o parlamentar, a equipe decidiu verificar o conteúdo antes de formalizar a representação.

“Fizemos uma apuração no próprio perfil do Instagram e pudemos perceber várias conexões de policiais marcados em publicações, perfis oficiais da Polícia Militar e até parlamentares que seguem o perfil, como é o caso do vereador Gustavo Silveira da Costa, conhecido como Da Costa do Perdeu Piá, da Câmara dos Vereadores de Curitiba, e do deputado estadual Delegado Tito Barichello.”

Até o momento, não há indícios de participação dos parlamentares citados na administração da página, na comercialização do grupo ou no envio das imagens. A menção feita por Renato se refere ao fato de ambos aparecerem entre os seguidores do perfil.

Grupo funcionava por assinatura

Os documentos obtidos pelo ICL Notícias mostram que o perfil, identificado como “Militar do Paraná”, direcionava os seguidores para uma página de pagamento hospedada na plataforma Botgram.

Após o pagamento de R$ 20 por mês, o usuário recebia acesso ao chamado “Grupo Vip da Gurizada”, no Telegram.

A própria página de pagamento informava que mais de 100 assinaturas haviam sido vendidas, sugerindo uma estrutura organizada para monetização do conteúdo. Os documentos, contudo, não esclarecem se esse número corresponde a assinantes ativos ou ao total histórico de vendas realizadas.

Caso todas as assinaturas estivessem ativas, a arrecadação poderia superar R$ 2 mil por mês.

“Ficamos horrorizados”

Segundo Renato Freitas, o momento mais impactante da apuração ocorreu quando a equipe conseguiu entrar no grupo privado.

“Em seguida, tivemos acesso aos conteúdos do grupo no Telegram e ficamos horrorizados. O grupo existe desde abril e publicava cotidianamente imagens de operações policiais com vídeos e fotos explícitas de pessoas sendo torturadas ou mortas nessas operações.”

A declaração representa um ponto importante da apuração. Enquanto os ofícios encaminhados ao Ministério Público registram a existência da denúncia e descrevem o conteúdo de forma cautelosa, o deputado afirma que o gabinete visualizou diretamente o material comercializado.

Segundo os documentos, o grupo era atualizado constantemente com novas imagens e vídeos. O Instagram funcionava como vitrine para atrair novos assinantes, anunciando nos stories a chegada de conteúdos inéditos.

O Instagram funcionava como vitrine

Uma das imagens anexadas aos ofícios mostra um story utilizado para divulgar o grupo pago.

Segundo o relato apresentado pelos deputados, o vídeo exibia um homem sendo coagido a repetir a frase “A Polícia Militar é foda”, seguida da expressão “Fã número 1 da página”.

Sobre a imagem aparecia a frase:

“Issuu tu só encontra lá.”

A mensagem funcionava como propaganda para incentivar seguidores a pagar pela assinatura do grupo privado.

Além desse material, a representação encaminhada ao Ministério Público reúne diversas capturas de tela mostrando corpos ensanguentados, pessoas gravemente feridas, indivíduos caídos no chão e cenas de extrema violência utilizadas para divulgar o perfil.

Suspeita de uma estrutura organizada

Para os autores da denúncia, a principal gravidade do caso não está apenas na publicação de imagens violentas.

A suspeita é de que existisse uma estrutura organizada para captar, divulgar e comercializar registros produzidos durante operações policiais.

Os deputados pedem que a investigação esclareça quem administrava o perfil no Instagram; quem controlava o grupo no Telegram; quem recebia os pagamentos das assinaturas; quem produzia ou fornecia as imagens; e se policiais militares participaram diretamente da obtenção, do envio ou da divulgação do conteúdo.

Os documentos encaminhados ao Ministério Público não identificam nominalmente os administradores da página nem individualizam eventuais policiais envolvidos. Essa é justamente uma das frentes da investigação solicitada pelos parlamentares.

Pedido de investigação urgente

Nas representações encaminhadas ao Gaeco e à Promotoria de Proteção aos Direitos Humanos, Renato Freitas e Arilson Chiorato afirmam que o caso exige atuação imediata diante da possibilidade de destruição das provas digitais e da continuidade da comercialização do material.

Os deputados pedem preservação das provas, identificação dos responsáveis e tramitação sigilosa da investigação. Também sustentam que os fatos podem configurar violações à dignidade humana, eventual prática de tortura, comercialização de conteúdo criminoso e outros delitos cuja apuração dependerá da investigação do Ministério Público.

Ao ICL Notícias, Renato Freitas disse esperar que os responsáveis sejam identificados.

“Diante de tudo isso, nós fizemos uma denúncia no Ministério Público e esperamos que os administradores desses perfis e os militares envolvidos sejam identificados e respondam por seus atos.”

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