Deputado pede ao STF para investigar se advogado é ‘laranja’ de Flávio

Petição conecta patrimônio usado pelo senador aos casos Covaxin, fraudes no INSS e Banco Master e pede que PF rastreie dinheiro, imóveis e aeronaves
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Por Cleber Lourenço

O Supremo Tribunal Federal (STF) recebeu um pedido para investigar se o advogado e empresário Willer Tomaz funciona como “laranja” ou “testa de ferro” de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mantendo em seu nome ou no de suas empresas patrimônio utilizado ou aproveitado pelo senador. A petição apresentada pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) ao ministro Flávio Dino reúne conexões de Willer e Flávio em três frentes distintas — Covaxin, fraudes contra aposentados do INSS e Banco Master — e pede que a Polícia Federal cruze dados financeiros e patrimoniais para identificar quem realmente paga e se beneficia dos bens.

A suspeita não é apresentada como fato comprovado. O que o documento pede ao STF é justamente que seja investigada a hipótese de Willer e a WT Administração de Imóveis e Bens atuarem como “interpostas pessoas” de Flávio. Para isso, solicita acesso a relatórios de inteligência financeira, informações fiscais e societárias, registros de imóveis e voos e provas já produzidas em investigações do INSS e do Banco Master.

O ponto central do pedido é reunir peças que até agora estavam espalhadas por investigações diferentes. Willer apareceu no radar da CPI da Pandemia quando a comissão tentava descobrir as conexões de Flávio com o dono da Precisa Medicamentos; voltou a surgir na Operação Sem Desconto, sobre as fraudes no INSS; e, neste ano, uma empresa ligada ao advogado comprou de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, um apartamento posteriormente utilizado por Flávio como base de sua campanha presidencial.

Uma investigação interrompida na CPI da Pandemia

A primeira conexão remonta a outubro de 2020. Flávio participou de uma reunião entre o então presidente do BNDES, Gustavo Montezano, e Francisco Maximiano, dono da Precisa Medicamentos. Meses depois, a empresa intermediou o contrato de R$ 1,614 bilhão para o fornecimento de 20 milhões de doses da Covaxin ao Ministério da Saúde.

Quando o encontro veio a público, Flávio confirmou que havia pedido ao presidente do BNDES que recebesse Maximiano e afirmou conhecer o empresário por meio de “amigos em comum em Brasília”. Negou, porém, manter relação comercial ou financeira com ele. A identidade desses amigos não foi esclarecida.

Foi na tentativa de reconstruir essa rede que a CPI chegou a Willer. A comissão preparou um requerimento à Receita Federal para levantar dados cadastrais, participações societárias e gráficos de relacionamento de 11 pessoas, entre elas Willer, Maximiano, Frederick Wassef e Ricardo Barros, além de empresas relacionadas à Precisa.

A diligência não avançou. O requerimento disponível no sistema do Senado foi marcado como “tornado sem efeito por erro material”. Agora, a petição pede que a investigação que ficou pelo caminho em 2021 seja retomada e atualizada até 2026.

Elo chega ao escritório de Flávio no caso INSS

A segunda frente é a investigação sobre as fraudes contra aposentados e pensionistas.

Na Operação Sem Desconto, a Polícia Federal descreveu Willer como um “hub financeiro, patrimonial e logístico” de um núcleo político investigado. A petição aponta, então, uma ligação que chega à estrutura profissional de Flávio.

Letícia Caetano dos Reis, administradora da Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, declarou ter sido indicada para o posto por Willer. Ela é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, apontado como sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, em uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. O escritório de Willer também atuou na defesa de Alexandre em ao menos um processo.

Outro ponto destacado no pedido é a movimentação financeira atribuída ao advogado. Segundo documentos citados na petição, a PF identificou aproximadamente R$ 45,5 milhões movimentados por Willer entre maio e novembro de 2021.

O período começa logo depois da criação da sociedade de advocacia de Flávio, constituída em 16 de abril daquele ano, e atravessa os trabalhos da CPI da Pandemia. O documento reconhece que a coincidência temporal não demonstra ligação entre os fatos, mas sustenta que ela justifica o cruzamento das informações financeiras.

Apartamento vendido por cunhado de Vorcaro foi usado por Flávio

A terceira conexão chega ao Banco Master por meio de um apartamento de alto padrão na Vila Nova Conceição, em São Paulo.

Em fevereiro deste ano, a WT Administração de Imóveis e Bens comprou o imóvel de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, por R$ 3,5 milhões. Dez meses antes, Zettel havia pagado R$ 5,5 milhões pelo mesmo apartamento. A redução nominal entre as duas transações foi de R$ 2 milhões, aproximadamente 36%.

Depois da compra pela empresa de Willer, o imóvel foi utilizado por Flávio durante a campanha presidencial. Segundo as informações reunidas na petição, o senador usou o apartamento na primeira quinzena de agosto como base de campanha, onde realizou reuniões de equipe, discutiu estratégias e gravou vídeos para o horário eleitoral.

Não seria, segundo o documento, um episódio isolado. A petição enumera outros casos em que Flávio utilizou imóveis ou estruturas patrimoniais ligados a Willer e afirma que o apartamento seria o quinto episódio documentado.

Em fevereiro, o aniversário de uma filha do senador foi realizado em um imóvel à beira-mar em Angra dos Reis cuja cota pertence à WT. Segundo a petição, Willer afirmou ter cedido gratuitamente o espaço por causa da amizade entre os dois. Flávio também frequentou outro imóvel do advogado na Ilha Comprida, em Angra. Viagens internacionais e utilização de aeronaves relacionadas à estrutura patrimonial de Willer também são citadas no documento.

Pedido quer descobrir quem paga e quem é o verdadeiro beneficiário

É a repetição desses episódios que sustenta a principal pergunta levada ao STF: quem paga pelos bens formalmente pertencentes a Willer ou à WT quando eles são colocados à disposição de Flávio e quem, ao final, obtém o benefício econômico desse patrimônio?

Para tentar responder à questão, Lindbergh pede que Dino abra vista à Procuradoria-Geral da República e, depois, determine a instauração de inquérito ou diligências preliminares pela Polícia Federal.

A lista de medidas solicitadas é extensa. O deputado quer que a Unidade de Inteligência Financeira forneça relatórios relativos a Flávio, Willer e pessoas e empresas relacionadas entre 2020 e 2026. Também pede o compartilhamento das provas produzidas nas operações Sem Desconto e Compliance Zero.

O pedido inclui ainda a identificação do beneficiário econômico final da WT e das cotas de imóveis e aeronaves administradas pela Prime You, além dos registros de utilização dessas cotas e dos voos registrados na ANAC e no Decea em que apareçam Flávio ou integrantes de sua família.

A PF também poderia buscar documentos para identificar quem pagou condomínio, impostos e demais despesas do apartamento de São Paulo e do imóvel de Angra durante os períodos em que foram utilizados pelo senador.

Depois da manifestação da PGR, Lindbergh pede que Dino avalie a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Willer, da WT e da própria Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia.

A petição solicita ainda o envio de cópias ao procurador-geral Eleitoral para que seja analisada a cessão do apartamento utilizado pela campanha. Se as suspeitas forem confirmadas, sustenta o documento, os fatos poderão ser examinados, em tese, sob possíveis enquadramentos como corrupção passiva, advocacia administrativa, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.

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