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Por Cleber Lourenço

Deputados federais aumentaram em 25,5% os gastos com divulgação dos próprios mandatos nos cinco primeiros meses de 2026, período imediatamente anterior à restrição que impede parlamentares candidatos de usar a cota para esse tipo de despesa nos 120 dias que antecedem as eleições.

Levantamento do ICL Notícias, feito a partir dos arquivos da Câmara dos Deputados, mostra que foram gastos R$ 49,24 milhões entre janeiro e maio deste ano com divulgação da atividade parlamentar. No mesmo período de 2025, foram R$ 39,23 milhões. São cerca de R$ 10 milhões a mais em apenas um ano.

A comparação com os dois anos anteriores mostra que o crescimento não se limita à base de 2025. Entre janeiro e maio de 2024, foram gastos R$ 40,01 milhões. Em 2023, R$ 28,94 milhões. Isso significa que o desembolso registrado neste ano é 23,1% superior ao de 2024 e 70,1% maior que o de 2023.

Evolução dos gastos com divulgação entre janeiro e maio

  • 2023: R$ 28,94 milhões
  • 2024: R$ 40,01 milhões
  • 2025: R$ 39,23 milhões
  • 2026: R$ 49,24 milhões

Os dados fazem parte da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), mecanismo usado para custear despesas relacionadas ao exercício dos mandatos. A conta inclui gastos com passagens, combustíveis, aluguel e manutenção de escritórios, consultorias e divulgação da atividade parlamentar.

O recorte entre janeiro e maio permite comparar exatamente o mesmo período nos quatro anos e, no caso de 2026, observar o comportamento dos gastos antes da entrada em vigor da restrição eleitoral.

Corrida antes da trava eleitoral

As regras da Câmara estabelecem que deputados candidatos não podem utilizar a cota para divulgação da atividade parlamentar nos 120 dias anteriores à eleição. Parlamentares que não concorrem no pleito ficam fora dessa restrição.

A regra cria, na prática, uma data limite para que candidatos continuem financiando a divulgação de seus mandatos com dinheiro da cota parlamentar.

Há ainda outra barreira. Mesmo fora dos 120 dias, a Câmara proíbe que recursos da CEAP sejam utilizados para despesas de caráter eleitoral. O dinheiro destinado à divulgação deve servir para apresentar a atuação parlamentar, e não financiar campanha.

Isso não significa que os R$ 49,24 milhões gastos entre janeiro e maio sejam irregulares. A divulgação da atividade parlamentar é expressamente permitida pela Câmara. O que os números mostram é que esse tipo de despesa cresceu fortemente justamente no período anterior à restrição eleitoral.

A tendência já havia aparecido no começo do ano. Em março, levantamento do UOL mostrou que os deputados haviam desembolsado R$ 15,7 milhões somente nos dois primeiros meses de 2026, recorde nominal para o período. Os dados agora disponíveis mostram que a aceleração continuou nos meses seguintes.

Ao final de maio, a conta já havia alcançado R$ 49,24 milhões, superando em cerca de R$ 10 milhões o registrado no mesmo período do ano anterior.

Quatro em cada dez reais foram para divulgação

O peso da divulgação também chama atenção quando comparado ao conjunto das despesas dos gabinetes.

Entre janeiro e maio de 2026, os gastos com divulgação representaram cerca de 40% de todo o dinheiro utilizado pelos deputados por meio da cota parlamentar no período.

Na prática, aproximadamente quatro em cada dez reais gastos com a CEAP nos cinco primeiros meses do ano foram destinados à divulgação dos mandatos.

A categoria pode incluir contratação de empresas e profissionais para produção de conteúdo, vídeos, gerenciamento de redes sociais, publicidade e outros serviços destinados a apresentar a atividade dos deputados à população.

A CEAP é paga com recursos públicos e possui limites mensais que variam de acordo com o estado de origem do parlamentar, principalmente por causa das diferenças nos custos de deslocamento até Brasília.

Em fevereiro deste ano, a Mesa Diretora da Câmara reajustou os limites mensais da cota com base na variação acumulada do IPCA entre fevereiro de 2023 e dezembro de 2025.

O crescimento dos gastos com divulgação, porém, supera com folga uma simples correção inflacionária. Em apenas três anos, o valor desembolsado nos cinco primeiros meses passou de R$ 28,94 milhões para R$ 49,24 milhões, uma alta nominal de 70,1%.

A comparação anual também mostra uma mudança de patamar. Depois de saltar de R$ 28,94 milhões em 2023 para R$ 40,01 milhões em 2024, a despesa permaneceu próxima desse nível em 2025, com R$ 39,23 milhões. Em 2026, ano de eleições gerais, avançou para R$ 49,24 milhões.

A legislação da Câmara estabelece a fronteira entre as duas atividades: divulgar o trabalho parlamentar é permitido; financiar ações de caráter eleitoral com a cota, não. Nos 120 dias anteriores à eleição, a regra se torna ainda mais restritiva para os deputados que concorrem nas urnas.

É justamente antes dessa trava que os dados mostram o maior volume de gastos com divulgação dos últimos quatro anos.

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