Por Cleber Lourenço
A Meta registrou 3.218 anúncios políticos que circularam sem o rótulo exigido pela plataforma em 812 páginas também utilizadas por candidaturas nas eleições de 2026. Levantamento feito a partir dos relatórios de transparência da empresa mostra que essas peças movimentaram mais de R$ 165 mil, valor que pode chegar a aproximadamente R$ 221 mil por causa de gastos que a companhia divulga apenas em faixas.
O cruzamento foi feito com o relatório nacional da Biblioteca de Anúncios da Meta, consolidado em 20 de setembro. Primeiro, foram identificadas 5.030 páginas que aparecem no documento com avisos relacionados a candidaturas de 2026. Depois, os identificadores únicos dessas páginas foram confrontados com os registros que a própria empresa classifica como “These ads ran without a required disclaimer” — em tradução livre, “estes anúncios foram veiculados sem o aviso obrigatório”.
Foram encontradas 812 páginas nas duas situações, o equivalente a 16,1% das páginas com publicidade identificada de candidaturas. Nelas, a Meta contabiliza 3.218 anúncios que chegaram a circular sem o rótulo.
Os dados mostram que não se trata apenas de peças cadastradas e barradas antes de alcançar o público. O registro utilizado pela própria Meta informa que esses anúncios foram veiculados sem a identificação requerida e passaram posteriormente a constar na Biblioteca com o aviso de ausência do disclaimer.
O levantamento não atribui automaticamente uma infração eleitoral às 812 páginas ou às respectivas candidaturas. O que os dados demonstram é que anúncios classificados pela Meta dentro de seu sistema de transparência política circularam sem a identificação exigida pela própria plataforma.
Gasto pode chegar a R$ 221 mil
Também foi possível dimensionar quanto dinheiro passou pelos anúncios sem rótulo. Nos registros em que a Meta fornece um valor determinado, os gastos chegam a R$ 165.506. Há, porém, outros 557 registros nos quais a plataforma não divulga o desembolso exato e informa apenas que o valor foi de até R$ 100.
Isso significa que o montante efetivamente movimentado é superior aos R$ 165,5 mil que podem ser contabilizados diretamente. Se todos os 557 registros tivessem alcançado o limite superior da faixa informada, o valor total chegaria a aproximadamente R$ 221,2 mil.
Esse número representa um teto, e não o gasto efetivamente comprovado. Como a Meta não informa quanto foi desembolsado individualmente nesses 557 casos, não é possível determinar pelo relatório o valor final.
A diferença evidencia uma segunda limitação da transparência da plataforma: além de registrar milhares de anúncios políticos que chegaram a circular sem rótulo, a própria base pública não permite saber com precisão quanto dinheiro foi empregado em parte dessas peças.
Regra de transparência começa antes da campanha
Os anúncios identificados pelo levantamento abrangem um período que não pode ser analisado apenas a partir de 16 de agosto, data de início da propaganda eleitoral oficial.
A Resolução 23.610 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já estabelece regras para o impulsionamento de conteúdo político-eleitoral durante a pré-campanha.
O artigo 3º-B permite o impulsionamento pago nesse período desde que sejam cumpridas determinadas condições, entre elas a identificação inequívoca de que se trata de conteúdo impulsionado, a contratação diretamente com o provedor por atores autorizados e a observância das regras de transparência.
A resolução também determina que os provedores que oferecem impulsionamento de conteúdo político-eleitoral mantenham um repositório de anúncios que permita acompanhar informações como conteúdo, valores investidos e responsáveis pelo pagamento.
Durante a campanha, as exigências ficam ainda mais específicas. A propaganda eleitoral impulsionada deve trazer identificação clara, incluindo CPF ou CNPJ do responsável e a expressão “Propaganda Eleitoral”.
A regra também restringe a contratação do impulsionamento aos atores autorizados pela legislação e determina que esse tipo de publicidade seja utilizado para promover ou beneficiar a própria candidatura, partido ou federação responsável pela contratação.
Uma em cada seis páginas
A dimensão do problema aparece quando os dados são comparados com o universo analisado.
Das 5.030 páginas que utilizaram alguma identificação relacionada às eleições de 2026 no relatório da Meta, 812 também aparecem associadas a anúncios que circularam sem o rótulo obrigatório da plataforma.
Isso corresponde a 16,1%, ou aproximadamente uma em cada seis páginas.
A identificação foi feita pelo Page ID, código único atribuído pela Meta a cada página. O método evita que alterações de nome ou pequenas diferenças na denominação dos responsáveis produzam falsos cruzamentos.
Também foram consideradas diferentes formas usadas pelos anunciantes para identificar as campanhas, incluindo variações como “ELEIÇÃO 2026” e “ELEIÇÃO2026”.
O resultado mostra que a ausência do rótulo não ficou restrita a páginas marginais ou completamente externas ao ambiente eleitoral. Ela ocorreu também em centenas de páginas que, em outros anúncios, utilizaram formalmente identificações de candidaturas de 2026.
Anúncios circularam antes de serem enquadrados
O aviso utilizado pela Meta nesses registros é particularmente relevante porque descreve uma situação já ocorrida: os anúncios “ran without a required disclaimer”, ou seja, foram veiculados sem o rótulo considerado obrigatório pela plataforma.
Depois de enquadrados, os anúncios deixam de exibir normalmente o material original na consulta pública e passam a apresentar o aviso sobre a ausência da identificação.
Isso cria uma situação paradoxal para quem tenta fiscalizar a propaganda política: a própria Biblioteca permite descobrir que milhares de peças circularam sem o rótulo, mas dificulta reconstruir integralmente o conteúdo que efetivamente chegou aos usuários.
A regulamentação eleitoral brasileira exige das plataformas mecanismos de transparência justamente para permitir o acompanhamento da publicidade político-eleitoral, inclusive fora do período oficial de campanha.
O levantamento mostra que, no intervalo analisado, mais de três mil anúncios escaparam inicialmente dessa identificação e chegaram a circular antes de aparecerem no sistema de transparência da Meta como peças veiculadas sem o aviso obrigatório.
O volume envolve 812 páginas utilizadas por candidaturas e pelo menos R$ 165,5 mil em gastos identificáveis. Consideradas as faixas cujo valor exato não é divulgado, o montante pode chegar a R$ 221,2 mil.
Mais do que uma coleção de casos isolados, os dados revelam uma falha em escala no mecanismo que deveria permitir ao eleitor saber, no momento em que recebe propaganda política, quem está pagando para colocá-la diante dele.