Por Cleber Lourenço
O governo de Tarcísio de Freitas começou a enfrentar as primeiras deserções políticas no Universaliza SP, principal projeto estadual para regionalizar e ampliar concessões de saneamento após a privatização da Sabesp. A resistência ao programa cresceu justamente às vésperas do início das audiências públicas promovidas pela gestão paulista.
O avanço da resistência ao Universaliza SP ocorre num momento de aumento da pressão política sobre a Sabesp desde a privatização da companhia. Nas últimas semanas, além da escalada de reclamações sobre abastecimento e tarifas, a empresa também passou a enfrentar desgaste após a explosão registrada durante obras no Jaguaré, na zona oeste da capital paulista, que destruiu imóveis, matou uma pessoa e levou parlamentares a cobrarem investigação e reparação às famílias atingidas.
Na última semana, os municípios de São José do Rio Preto e Votuporanga abandonaram oficialmente o programa estadual. O movimento ganhou peso político por envolver prefeitos de partidos alinhados ao governador.
Em São José do Rio Preto, administrada pelo prefeito Coronel Fábio Candido (PL), o Serviço Municipal Autônomo de Água e Esgoto (Semae) anunciou, no último dia 5, a saída do Universaliza SP sob o argumento de que o município já supera as metas previstas pelo Marco Legal do Saneamento.
No dia seguinte, Votuporanga, governada por Jorge Seba (PSD), formalizou a interrupção dos estudos de adesão após pressão política local e mobilização de servidores da autarquia municipal. Parte das críticas ao programa partiu de vereadores ligados à própria base de apoio do governador, incluindo parlamentares do PL e do PRD.

Reclamações e pressão política
Em Caraguatatuba, uma CPI aberta pela Câmara Municipal apura aumento nas contas de água, demora no atendimento, falhas em obras de esgoto e problemas de abastecimento atribuídos aos serviços da companhia.
Já em Carapicuíba, vereadores concluíram uma investigação sobre a atuação da Sabesp com um relatório que classificou os serviços prestados pela empresa como “desastrosos” e cobrou providências da Arsesp.
Outras cidades passaram a discutir medidas semelhantes. Em Hortolândia, a prefeitura criou um comitê de crise para tratar do aumento de reclamações relacionadas à qualidade da água.
Um levantamento do portal UOL baseado em dados da Arsesp apontou aumento de 70% na média mensal de reclamações contra a Sabesp em 2026 na comparação com 2025. As queixas relacionadas à descontinuidade no abastecimento cresceram 224%.
O desgaste da Sabesp privatizada começou a contaminar diretamente o debate sobre o Universaliza SP em cidades que ainda discutem eventual adesão ao programa estadual.
Em Araraquara, o superintendente do Daae, Wilian Thomaz Marega, afirmou publicamente na Câmara Municipal ser contrário à permanência do município no Universaliza SP e negou apoio à privatização da autarquia municipal. Segundo ele, a prefeitura deve permanecer apenas na fase de estudos técnicos antes de decidir sobre eventual saída do projeto.
Em São Carlos, representantes do governo municipal chegaram a negar publicamente, durante audiência realizada em novembro de 2025, que a adesão ao Universaliza SP representaria privatização do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae).
Já em Campinas, a vereadora Mariana Conti (PSOL) passou a associar o programa estadual ao risco de privatização da Sanasa, empresa municipal responsável pelos serviços de saneamento. A parlamentar lançou um abaixo-assinado contra o modelo e afirma que o projeto poderá provocar aumento tarifário, ampliar custos para a população e reduzir o controle público sobre água e esgoto.
O Universaliza SP é considerado o principal projeto da gestão Tarcísio para ampliar a regionalização do saneamento em municípios que ficaram fora da área operada pela Sabesp após a privatização da companhia.
Na prática, o programa prevê concessões regionalizadas e contratos de até 35 anos para operação de sistemas municipais atualmente administrados por autarquias, estruturas públicas municipais, concessões locais ou companhias mistas.
Segundo o governo estadual, 218 municípios aderiram formalmente ao programa. O grupo potencial reúne 274 cidades fora da área operada pela Sabesp e cerca de 14,6 milhões de habitantes, aproximadamente um terço da população paulista.
A gestão estadual afirma que o programa foi estruturado para acelerar a universalização do saneamento e cumprir as metas previstas pelo Marco Legal até 2033. O governo sustenta ainda que parte dos municípios do interior não possui capacidade financeira ou escala suficiente para realizar isoladamente os investimentos necessários em água e esgoto.
A consulta pública do Universaliza SP foi aberta em 27 de abril e segue até 28 de maio. O calendário de audiências públicas começou nesta segunda-feira (11), em São Caetano do Sul, e prevê reuniões presenciais em Americana, São Carlos e Junqueirópolis, além de uma audiência virtual estadual marcada para 27 de maio.
A reportagem procurou o governo de São Paulo para comentar a saída dos municípios do programa, o avanço das críticas ao modelo e os dados de reclamações envolvendo a Sabesp após a privatização. O espaço segue aberto para manifestação.