A operação Compliance Zero, que culminou na prisão do CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, expôs um nível de pressão política inédito sobre o Banco Central, segundo relataram técnicos da instituição à Polícia Federal e ao Ministério Público. As informações são do blog da jornalista Malu Gaspar, em O Globo.
O objetivo das investidas, narradas por servidores experientes, era salvar o Banco Master — seja por meio da controversa tentativa de compra pelo BRB (Banco Regional de Brasília), vetada em setembro, seja pelo adiamento da intervenção para permitir novas propostas consideradas inviáveis.
Os relatos descritos aos investigadores revelam que o lobby ultrapassou qualquer episódio anterior enfrentado pelo regulador. O BC já havia redigido o decreto de liquidação do banco semanas antes da operação policial, mas só o colocou em prática após a deflagração das diligências, numa tentativa de blindar-se do cerco político. A liquidação resultará no maior resgate da história do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), como explicou o economista e comentarista do ICL Notícias, José Kobori.
Banco Master: divergências internas e articulações externas
A crise também escancarou fissuras internas no BC, conforme informações do blog. Desde julho, quando irregularidades na operação entre o Banco Master e o BRB vieram à tona, diretorias da autarquia estavam divididas. A constatação de que créditos bilionários adquiridos pelo BRB não tinham lastro acendeu o alerta.
Uma minuta de intervenção chegou a ser elaborada pelo diretor de Organização do Sistema Financeiro, Renato Gomes, com aval do diretor de Regulação, Gilneu Vivan — mas encontrou resistência do diretor de Fiscalização, Aílton Aquino.
Enquanto isso, no Congresso, o lobby em torno do Master avançava. Senadores chegaram a propor uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) Mista para investigar a inusitada compra do banco pelo BRB. O requerimento, capitaneado por Izalci Lucas (PL-DF), atingiu o número mínimo de assinaturas, mas foi retirado de forma abrupta. Izalci alegou que dúvidas haviam sido “sanadas” com documentos fornecidos pelas instituições — explicação que não convenceu parlamentares nem o mercado.
Nos bastidores, o principal articulador contra a CPI teria sido o senador Ciro Nogueira (PP-PI), aliado próximo de Vorcaro. Embora negue influência, sua atuação foi associada à chamada “bancada do Master”, bloco que incluiria outros congressistas alinhados aos interesses do banco.
A aproximação coincidiu com negociações para a criação de uma federação entre PP e União Brasil — este último, responsável por impulsionar aportes de governos locais em letras financeiras do Master.
Reincidência de Ciro Nogueira
Não foi a primeira vez que Ciro atuou em defesa do aliado. Em 2024, quando o BRB já adquiria carteiras de crédito do Master, ele patrocinou no Senado uma emenda à PEC da autonomia financeira do BC para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC. A proposta, rapidamente apelidada de “emenda Master”, foi rejeitada pelo relator Plínio Valério (PSDB-AM).
Paralelamente, a Caixa Econômica enfrentou turbulências ao desautorizar dois gerentes que se opuseram à compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Master. Um parecer sigiloso da Caixa Asset classificou a operação como “atípica” e “arriscada”, citando o baixo rating da instituição. Com a repercussão negativa, o negócio acabou enterrado.