O economista e fundador do ICL (Instituto Conhecimento Liberta), Eduardo Moreira, criticou a entrevista do empresário Ricardo Faria, conhecido como “rei do ovo”, à Folha de S.Paulo, na qual ele reafirmou um discurso recorrente e polêmico entre setores da elite econômica brasileira: a de que o Bolsa Família estaria desestimulando o trabalho formal.
Faria, apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que está “difícil contratar” porque os trabalhadores estariam “viciados no Bolsa Família”.
Na edição desta segunda-feira (16) do ICL Notícias 1ª edição, Moreira disse que a fala do empresário é sintomática de uma elite que se recusa a reconhecer a precariedade do trabalho oferecido no Brasil. “Se uma família com R$ 1.000 do Bolsa Família opta por não aceitar um emprego, a pergunta correta não é o que há de errado com o programa social, mas sim com o tipo de vaga que está sendo oferecida”, afirmou.
A renda média per capita da metade mais pobre da população gira em torno de R$ 500, segundo Moreira, o que expõe o abismo entre o que se paga e o que se exige dos trabalhadores. Faria, na mesma entrevista, defende o pagamento por hora — ou seja, a fragmentação ainda maior do vínculo trabalhista — e ataca a Justiça do Trabalho, uma das poucas instituições que atuam para coibir abusos.
“É o pacote completo: defende o trabalho precário, ataca a Justiça e culpa o Bolsa Família. No fundo, o que quer é mão de obra barata e sem proteção”, criticou Moreira.
Ele acrescentou que, graças ao Bolsa Família, milhões de brasileiros têm hoje uma alternativa mínima para não se submeterem a empregos indignos. E isso, para ele, é uma conquista, não um problema.
Aliás, pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra que o Bolsa Família foi fundamental para a redução das desigualdades no país.
Eduardo Moreira questiona narrativa do mérito pessoal
Moreira também questionou a narrativa do mérito individual: “Bilionários gostam de dizer que construíram tudo sozinhos. Eles acordam às 4h só para praticar esporte, enquanto o trabalhador acorda nesse horário para arrumar as coisas dos filhos antes de eles irem para a escola e para deixar o almoço pronto”, disse.
A fala do empresário, ainda segundo o economista, revela um desprezo pelas condições reais da maioria da população e escancara a “Elite do Atraso” — expressão cunhada pelo sociólogo Jessé Souza.
Moreira lembrou ainda que os próprios empresários têm o seu próprio Bolsa Família em isenções fiscais concedidas pelo Estado brasileiro. “Quantos bilhões esse empresário já ganhou em isenção fiscal? Quantos Bolsas Família ele recebe, na prática, do Estado?”
Confira no vídeo abaixo o que disse Eduardo Moreira: