A onda de calor que marcou a virada do ano elevou o consumo de energia elétrica no país, impulsionada pelo uso de ventiladores, ar-condicionado e refrigeradores. No entanto, o pico de demanda do setor elétrico ocorre principalmente à tarde e à noite — horários em que a geração solar e eólica é limitada.
Esse descompasso entre oferta e demanda tem obrigado o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a interromper parte da produção de fontes renováveis, uma medida conhecida como curtailment, que previne sobrecargas e apagões, como os registrados em agosto de 2023 e outubro do ano passado.
Parques eólicos e solares são os mais afetados pelos cortes, enfrentando perdas financeiras e questionando a falta de compensação pelo governo. Estima-se que os prejuízos do setor cheguem a R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões, o que já desestimula novos investimentos em energia limpa.
O Ministério de Minas e Energia (MME) conduz uma consulta pública para debater mecanismos de ressarcimento, mas eventuais indenizações podem acabar refletindo na conta de luz do consumidor.
Risco de colapso e limitações do sistema
O planejamento de médio prazo do ONS aponta para um possível colapso em 2026, devido à falta de flexibilidade do sistema diante do crescimento acelerado de renováveis intermitentes. Embora o país gere mais energia do que consome, a dificuldade de equilibrar oferta e demanda torna o setor vulnerável a crises financeiras e apagões.
O cenário é agravado pela expansão da geração distribuída em telhados de residências e edifícios, que atualmente soma 43 GW — quase metade do consumo nacional. Esse tipo de energia, apesar de reduzir custos para o consumidor, não é controlado pelo ONS, aumentando os desafios de operação do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Infraestrutura e soluções em debate
Especialistas apontam que o sistema elétrico brasileiro precisa de investimentos em linhas de transmissão, megabaterias e planejamento de consumo estratégico.
Entre as propostas discutidas estão incentivos a grandes consumidores próximos a parques renováveis e regulamentações para limitar a produção de pequenos sistemas solares domésticos, visando equilibrar o fornecimento e evitar sobrecargas.
Para o setor, a falta de coordenação entre oferta e demanda coloca o país “perigosamente à beira” de apagões e elevação de custos, apesar do crescimento histórico da energia limpa.