Campos Neto estreia no Nubank e reacende críticas à ‘porta giratória’ no setor financeiro

Ex-presidente do Banco Central estreia como vice-chairman e chefe global de políticas públicas da fintech
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O economista Roberto Campos Neto, que presidiu o Banco Central do Brasil entre 2019 e 31 de dezembro de 2024, estreou na quarta-feira (3) em seu novo cargo no setor privado. Passado o período obrigatório de quarentena de seis meses, ele foi oficialmente integrado ao time executivo do Nubank como vice-chairman e chefe global de políticas públicas. Além disso, passa a ocupar uma cadeira no conselho de administração da Nu Holdings, holding que controla a fintech.

O executivo, que se reportará diretamente ao CEO e fundador do banco digital, David Vélez, terá entre suas atribuições o relacionamento com reguladores financeiros globais, a representação da empresa em fóruns internacionais e a contribuição para a estratégia de expansão do Nubank na América Latina. A contratação havia sido anunciada em maio, mas só agora se concretiza com o fim das restrições legais.

Quando foi anunciada a contratação de Campos Neto pelo Nubank, o movimento sindical bancário apontou conflito de interesses na nomeação.

Ainda segundo o movimento sindical, foi a partir da posse de Campos Neto na presidência do BC que ocorreu um forte impulsionamento da atuação dessas empresas operando no sistema financeiro nacional, apesar de inúmeras preocupações levantadas no setor sobre as diferenças regulatórias entre os bancos tradicionais e as fintechs, estas últimas sujeitas a regras e critérios menos rígidos em termos de recolhimento de alíquotas, segurança de dados e direitos trabalhistas.

No Brasil, a legislação prevê apenas a quarentena de seis meses para ex-dirigentes do Banco Central antes de sua migração ao setor privado. Nos Estados Unidos e na Europa, a chamada “porta giratória” é objeto de intensos debates políticos e acadêmicos, com regras e códigos de conduta mais rígidos, voltados a preservar a credibilidade das instituições públicas.

Campos Neto e o conflito de interesses

A transição de Campos Neto do comando do principal órgão regulador do sistema financeiro nacional para uma das instituições mais relevantes e inovadoras do setor reacendeu o debate sobre a chamada “porta giratória” — fenômeno que ocorre quando ex-reguladores migram para o setor que supervisionavam, gerando questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse, mesmo após o cumprimento das exigências legais.

Desde que deixou o Banco Central, Campos Neto já era alvo de especulações sobre um possível destino em fintechs. Durante sua gestão, deu continuidade à agenda de modernização do sistema financeiro iniciada por seu antecessor, Ilan Goldfajn, com destaque para temas como digitalização bancária, moedas digitais e open finance. Seu perfil pró-tecnologia e sua visibilidade internacional abriram caminho para o convite do Nubank, que aposta em sua liderança para consolidar sua presença fora do Brasil.

O Nubank afirma que a experiência de Campos Neto será valiosa para seu projeto de longo prazo. A empresa destacou que a gestão do executivo no BC foi marcada por avanços em inclusão e educação financeira, fomento à concorrência e sustentabilidade — pilares que se alinham à missão do banco digital.

Anúncio causa mal-estar no mercado

Apesar da legalidade da movimentação, o anúncio causou mal-estar no mercado financeiro. Segundo relatos de bastidores, após deixar o cargo, Campos Neto teria feito campanha para que Ana Carla Abrão fosse eleita CEO de uma associação ligada ao open finance. A executiva foi indicada pela Zetta — associação presidida pelo próprio Nubank.

O problema, para alguns membros do setor, foi a percepção de que houve interferência de um ex-regulador em um processo que, pouco depois, beneficiaria uma empresa à qual ele se juntaria. Alguns representantes que apoiaram a indicação se disseram “traídos” com o desfecho.

A discussão, embora não coloque em dúvida a competência de Ana Carla — amplamente reconhecida no setor —, expõe a sensibilidade da movimentação de Campos Neto e os dilemas éticos que ela levanta. O episódio evidencia o vácuo regulatório em torno da atuação de ex-dirigentes do setor público e reforça a necessidade de aprimorar os mecanismos que garantam a integridade e a imparcialidade das relações entre reguladores e regulados.

Antecessores

Entre os antecessores de Campos Neto, poucos trilharam caminhos semelhantes. Ilan Goldfajn e Alexandre Tombini seguiram carreiras em organismos multilaterais, como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Henrique Meirelles, por sua vez, foi para o setor privado, mas em um grupo empresarial (J&F) que, embora controlador de um banco (Original), não se enquadrava diretamente como uma instituição financeira regulada pelo BC no período. Já Armínio Fraga e Gustavo Franco fundaram gestoras de recursos, o que também gerou discussões, mas em contextos diferentes e, no caso de Franco, anos após sua saída da autoridade monetária.

 

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