Censura: reportagens do ICL sobre Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro, são retiradas do ar

Decisão do TJDFT impõe alterações no título e em informações factuais da investigação jornalística que tiram sentido da matéria; medida será contestada na Justiça
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Duas reportagens publicadas em parceria do site ICL Notícias com a newsletter Noites Húngaras, em 23 de setembro e 9 de outubro, sobre relações empresariais envolvendo o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro, foram retiradas do ar após decisão da 15ª Vara Cível de Brasília. A Justiça não determinou a retirada, mas impôs alterações nos títulos e em informações factuais da investigação jornalística que deixam as matérias sem sentido. Por esse motivo, o ICL Notícias tomou a decisão editorial de retirar as reportagens do ar e está contestando judicialmente a decisão.

A investigação jornalística, fundamentada em documentos públicos, registros empresariais, assinada por Alice Maciel e Paulo Motoryn, examinou a participação de Lídia Maria Figueiredo Mazelli em sociedades e suas conexões com negócios relacionados ao advogado.

A ação judicial foi apresentada por Lídia, que questionou a divulgação de referências à sua trajetória profissional e informações sobre seu papel nas empresas investigadas.

Embora tenha rejeitado o pedido de retirada integral da reportagem e do vídeo, a Justiça determinou a supressão de informações patrimoniais, além de alterações em títulos e afirmações sobre a atividade profissional e a atuação empresarial da autora.

A imposição judicial de mudanças em uma investigação jornalística factualmente correta, produzida com rigor e baseada em documentos, representa, na prática, a censura e uma interferência grave na autonomia editorial e na liberdade de imprensa.

A decisão será contestada por meio de recurso judicial, com o objetivo de preservar a integridade da reportagem e o direito da sociedade à informação.

A retirada temporária da reportagem por parte do ICL Notícias e da newsletter Noites Húngaras não representa reconhecimento de erro jornalístico, mas uma decisão editorial diante de uma ordem judicial considerada descabida acompanhada de multa diária de R$ 1 mil em caso de descumprimento. A expectativa é que a reportagem possa ser restabelecida integralmente após a revisão da decisão.

A investigação havia revelado relações empresariais e patrimoniais que levantam questionamentos sobre quem efetivamente controlava sociedades ligadas a Willer Tomaz, que foi alvo de operação policial que apurava fraudes no INSS.

Documentos públicos obtidos pela reportagem expuseram circunstâncias controversas sobre a participação de Lídia nessas empresas e possíveis discrepâncias entre sua trajetória profissional e os negócios em que figurava.

A gravidade das descobertas está na possibilidade de utilização de terceiros em estruturas empresariais relacionadas a personagens politicamente influentes.

“A determinação judicial de modificação do conteúdo factual de matéria jornalística é uma forma de censura que, como qualquer outra, impede a sociedade de ter acesso ao fundamental direito à informação. No caso das duas matérias publicadas pelo ICL Notícias, não se justifica a manutenção no portal dos textos desfigurados, que impedem que o leitor tenha a compreensão dos fatos relatados”, comenta Chico Alves, editor-chefe do portal. “Esperamos que em breve essa decisão seja revertida judicialmente”.

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