China testa sua resiliência energética em meio à crise no Oriente Médio

Planejamento estratégico e diversificação energética dão vantagem relativa a Pequim
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A escalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel colocou à prova um dos pilares da estratégia chinesa nas últimas décadas: a segurança energética. A interrupção das rotas marítimas no Estreito de Ormuz — responsável por cerca de 20% do fluxo global de petróleo — provocou um choque de oferta que atinge diretamente economias dependentes do Golfo Pérsico. Nesse cenário, a China, maior importadora mundial de petróleo, também enfrenta pressões, segundo reportagem da BBC News Brasil.

Apesar disso, o gigante asiático entra na crise em posição mais robusta que seus vizinhos, resultado de anos de planejamento, diversificação de fornecedores e investimentos em energia.

A crise se intensificou após ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, seguidos por ameaças iranianas de retaliação a embarcações que cruzam o Estreito de Ormuz. O resultado imediato foi a interrupção parcial das exportações de petróleo e gás da região.

Os preços internacionais dispararam, chegando próximos de US$ 120 por barril, impulsionados tanto pelo fechamento da rota quanto por ataques à infraestrutura energética. A escassez levou países a recorrerem a reservas estratégicas ou a buscar fornecedores alternativos.

Na Ásia, os impactos são particularmente severos. Países altamente dependentes do Golfo, como Filipinas e Indonésia, já adotam medidas emergenciais para conter o consumo e preservar estoques.

Dependência externa, mas com amortecedores

A China consome entre 15 e 16 milhões de barris de petróleo por dia, grande parte destinada ao transporte e à indústria. Apesar da forte dependência de importações, o país construiu uma rede diversificada de abastecimento.

Embora Arábia Saudita e Irã sejam fornecedores relevantes, a Rússia ganhou protagonismo nos últimos anos, respondendo por cerca de 20% das importações chinesas. Esse fluxo, realizado principalmente por oleodutos, permanece fora do alcance direto das tensões no Oriente Médio.

Além disso, há uma divisão geográfica no consumo energético: enquanto o sul depende mais de petróleo importado por via marítima, o norte utiliza produção doméstica e fornecimento terrestre.

Outro fator estrutural é o peso do carvão, que continua sendo a principal fonte de geração elétrica do país. Com isso, petróleo e gás representam pouco mais de um quarto da matriz energética — proporção inferior à observada em economias ocidentais.

Reservas estratégicas e gestão de crise

Um dos principais trunfos de Pequim é o volume acumulado de reservas estratégicas. Aproveitando períodos de preços baixos, o país construiu um estoque estimado entre 900 milhões e 1,4 bilhão de barris — o equivalente a vários meses de importação.

Além disso, há indícios de armazenamento adicional em petroleiros, especialmente de petróleo iraniano, adquirido com desconto mesmo sob sanções internacionais.

Esse “colchão” permite amortecer choques de curto prazo, embora não elimine os impactos da alta global de preços. Em resposta à crise, autoridades chinesas também sinalizam medidas para conter pressões internas, como restrições temporárias à exportação de combustíveis.

Transição energética como estratégia geopolítica

A crise atual também evidencia os efeitos de longo prazo da aposta chinesa em energias renováveis. O país lidera a expansão global de fontes como solar, eólica e hidrelétrica, que já respondem por mais de um terço da geração elétrica.

Essa transformação reduziu o peso do petróleo no consumo total de energia, que caiu para cerca de 20% nos últimos anos. A eletrificação do transporte reforça essa tendência: veículos elétricos já representam uma parcela significativa das vendas no país.

Mais do que uma agenda ambiental, a transição energética chinesa se mostra uma ferramenta de mitigação de riscos geopolíticos, reduzindo a exposição a choques externos como o atual.

Limites da resiliência

Apesar das vantagens estruturais, a China não está imune aos efeitos da crise. O aumento dos preços internacionais eleva custos em toda a cadeia produtiva, especialmente na indústria petroquímica, essencial para a fabricação de plásticos e fertilizantes.

Mesmo consumidores menos dependentes de combustíveis fósseis, como usuários de veículos elétricos, podem ser afetados indiretamente, com possíveis aumentos no custo da eletricidade.

No fim, como maior importador global de energia, o país terá de absorver parte significativa da alta de preços. A diferença é que, ao contrário de outros países, Pequim parece mais preparada para administrar o impacto — ao menos no curto prazo.

 

Quem depende de rotas, fornecedores e preços definidos fora do próprio território controla de fato sua energia? Para investigar como a China reduziu essa vulnerabilidade com planejamento e tecnologia, Eduardo Moreira foi ao país ver esse modelo em funcionamento. Exibição gratuita em 12 de abril, domingo, às 20h, ao vivo e sem replay. Assista ao vivo. 

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