O avanço de apenas 0,1% no PIB (Produto Interno Bruto), entre julho e setembro, só não foi pior devido a fatores externos e à força de setores ligados às commodities. Investimentos avançaram 0,9% no período, e o consumo do governo teve alta de 1,3%, mas o crescimento só foi mantido graças à demanda externa e pelo desempenho da agropecuária e da indústria extrativa.
O desempenho fraco reflete o esfriamento do consumo das famílias, principal motor da demanda interna, e a política de juros elevados adotada pelo Banco Central, que aumentou a Selic de 10,5% para 15% ao ano entre setembro de 2024 e junho de 2025.
A indústria extrativa, impulsionada pela produção de petróleo e gás natural do pré-sal, cresceu 1,7% no trimestre, alavancando o setor industrial como um todo, que registrou alta de 0,8%. Já a agropecuária avançou 0,4%, sustentada por boas safras de algodão e milho.
Segundo especialistas, esses setores voltados à exportação foram responsáveis por mais da metade do crescimento anualizado de 1,8% do PIB em relação ao terceiro trimestre de 2024. Dentre as commodities, destacam-se o aumento das vendas de minério de ferro e petróleo, impulsionadas pela China, maior parceiro comercial do Brasil.
Apesar do “tarifaço” dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, exportadores redirecionaram vendas para Europa e Ásia, aproveitando brechas no mercado internacional.
Limites do crescimento
Analistas alertam que o desempenho positivo é pontual e pouco relacionado ao ciclo econômico doméstico. Essa é a opinião, por exemplo, de Juliana Trece, pesquisadora da FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
Ao O Globo, ela ressaltou que o crescimento impulsionado por exportações e produção de commodities dificilmente se repetirá nos próximos trimestres.
Na questão industrial, a alta nos investimentos foi puxada principalmente por construção civil e infraestrutura. Porém, a Selic alta inibe investimentos em máquinas e equipamentos, que são fundamentais para elevar a produtividade.
Cenário externo e projeções futuras
Apesar do crescimento modesto, o Brasil perderá uma posição entre as maiores economias globais, segundo projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional). Ultrapassado pela Rússia, o país deve ocupar o 11º lugar até 2030.
O resultado do terceiro trimestre evidencia a dependência da economia brasileira de fatores externos e de setores específicos, mostrando um crescimento desigual e pontuado por estímulos temporários. Enquanto o consumo doméstico desacelera, commodities seguem sustentando a economia.