O Bolsa Família, programa símbolo da assistência social no Brasil, começa a dividir protagonismo com outro benefício: o BPC (Benefício de Prestação Continuada), que tem crescido de forma acelerada e silenciosa. Dados recentes mostram que, em 1.167 municípios brasileiros, o BPC já consome mais recursos do que o Bolsa Família — um avanço de 137% em apenas dois anos —, conforme levantamento feito pela CNN.
O levantamento, feito com base em dados do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), aponta uma expansão ininterrupta do BPC desde meados de 2022. Foram 31 meses consecutivos de crescimento, com aumento de 33% no número de beneficiários — um acréscimo de 1,6 milhão de pessoas. Em março de 2025, o programa já atendia 6,2 milhões de cidadãos em situação de vulnerabilidade.
O avanço do BPC tem múltiplas causas, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU). Entre elas, mudanças legislativas e judiciais que facilitaram o acesso ao benefício.
O ministro Antonio Anastasia elenca seis fatores: desde a permissão para que mais de um membro da mesma família receba o BPC, até a ampliação dos critérios de deficiência — especialmente com o reconhecimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA), que representou 17% dos novos benefícios a pessoas com deficiência nos últimos dois anos.
Reforma da previdência pode ter empurrado idosos ao BPC
Há ainda influências indiretas. A reforma da Previdência de 2019, ao dificultar o acesso à aposentadoria, pode ter empurrado mais idosos para o BPC. Além disso, o aumento real do salário-mínimo elevou o piso de elegibilidade, ampliando o universo de pessoas aptas a receber o benefício. A redução das filas do INSS e a judicialização de pedidos também contribuíram para o crescimento.
Criado em 1993, o BPC garante um salário-mínimo mensal (R$ 1.518) a idosos com 65 anos ou mais e pessoas com deficiência de qualquer idade, desde que pertencentes a famílias com renda per capita de até ¼ do salário-mínimo (R$ 379,50). Embora o número de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família ainda seja mais de três vezes superior — 20,5 milhões em março —, o valor individual pago pelo BPC é significativamente maior do que a média do Bolsa Família, que gira em torno de R$ 660.
Do ponto de vista orçamentário, a diferença vem se estreitando. Em 2025, o governo federal reservou R$ 158,6 bilhões para o Bolsa Família e R$ 112 bilhões para o BPC — uma aproximação que evidencia o peso crescente do benefício operado pelo INSS.
Essa mudança de cenário levanta questões relevantes para a política pública brasileira. O BPC, originalmente pensado como uma resposta específica à vulnerabilidade de idosos e pessoas com deficiência, vem ganhando características de um programa de assistência mais ampla. Isso coloca em discussão seu papel complementar ao Bolsa Família e a necessidade de uma revisão estratégica do desenho da rede de proteção social no país.
Efetividade do Bolsa Família e BPC sob risco?
A principal preocupação de especialistas e órgãos de controle não é apenas fiscal — embora o impacto orçamentário seja real —, mas também de foco e efetividade.
A tendência de crescimento contínuo do BPC exige do governo uma reflexão sobre sustentabilidade e equidade: como manter dois programas robustos sem sobreposição, desperdício de recursos ou enfraquecimento do amparo às famílias mais pobres?
A disputa silenciosa entre BPC e Bolsa Família, portanto, não é apenas por orçamento — é por direção. No centro desse problema, está garantir a proteção das famílias em situação de vulnerabilidade social e econômica do Brasil.