Embora seja um grande produtor e exportador de petróleo, o Brasil tem relevante dependência de combustíveis importados, especialmente no caso do diesel. Além disso, a logística brasileira é focada no modal rodoviário, por isso, o país pode sentir de forma ampliada os efeitos da escalada do conflito no Irã — especialmente por meio de combustíveis mais caros, aumento em fretes e pressão sobre a inflação. Essa é a avaliação da economista e apresentadora do ICL Mercado e Investimentos, Deborah Magagna.
Um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o Irã foi atacado no fim de semana pelos Estados Unidos, ainda sem explicações por parte do governo de Donald Trump.
No fim de semana conturbado para os mercados globais, o petróleo oscilou e subiu com força, refletindo o impacto do fechamento ou da interrupção de tráfego no Estreito de Ormuz, rota crucial para cerca de 20% do petróleo mundial que circula pelo Golfo Pérsico no transporte marítimo.
“Se a gente tivesse a política de precificação [dos combustíveis] de antes, em que os choques [do petróleo] eram passados automaticamente, a situação seria pior”, observou a economista na edição desta segunda-feira (2) do programa. “Combustíveis mais caros trazem efeito em cadeia — diesel mais caro, fretes mais caros, produtos mais caros no supermercado.”
Ela se refere à política de preços da Petrobras, anteriormente focada na paridade internacional (PPI) para uma estratégia comercial mais flexível.
Em maio de 2023, a estatal anunciou o fim do PPI, que acabava provocando muita volatilidade nos preços dos combustíveis no Brasil, uma vez que a antiga política estava atrelada ao dólar e ao preço do barril do petróleo no mercado internacional.
Na ocasião, o economista e fundador do ICL (Instituto Conhecimento Liberta), Eduardo Moreira, comentou que a mudança na política é bastante positiva, pois tirava do foco os importadores de combustíveis para priorizar quem deve ser prioridade, neste caso, o consumidor brasileiro (clique aqui para ver a análise completa).
Mercados globais em nervosa aversão ao risco
Com a intensificação do conflito envolvendo os Estados Unidos e Israel contra o Irã, os mercados financeiros globais exibiram aversão ao risco, reflexo de temores sobre segurança energética e impactos econômicos mais amplos:
- O preço do Brent, principal referência do petróleo, saltou até cerca de 13% em um movimento raro, chegando perto de patamares não vistos desde janeiro de 2025, antes de corrigir um pouco durante a sessão.
- O petróleo Brent chegou a abrir a semana com alta próxima de 9%, em meio a temores de interrupção no transporte pelo Estreito de Ormuz.
- Commodities exportadoras e setores ligados a energia responderam com alta nas bolsas, enquanto ações mais sensíveis a risco recuaram.
Magagna destaca: “Petróleo subindo, dólar acelera aqui e também juros futuros — um dia realmente de aversão ao risco. Investimentos defensivos, como o ouro, acabam subindo bastante.”
Por que o Estreito de Ormuz importa
O Estreito de Ormuz é um ponto logístico vital — por onde entre 20% a 25% do petróleo mundial passa diariamente. A interrupção desse corredor eleva prêmios de risco, amplia custos de frete e pressiona o preço do petróleo globalmente.
“A logística pelo Estreito de Ormuz não é só importante por conta da produção de petróleo, mas também pela operação de toda a cadeia de transporte marinho”, explica Magagna. “Quando ele é fechado, as rotas ficam mais longas, levando a maiores fretes, com efeitos no mercado de petróleo e no nosso bolso, com combustíveis e produtos mais caros”, diz.
Bolsa brasileira e movimentos setoriais
No movimento da B3 nesta segunda-feira, observou-se comportamento misto diante do cenário de incerteza global:
- Enquanto o Ibovespa abriu em queda, os papéis de petroleiras, especialmente da Petrobras, registraram altas acentuadas, refletindo o repasse de expectativas de lucro com preços de commodities mais elevados.
- Empresas exportadoras de commodities e proteínas também mostraram desempenho positivo em meio ao risk-off global.
- Todavia, o resto do mercado acionário registrou mais vendas do que compras.
Magagna questiona: “Será que a alta das ações de petróleo e de empresas de commodities vai se sobrepor ao mau humor externo? No momento, o cenário segue dominado pela incerteza”.
Riscos que permanecem no radar
O principal risco segue sendo a extensão do conflito e o possível fechamento prolongado do transporte pelo Estreito de Ormuz — cenário que poderia empurrar o preço do Brent até US$ 90–100 por barril, segundo analistas de mercado.
“A conduta dos Estados Unidos diante de tensões geopolíticas mostra que, para manter hegemonia do dólar e sua posição global, eles usam força quando julgam necessário”, pondera a economista, questionando se essa postura poderia se expandir além da região. “Se ninguém reagiu de forma mais contundente até agora, isso pode mudar quando conflitos atingirem países europeus?”.
Veja a análise completa de Deborah Magagna no vídeo abaixo: