‘Disparada do Ibovespa não tem relação com queda na popularidade de Lula’, diz economista do ICL

Deborah Magagna avaliou manchetes de sites de notícias tentando atrelar pesquisa Datafolha à alta do indicador da Bolsa brasileira
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Que a grande mídia anda de mãos dadas com o mercado financeiro não é segredo para pessoas que sabem ler nas entrelinhas das notícias de economia. Na sexta-feira passada (14), um exemplo dessa manipulação foi visto em manchetes de sites que tentaram atrelar a disparada do Ibovespa à queda de popularidade do presidente Lula (PT), mostrada em pesquisa Datafolha.

Ibovespa bombou na sexta-feira, com uma alta parruda de 2,70%, aos 128.218,59 pontos. Na semana, o principal indicador da bolsa brasileira subiu 2,89%. O dólar à vista, por sua vez, encerrou as negociações do dia com baixa de 1,29%, a R$ 5,5962, no menor nível desde 7 de novembro.

A alta do Ibovespa foi impulsionada principalmente pela Petrobras (PETR4;PETR3), que subiu mais de 3% depois da revisão positiva do JP Morgan. O banco elevou o preço-alvo dos recibos de ações (ADRs, na sigla em inglês) de US$ 17 para US$ 18, reiterando a recomendação de compra.

A economista e apresentadora do ICL Mercado e Investimentos, Deborah Magagna, explicou as razões que levaram à disparada do indicador, afirmando que a queda na popularidade do presidente Lula, sozinha, não seria suficiente para isso.

“A Bolsa estava em um dia de alta firme desde o início da sessão. A nossa Bolsa já estava subindo praticamente 2%, e não dá para falar que isso foi reflexo do Datafolha”, afirmou.

Abaixo, Deborah elencou as razões para a alta:

1. Pesquisa da Petrobras na Foz do Amazonas

Ganhou corpo na semana passada a notícia de que a Petrobras pode ter a autorização para pesquisar a possibilidade de explorar petróleo na Foz do Amazonas. Se essa é uma notícia muito ruim para o meio ambiente, para o mercado é uma boa notícia. “A Petrobras tem 12% do peso do Ibovespa”, explicou Deborah.

Ao todo, a carteira do Ibovespa é composta de 87 ações. Dessas, segundo Deborah, 12% representam as ações PETR3 e PETR4. As ações PETR3 (Ordinárias) garantem direito de voto enquanto as ações PETR4 (Preferenciais) dão prioridade na distribuição de dividendos.

“As ações estavam subindo desde o início do dia, inclusive na contramão do petróleo [no mercado internacional], que caiu naquele dia”, lembrou a economista.

2. Tarifaço de Donald Trump

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou na quinta-feira (13) a ordem de implementação de tarifas recíprocas, mirando países que, segundo o governo americano, taxam excessivamente produtos dos EUA. Entre os produtos citados por ele, está o etanol brasileiro, produzido com cana-de-açúcar. A medida ainda levará alguns dias para valer, o que abre espaço para negociações entre os países.

“O mercado começou a entender que o Brasil pode se favorecer dessa abertura de espaço [para negociação]. Então, isso trouxe um alívio de forma global, mas trouxe um alívio para a Bolsa brasileira também”, disse Deborah.

3. Reunião na Fiesp

Na sexta-feira de manhã, aconteceu uma reunião na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), da qual participou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Na reunião, foram discutidas as tarifas anunciadas por Donald Trump, principalmente a sobretaxa ao aço e alumínio, que afeta diretamente o Brasil, segundo maior exportador de aço ao país.

“A Fiesp discutiu como poderia ter uma negociação do setor siderúrgico em relação a essas tarifas. E temos a chance de o Brasil ser próspero nas negociações, porque tem margem de negociação com a brecha de o Brasil importar mais gás liquefeito dos Estados Unidos”, disse Deborah.

4. Mercado reagindo bem às falas de Galípolo

“Gabriel Galípolo teve um discurso bem alinhadinho ao que o mercado queria ouvir. Falou de inflação, de possíveis altas da Selic. Ele deu o recado do jeito que o mercado gosta de ouvir, e o mercado ficou mais aliviado em relação à política monetária aqui no Brasil”, explicou Deborah, sobre a participação do presidente do BC na reunião da Fiesp.

5. Varejo nos Estados Unidos

Saíram os dados de janeiro do varejo dos Estados Unidos, na sexta-feira de manhã. “Os dados vieram muito abaixo do esperado, então deu fôlego para uma expectativa de corte dos juros nos EUA. Os dados lá tem sido muito importantes para a decisão dos juros. A cada dado o mercado reage de uma forma. Até então, os dados vinham mostrando que as taxas [de juros] seriam mantidas [pelo Fed, Federal Reserve, o banco central estadunidense], o que reduz o apetite ao risco”, explicou a economista.

As vendas do varejo do país caíram 0,9% no mês passado, após um aumento revisado para cima de 0,7% em dezembro, informou o Departamento de Comércio do país.

E a popularidade de Lula?

“Antes de o Datafolha sair, a gente já tinha uma alta bem sustentada na Bolsa. Quando o Datafolha saiu, que já foi no fim da tarde, a Bolsa teve um fôlego extra. Então, sim, teve uma reação do mercado financeiro em relação à queda da popularidade do Lula, mas não foi o motivo que fez a Bolsa virar. A bolsa não estava no negativo e foi para o positivo”, afirmou Deborah.

“Se a Bolsa estivesse no negativo, o Datafolha viraria a Bolsa? Provavelmente não. Essa ‘andorinha, sozinha, não faria verão’. A gente tem que sempre olhar o quadro amplo”, complementou.

Assista ao ICL Mercado e Investimentos no vídeo abaixo:

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