Seis meses após o início do segundo mandato de Donald Trump, a economia dos EUA parece saudável à primeira vista, mas não é de fato o que está acontecendo, segundo o colunista do Financial Times, o economista Tej Parikh, em um de seus artigos mais recentes. A economia estadunidense, segundo ele, está “muito mais frágil do que essas métricas sugerem” e, se Trump não recuar da guerra tarifária deflagrada contra o mundo, a situação não demora a piorar.
“A economia dos EUA é como um sapo em água fervente: aparentemente calma, mas cada vez mais próxima de um ponto de ruptura”, segundo ele.
Ao longo do artigo, Parikh, que é ex-diretor da Fitch Ratings, uma das maiores agências de classificação de risco do mundo, elenca as razões. Por exemplo: dados recentes mostram geração de empregos acima do esperado, inflação contida e o índice S&P 500 em níveis recordes. Para muitos, essas são provas de resiliência. Mas, segundo o analista, esse otimismo mascara uma fragilidade crescente. “A economia dos EUA é como um sapo em água fervente”, afirma.
O primeiro sinal de alerta está no mercado de trabalho. Embora os números gerais de criação de vagas tenham surpreendido positivamente, dois terços dos 671 mil empregos criados desde fevereiro estão concentrados em setores pouco dinâmicos, como saúde e administração pública. Em junho, o índice de difusão do emprego privado caiu abaixo de 50 — um indicativo de que mais setores estão cortando vagas do que contratando, fenômeno raro fora de recessões.
Outro ponto de pressão é o setor imobiliário, historicamente sensível às taxas de juros. As hipotecas fixas de 30 anos ultrapassaram 6%, comprometendo uma fatia crescente da renda das famílias — inclusive mais do que no auge da bolha de 2006. O estoque de imóveis novos não vendidos atingiu o maior patamar desde 2009.
Economia dos EUA: consumo e mercado de ações
No consumo, os sinais são de esgotamento, segundo o analista. Desde dezembro, os gastos reais das famílias vêm recuando. Até recentemente, os mais ricos — responsáveis por mais de 60% do consumo pessoal — sustentavam a demanda. Mas isso está mudando. “Famílias abastadas estão ficando mais cautelosas”, observa Mark Zandi, da Moody’s. E com o esvaziamento das poupanças acumuladas na pandemia, há pouco fôlego para manter os gastos em alta.
O mercado de ações, embora em alta, reflete uma realidade paralela. “O S&P 500 se tornou cada vez mais desconectado das variáveis econômicas reais”, afirma Parikh. Os ganhos estão concentrados nas gigantes de tecnologia — que operam globalmente e estão menos expostas à guerra tarifária deflagrada por Donald Trump contra muitos de seus parceiros comerciais. Enquanto isso, empresas menores, voltadas ao mercado doméstico, vêm relatando queda nas receitas.
Efeito das tarifas
Além disso, os efeitos da política comercial de Trump ainda não foram totalmente sentidos, segundo o colunista. A tarifa média dos EUA, atualmente em 16,6%, deve subir para 20,6% a partir de 1º de agosto.
Segundo a Harvard Business School, a diferença de preços entre produtos tarifados e não tarifados já começa a aparecer, apesar de estoques antigos ainda segurarem repasses.
Com o Federal Reserve pressionado por incertezas e o pacote fiscal recém-aprovado com baixo impacto esperado no consumo, analistas veem pouco espaço para amortecer uma virada.
“Se o presidente dos EUA não recuar decisivamente de sua agenda protecionista em breve, é difícil ver o que impedirá esse castelo de cartas de desmoronar”, conclui Parikh.