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A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara aprovou ontem (4) uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que dá ao Congresso Nacional o direito de autorizar ou barrar empréstimos de bancos públicos da União, como o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), quando as operações forem destinadas a negócios ou projetos no exterior.
Trata-se de uma manobra dos deputados para terem o poder de interferir nos negócios do Brasil lá fora, com prejuízos principalmente a empresas importantes, como a Embraer.
A proposta foi aprovada por 31 votos a 27. Por se tratar de uma PEC, precisará passar agora por uma comissão especial antes de ser levada a plenário.
O texto original, do deputado Mendonça Filho (União-PE), mira instituições como o BNDES e o Banco do Brasil ao afirmar que as operações no exterior por meio de empréstimos de bancos “carecem de comprovações formais de promoção do desenvolvimento nacional”.
Contrário à medida, o deputado Bacelar (PV-BA) ressaltou que os investimentos são em empresas brasileiras. “Embora essas operações sejam realizadas para obras no exterior, quem toma esse dinheiro são empresas brasileiras. Trata-se de geração de emprego e renda no Brasil, e fortalecimento da economia brasileira”, defendeu. “Esta Casa leva, às vezes, cinco anos para autorizar uma emissora de rádio. Imagine um empréstimo sendo discutido neste plenário”, complementou.
A proposta prevê aval do Congresso até mesmo para empréstimos indiretos liberados por todos os bancos comerciais, que repassam o crédito do BNDES, para as exportações de bens em volumes não tão grandes, como nas vendas das indústrias de alimentos e farmacêutica. As montadoras que exportam veículos para a Argentina e o México também poderão ser prejudicadas.
Empresas pedem ajuda do BNDES para barrar a medida
Representantes de grandes empresas pediram ajuda ao BNDES e ao governo federal para tentar barrar a proposta.
De acordo com o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do banco, José Luis Gordon, somente na Embraer, 40% das exportações passam pelo BNDES.
O dirigente afirmou que as vendas são garantidas pelo FGE (Fundo de Garantia à Exportação), que tem uma reserva de US$ 8 bilhões para cobrir eventuais calotes.
“Isso vai prejudicar as empresas brasileiras”, afirmou. “Imagine uma empresa como a Embraer fechando uma venda de aviões para uma companhia aérea estrangeira e pedindo prazo para assinar o contrato porque ele precisa ser aprovado pelo Congresso”, pontuou.
Além da Embraer, WEB, Tupy, Moura e Marcopolo estão entre as instituições contrárias ao projeto.
“Não há país em que as exportações não sejam financiadas”, disse Gordon. “Na China e na Coreia do Sul, o peso do setor público nesse tipo de operação é de 20% [do volume exportado]. Na Índia, é mais ou menos 10%. Aqui é menos de 0,5% [porque há contratos vigentes]”, afirmou.
O carro-chefe do financiamento do BNDES ao comércio exterior é a indústria. O banco já ultrapassou a marca de US$ 100 bilhões emprestados para o comércio exterior. Financiamento de obras fora do país representam em torno de 10% do total.
A Embraer, por exemplo, já contratou em torno de US$ 25 bilhões, desde os anos 1990.
Inadimplência
A proposição na Câmara também afirma que a aprovação do Congresso a esse tipo de operação “visa a combater a inadimplência”, no caso do financiamento de obras.
Países como Venezuela, Cuba e Moçambique já deixaram de pagar parcelas de empréstimos do BNDES que financiaram obras em seus territórios, executadas por empreiteiras brasileiras.
Segundo informações de reportagem do jornal O Globo, no total, o BNDES desembolsou US$ 10,5 bilhões em financiamentos a obras no exterior, em 15 países, desde fins dos anos 1990 até meados da década de 2010. O BNDES teria recebido de volta US$ 13,3 bilhões nesses contratos de crédito, com juros e correção, já incluindo as indenizações por atrasos.
Gordon ressaltou que investigações do TCU (Tribunal de Contas da União) não acharam irregularidades no financiamento ao comércio exterior. O diretor defende a volta, inclusive, do crédito para a exportação de serviços, não apenas obras, mas também tecnologia da informação (TI).
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Proposta está na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, em regime terminativo, ou seja, não precisa necessariamente passar pelo plenário