O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) deve interromper a sequência de três cortes de juros na primeira reunião de política monetária de 2026, que termina nesta quarta-feira (28). A expectativa praticamente unânime do mercado é de que o Comitê Federal do Mercado Aberto (Fomc) mantenha a taxa básica na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, que atribui probabilidade superior a 97% a esse desfecho.
Caso confirmada, a decisão marcará a primeira pausa no ciclo de flexibilização monetária iniciado em setembro do ano passado. Com o resultado amplamente antecipado, o foco dos investidores se desloca para as falas do presidente do Fed, Jerome Powell, na coletiva de imprensa após a reunião.
A avaliação predominante em Wall Street é de que Powell deve evitar qualquer sinalização mais clara sobre os próximos passos da política monetária. Em um ambiente marcado por dados mistos de inflação e mercado de trabalho, o Fed tende a reforçar a postura de dependência de indicadores.
Nesta quarta-feira, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central também anuncia a sua decisão sobre os juros. Assim como nos Estados Unidos, a expectativa por aqui é de manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano.
Inflação resistente e mercado de trabalho ambíguo
Os dados recentes ajudam a explicar a cautela do Fed. A inflação ao consumidor (CPI) fechou 2025 em 2,7%, acima da meta de 2%, enquanto o índice de preços de gastos com consumo (PCE), métrica preferida do Fed, acumula alta de 2,8% em 12 meses. Embora o núcleo do PCE tenha vindo em linha com as expectativas, a inflação segue resistente.
No mercado de trabalho, os sinais são ambíguos. A taxa de desemprego chegou a 4,6% em novembro, o maior nível em quatro anos, antes de recuar para 4,4% em dezembro. O quadro sugere desaceleração, mas sem deterioração abrupta, reforçando o argumento a favor da inércia monetária.
Para o Bank of America (BofA), a política monetária está próxima da taxa neutra, o que reduz a urgência por novos cortes. “O Fomc está firmemente em modo de espera até que o balanço de riscos mude”, afirma o banco.
Comitê dividido e risco de inflação futura
A divisão interna no Fed também pesa na decisão. Parte dos dirigentes segue mais preocupada com a persistência da inflação, enquanto outro grupo monitora com maior atenção o enfraquecimento gradual do mercado de trabalho. Essa falta de consenso tende a favorecer a manutenção dos juros.
Além disso, analistas alertam para riscos inflacionários defasados em 2026, associados às tarifas comerciais impostas pelo governo de Donald Trump.
A reunião ocorre ainda sob renovada pressão política da Casa Branca. O Departamento de Justiça abriu uma investigação criminal sobre o depoimento de Powell ao Congresso, relacionado aos custos da reforma da sede do Fed, estimados em US$ 2,5 bilhões. O episódio reacendeu temores sobre interferência política na condução da política monetária.
Para parte dos analistas, no entanto, essa pressão pode ter efeito contrário ao desejado por Donald Trump. A pressão sobre a autoridade monetária, na avaliação de analistas, pode atrasar o início dos cortes nas taxas de juros.
A expectativa é de que Powell evite comentários políticos e reafirme o compromisso com decisões técnicas e orientadas por dados.
Olhar adiante
As projeções de mercado indicam que um eventual corte de juros só deve ocorrer a partir de junho, com possibilidade de duas reduções de 25 pontos-base ao longo do ano. Ainda assim, o cenário permanece altamente condicionado à evolução da inflação e do mercado de trabalho — e ao desfecho da sucessão de Powell, cujo mandato termina em maio.
Enquanto isso, o Fed segue caminhando em terreno estreito: equilibrar riscos econômicos em um ambiente de incerteza e, ao mesmo tempo, reforçar sua autonomia diante da crescente pressão política de Washington.