Galípolo: Caso Master não representa risco sistêmico

Segundo ele, o simples fato de um banco oferecer juros acima do mercado não configura, por si só, motivo para intervenção do regulador
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O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira (9) que o episódio envolvendo o Banco Master provocou uma repercussão maior do que o porte da instituição justificaria. Segundo ele, o simples fato de um banco oferecer juros acima do mercado não configura, por si só, motivo para intervenção do regulador.

De acordo com Galípolo, não existe norma que impeça instituições financeiras de captar recursos pagando taxas mais elevadas. No caso do Master, porém, o problema foi outro: a combinação entre fragilidade de liquidez, dúvidas sobre a qualidade dos ativos e suspeitas envolvendo as carteiras de crédito da instituição controlada por Daniel Vorcaro.

“Muita gente comentava essa questão de captar acima do CDI. E, como se sabe, não existe nenhuma regra que proíba fazer captações a uma taxa como aquela”, afirmou o presidente do BC durante evento promovido pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC).

Galípolo agradeceu ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, pelo apoio à condução do BC para o caso Master. “Eu agradeço a Deus de estar passando por um processo como esse tendo Lula como presidente”, afirmou, durante evento organizado pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC), em São Paulo.

Segundo Galípolo, o apoio fornece “certeza e tranquilidade” para o trabalho de supervisão, além de ajudar pela experiência de Lula.

Caso Master extrapolou o debate financeiro

Galípolo explicou que o Banco Master precisou ser tratado de forma distinta de crises bancárias históricas, como as que envolveram instituições de grande porte e relevância sistêmica. Segundo ele, a comoção não se deveu ao tamanho do banco, mas ao fato de o caso ter extrapolado o campo estritamente financeiro e exigido atuação conjunta com Polícia Federal e Ministério Público.

Ao comentar o funcionamento básico de um banco, o presidente do BC destacou a importância do equilíbrio entre o que a instituição paga para captar recursos e o que recebe nos empréstimos concedidos.

“Você precisa receber mais juros do que você paga e receber o dinheiro antes do que você tem que pagar”, disse, ao se referir ao chamado casamento entre ativos e passivos.

Mesmo sem novas captações, explicou Galípolo, um banco pode se manter solvente se essa estrutura estiver bem ajustada. No caso do Master, porém, o foco do debate deveria ter sido a qualidade dos ativos, e não apenas o custo da captação.

Ao comparar com episódios do passado, ele lembrou que bancos como Bamerindus, Econômico e Nacional tinham impacto sistêmico. Já o Master, afirmou, era uma instituição de menor porte, comparável a “um time da terceira divisão”.

“A pergunta dos meus pares é: por que um time da terceira divisão está causando esse tipo de comoção?”, questionou.

Segundo Galípolo, a resposta está no fato de o caso ter ido além da regulação financeira. “Esse é um tema que transcende o tema financeiro”, afirmou, ao explicar o compartilhamento de informações com autoridades investigativas.

Juros: fase de calibragem, não de comemoração

Sobre a política monetária, Galípolo reforçou que a manutenção da taxa Selic em 15% ao ano e as sinalizações de possíveis cortes a partir de março não devem ser vistas como uma vitória definitiva contra a inflação.

Segundo ele, o Banco Central entrou em uma fase de calibragem, na qual o foco é acompanhar os dados econômicos e ajustar o grau de restrição da política monetária com cautela.

O presidente do BC reconheceu que houve melhora tanto na inflação corrente quanto nas expectativas desde o fim do ciclo de alta dos juros. Ao mesmo tempo, destacou que a atividade econômica se mostrou mais resistente do que o esperado, mesmo com juros elevados.

“A atividade se mostrou mais resiliente do que se esperava naquele momento do que se esperava para uma taxa de juros no patamar de contração que a gente colocou”, afirmou.

Galípolo ressaltou que o Banco Central não persegue um nível fixo de juros reais, mas ajusta a política conforme a leitura dos indicadores. Ainda assim, alertou que as expectativas de inflação seguem desancoradas, especialmente em horizontes mais longos, o que exige uma condução gradual e prudente da política monetária.

“O ponto pra gente é menos sobre isso e mais reforçar a parcimônia, a cautela que a gente vai ter para ir colhendo os dados e podendo dosar o nível de restrição da política monetária pra gente ter segurança que a gente pode produzir uma convergência da inflação para a meta”, afirmou.

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