A inflação na Argentina registrou 2,9% em janeiro, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec). O resultado representa o quinto mês consecutivo de avanço e marca uma leve aceleração em relação a dezembro, quando o índice havia ficado em 2,8%.
O movimento afasta ainda mais o país do patamar de 1,9% observado em agosto do ano passado, quando o governo comemorava sinais mais claros de desaceleração.
Os maiores impactos vieram dos setores de alimentos e bebidas, além de restaurantes e hotéis — categorias sensíveis ao consumo cotidiano e que influenciam diretamente a percepção popular sobre o custo de vida.
Para especialistas, o dado reforça uma tendência preocupante, uma vez que a aceleração iniciada em agosto também já aparece no acumulado interanual, que chegou a 32,4% em janeiro na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Renúncia no Indec amplia incertezas
A divulgação do índice ocorre em meio a uma crise institucional no órgão responsável pelas estatísticas oficiais. Marco Lavagna deixou a presidência do Indec na semana passada após divergências com o governo de Javier Milei sobre o momento de implementação de uma nova metodologia de cálculo da inflação.
O instituto vinha trabalhando, com apoio técnico do Fundo Monetário Internacional (FMI), em uma atualização da cesta de consumo utilizada para medir o índice. A nova metodologia estava pronta para ser aplicada, mas o governo decidiu adiar sua implementação.
Segundo o ministro da Economia, Luis Caputo, a mudança deveria ocorrer apenas quando o processo de desinflação estivesse “totalmente consolidado”. A decisão, no entanto, gerou ruídos e levantou questionamentos sobre a independência técnica do órgão.
Metodologia antiga e debate sobre credibilidade
O modelo atualmente em vigor utiliza uma cesta de consumo baseada em dados de 2004, que não contemplam despesas hoje relevantes para as famílias argentinas, como telefonia móvel, internet e serviços de streaming.
A proposta de atualização considera a Pesquisa Nacional de Gastos dos Domicílios de 2017–2018 e segue recomendações internacionais para tornar o índice mais representativo da realidade atual.
Embora especialistas avaliem que a adoção da nova metodologia não necessariamente elevaria o índice — podendo até reduzi-lo ligeiramente — o adiamento da mudança e a saída de Lavagna impactaram a percepção sobre a transparência das estatísticas oficiais.
Inflação ainda sob pressão
Apesar da recente aceleração mensal, o dado atual representa melhora em relação ao cenário crítico de 2023, quando a inflação atingiu 211,4% após a forte desvalorização do peso no início da gestão.
Contudo, conforme mostra o documentário do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) “Vai pra Argentina, Carajo!”, os dados econômicos incensados pela grande imprensa brasileira não se refletem na melhora de vida do povo argentino, especialmente os mais vulneráveis. Pelo contrário, o arrocho imposto por Javier Milei piorou a vida daqueles que dependiam de programas sociais para comer, os quais foram desmantelados pela gestão do economista anarcocapitalista.
Seguindo a cartilha do FMI, o pacotaço de Milei ajustou o índice anual de inflação para 31,5% em 2025 — o menor nível em oito anos. Mas, pelo que se vê, o desafio agora é preservar essa trajetória em um contexto de pressões nos preços e de questionamentos sobre a base técnica que sustenta os números oficiais.