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Uma das maiores produtoras globais de açúcar e etanol, a Raízen se consolidou como peça-chave no setor de biocombustíveis brasileiro. Nos últimos anos, a companhia investiu pesadamente em expansão da capacidade produtiva, especialmente em projetos de longo prazo ligados à bioenergia e à transição energética. Nesta quarta-feira (11), a companhia protocolou pedido de recuperação extrajudicial com o objetivo de renegociar aproximadamente R$ 65 bilhões em dívidas.

A proposta da empresa, uma joint venture entre a Shell e a Cosan, conta com o apoio de credores que representam cerca de 40% do total devido. Para que o acordo seja homologado pela Justiça, é necessário o aval de mais da metade dos credores.

Na recuperação extrajudicial, a companhia escolhe um grupo de credores para fechar uma negociação e homologá-la depois junto ao Judiciário.

Embora tenha se consolidado com uma das maiores produtoras de açúcar e etanol, a empresa vem enfrentando uma combinação de desafios que pressionam suas finanças: juros altos que encarecem sua dívida, quebras de safra provocadas por condições climáticas adversas e incêndios, além de retornos ainda tímidos de sua aposta no etanol de segunda geração (E2G).

A dívida acumulada de R$ 65 bilhões acendeu alertas no governo, considerando a importância estratégica da companhia. Em fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com representantes da Shell e da Cosan — controladores da Raízen — e com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para discutir medidas diante da situação.

História e expansão da Raízen

Criada em 2011, a Raízen nasceu da união das operações de açúcar e etanol da Cosan com a rede de distribuição de combustíveis da Shell no Brasil, aprovação confirmada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em 2012. Avaliada inicialmente em US$ 12 bilhões, a joint venture distribuiu igualmente a participação entre os dois sócios.

Ao longo da última década, a companhia se consolidou como um player integrado na cadeia de energia: produz açúcar, etanol de primeira e segunda geração, bioeletricidade e biogás.

Com cerca de 9 mil postos, é responsável pela distribuição de combustíveis Shell no Brasil, Argentina e Paraguai, e mantém mais de 46 mil funcionários e 1,3 milhão de hectares cultivados com cana-de-açúcar.

A aposta no etanol de segunda geração

Nos últimos anos, a Raízen concentrou esforços no etanol de segunda geração, produzido a partir de resíduos da cana. Entre 2021 e 2022, foram investidos cerca de R$ 3 bilhões em novas plantas em São Paulo, incluindo a segunda unidade de etanol celulósico do mundo, com capacidade de 82 milhões de litros anuais e investimento de R$ 1,2 bilhão.

Apesar do potencial ambiental do E2G — capaz de reduzir até 80% das emissões —, a viabilidade econômica ainda enfrenta obstáculos. O alto custo inicial, complexidade tecnológica e produtividade abaixo das expectativas tornaram o retorno mais lento do que a companhia previa. Além disso, o etanol de milho, com produção contínua e custos mais competitivos, começou a disputar espaço no mercado.

Resultados e crise financeira

O desempenho financeiro da Raízen se deteriorou nos últimos anos. No ano fiscal de 2021/2022, registrou lucro líquido de R$ 3 bilhões e dívida de R$ 13,8 bilhões, considerada administrável. Mas a combinação de juros altos, margens reduzidas e resultados operacionais fracos levou a prejuízos de R$ 15,6 bilhões até o terceiro trimestre do ano fiscal de 2025/2026.

Parte desse resultado refletiu um ajuste contábil de R$ 11 bilhões referente à redução do valor recuperável de ativos, enquanto a dívida líquida da companhia disparou para R$ 65 bilhões. Diante desse cenário, a Raízen anunciou, em 11 de março, pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívidas e reorganizar sua estrutura financeira, garantindo que as operações seguem normalmente.

Presença nacional e internacional

Além da produção de bioenergia, a Raízen mantém operações robustas de distribuição e varejo: abastece 9 mil postos Shell, aeroportos, frotas corporativas e empresas de transporte, agronegócio, mineração e indústria. Possui mais de 70 terminais de distribuição, 68 bases em aeroportos e soluções digitais como o Shell Box.

Internacionalmente, ampliou sua presença em 2018, com aquisição de ativos de refino e distribuição na Argentina, estendendo operações ao Paraguai.

A empresa continua a investir em transição energética, incluindo energia solar, biogás e novas plantas de etanol de segunda geração, consolidando sua atuação como um dos principais agentes do setor sucroenergético da América Latina.

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