Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial brasileira poderia trazer consequências negativas para a economia tanto no curto quanto no longo prazo, segundo o economista Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2001. Para ele, as propostas de redução dos gastos públicos e de impostos defendidas pelo candidato podem comprometer o crescimento econômico, ampliar a desigualdade social e prejudicar principalmente a população de baixa renda.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Stiglitz questionou o entusiasmo do mercado financeiro com o desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. O economista avaliou que a expectativa de políticas favoráveis aos investidores não significa necessariamente melhora das condições econômicas para a maioria da população.
O alerta contrasta com a reação dos mercados após a primeira etapa da eleição presidencial. Na ocasião, o dólar recuou para a faixa de R$ 5, enquanto a Bolsa brasileira atingiu o patamar histórico de 206 mil pontos, em meio às expectativas de uma possível vitória do candidato do PL.
Stiglitz, que foi economista-chefe do Banco Mundial e presidiu o Conselho de Assessores Econômicos dos Estados Unidos durante o governo Bill Clinton, considera que a redução de investimentos públicos pode comprometer a capacidade de desenvolvimento do Brasil.
O economista também manifestou preocupação com possíveis ameaças às instituições democráticas e com as consequências de uma aproximação política entre um eventual governo Flávio Bolsonaro e o presidente norte-americano Donald Trump.
Cortes de gastos podem atingir educação e infraestrutura
Na avaliação de Stiglitz, a combinação de cortes de despesas públicas e redução de impostos, especialmente para os mais ricos, pode produzir um efeito contrário ao crescimento prometido pela campanha de Flávio Bolsonaro.
O economista argumenta que uma política fiscal excessivamente restritiva tende a reduzir a atividade econômica, afetando o consumo, o emprego e a renda dos trabalhadores.
Como Flávio afirma que não pretende cortar aposentadorias, Stiglitz avalia que outras áreas do Orçamento poderiam sofrer reduções mais intensas para viabilizar o ajuste fiscal.
Entre os setores potencialmente atingidos estão educação, infraestrutura, tecnologia e programas voltados às populações de menor renda.
A avaliação considera as diretrizes econômicas anunciadas pela campanha, que ainda não apresentou detalhes suficientes para determinar quais despesas seriam efetivamente reduzidas.
Para Stiglitz, os efeitos de cortes em investimentos públicos podem ser especialmente prejudiciais porque parte das consequências só aparece depois de vários anos.
A diminuição de recursos destinados à educação e à infraestrutura, por exemplo, poderia dificultar o aumento da produtividade e ampliar a distância econômica entre o Brasil e os países desenvolvidos.
Economista questiona entusiasmo do mercado financeiro
A reação positiva de investidores ao resultado do primeiro turno também foi criticada por Stiglitz.
Após Flávio Bolsonaro terminar a votação com vantagem de 1,87 ponto percentual sobre Lula, o mercado financeiro registrou valorização das ações e queda do dólar.
Parte desse movimento foi associada à expectativa de que um eventual governo do PL adotasse medidas de austeridade, privatizações e redução de impostos.
Entretanto, o Nobel de Economia argumenta que investidores podem estar priorizando benefícios imediatos sem considerar os efeitos de longo prazo sobre a economia.
Na avaliação dele, um ambiente de negócios favorável depende também de crescimento econômico, investimentos em infraestrutura, trabalhadores qualificados e capacidade de consumo da população.
Uma política que enfraqueça esses fatores poderia reduzir a atratividade do Brasil para investimentos produtivos, mesmo que inicialmente seja recebida de forma positiva pelo mercado financeiro.
Stiglitz também considera que o aumento da desigualdade e da pobreza pode comprometer a estabilidade econômica e social do país.
Stiglitz elogia resultados de Lula, mas critica juros altos
Apesar das críticas ao programa econômico de Flávio Bolsonaro, Stiglitz também apontou problemas na condução da economia brasileira durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O economista avaliou positivamente o desempenho dos mercados na atual gestão, mas defendeu uma redução das taxas de juros.
Segundo ele, o Brasil enfrenta uma contradição fiscal: embora registre superávit primário, o país continua pressionado pelos elevados gastos com juros da dívida pública.
Stiglitz considera que o patamar dos juros brasileiros não corresponde adequadamente à situação da inflação e acaba favorecendo o setor financeiro em detrimento da atividade produtiva.
Na avaliação do economista, taxas menores poderiam contribuir para ampliar os investimentos, estimular a produção e fortalecer o crescimento econômico.
A crítica também envolve os efeitos dos juros elevados sobre as contas públicas, já que o custo do serviço da dívida aumenta a pressão fiscal.
Para Stiglitz, uma economia mais competitiva depende de remuneração adequada aos trabalhadores, financiamento acessível e um sistema financeiro capaz de apoiar a produção.
Nobel alerta para riscos à democracia brasileira
As preocupações do economista não se limitam às propostas econômicas.
Antes do primeiro turno, Stiglitz assinou um manifesto publicado no jornal francês Le Monde que alertava para os riscos políticos de uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro.
O documento também contou com assinaturas de personalidades como o economista Thomas Piketty, o músico Chico Buarque e o ex-jogador Raí.
Na entrevista à Folha, Stiglitz reafirmou sua preocupação com o enfraquecimento das instituições democráticas e defendeu que esse risco seja considerado ao avaliar os possíveis impactos de uma mudança de governo.
A análise apresentada pelo economista associa a estabilidade institucional à capacidade de um país atrair investimentos e manter políticas públicas de longo prazo.
As declarações representam a avaliação de Stiglitz sobre as propostas e os riscos de um eventual governo do PL, não uma previsão econômica consensual ou um resultado já demonstrado.
Relação com Trump pode ampliar pressões sobre o Brasil
Outro ponto abordado pelo Nobel de Economia foi a relação entre o Brasil e os Estados Unidos.
Stiglitz criticou as medidas tarifárias adotadas pelo governo de Donald Trump contra produtos brasileiros e apontou o uso de pressões comerciais como instrumento de interferência política.
O economista considera que uma eventual aproximação de Flávio Bolsonaro com Trump poderia colocar o Brasil diante de conflitos envolvendo seus principais parceiros comerciais.
Nesse cenário, ele destacou a importância da China para a economia brasileira e alertou para os riscos de o país ser pressionado a aderir à política norte-americana de confronto com Pequim.
A avaliação é de que o Brasil precisa preservar sua autonomia nas relações internacionais, considerando os impactos econômicos de decisões diplomáticas sobre exportações, investimentos e comércio.
Stiglitz também criticou a interferência dos Estados Unidos em assuntos internos de outros países e relacionou essa postura às pressões exercidas sobre o Brasil em torno dos processos judiciais envolvendo Jair Bolsonaro.
Quem é Joseph Stiglitz?
Aos 83 anos, Joseph Stiglitz é professor da Universidade Columbia, em Nova York, e um dos economistas mais conhecidos internacionalmente por seus estudos sobre desigualdade, funcionamento dos mercados e políticas públicas.
Ele recebeu o Nobel de Economia em 2001, ao lado de George Akerlof e Michael Spence, por pesquisas sobre assimetria de informações, que demonstraram como diferenças no acesso à informação podem comprometer o funcionamento eficiente dos mercados.
Entre 1997 e 2000, ocupou o cargo de economista-chefe do Banco Mundial. Antes disso, presidiu o Conselho de Assessores Econômicos do governo Bill Clinton.
Stiglitz também é autor de obras como A Globalização e seus Malefícios e O Preço da Desigualdade, nas quais questiona políticas de austeridade e os efeitos sociais da desregulamentação econômica.
Suas declarações sobre a eleição brasileira reforçam uma divergência importante no debate econômico: enquanto parte do mercado financeiro aposta nos possíveis benefícios imediatos de uma agenda de cortes de gastos e redução de impostos, o economista alerta para os riscos dessas medidas sobre o crescimento, o investimento público e as condições de vida da população.