A escalada do preço do petróleo em meio às tensões entre Estados Unidos e Irã deve gerar efeitos ambíguos para a economia brasileira. De um lado, pressiona a inflação; de outro, pode melhorar temporariamente as contas públicas. Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, o impacto pode reduzir o déficit primário em até 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme relatório divulgado nesta semana.
As projeções da IFI indicam que o aumento do barril do tipo Brent crude oil favorece o resultado primário, embora não seja suficiente para eliminar o déficit nos próximos anos. Sem o choque de preços, a estimativa para 2026 é de resultado negativo de 0,7% do PIB. Caso o barril permaneça próximo de US$ 97, o déficit cairia para cerca de 0,1%.
Para 2027, o cenário base aponta rombo de 1,2% do PIB. Com o Brent ao redor de US$ 108, a projeção melhora para déficit de 0,6%, evidenciando a sensibilidade das contas públicas à dinâmica internacional do petróleo.
Receita maior, mas com efeitos colaterais
O ganho fiscal ocorre por dois canais principais: o aumento direto da arrecadação — via impostos, royalties e participações governamentais — e o efeito indireto da inflação, que amplia a base tributária.
No entanto, esse alívio pode ser parcialmente neutralizado por medidas adotadas para conter o impacto sobre consumidores e setores econômicos. Subsídios ao diesel e ao gás de cozinha (GLP), além do adiamento de cobranças tarifárias sobre companhias aéreas, reduzem o potencial de arrecadação adicional.
Pressão inflacionária e impacto nas despesas
Se o petróleo permanecer em patamar elevado, a inflação tende a pressionar despesas públicas a partir de 2027, sobretudo aquelas indexadas ao salário mínimo. Entre elas estão benefícios previdenciários, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o seguro-desemprego e o abono salarial.
Esse efeito evidencia o caráter temporário do ganho fiscal: a mesma inflação que amplia receitas no curto prazo pode elevar gastos obrigatórios no médio prazo.
Incerteza no cenário internacional
Para Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI, as estimativas ainda são preliminares e cercadas de incerteza. Segundo ele, não é possível prever com precisão o comportamento do preço do petróleo nem seus efeitos sobre a inflação global e sua transmissão para diferentes economias.
Parte dessa incerteza está ligada à disputa geopolítica no Estreito de Hormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo.
Diferenças nas métricas fiscais
A IFI adota uma metodologia mais abrangente ao considerar todas as despesas do governo em seus cálculos. Já as estatísticas oficiais excluem itens como parte dos precatórios, investimentos em Defesa e gastos extraordinários do fundo social, conforme previsto em emenda constitucional.
Essa diferença metodológica é relevante porque, para a trajetória da dívida pública, o que importa é o volume total de gastos efetivos — critério seguido pela IFI em suas projeções.
Enquanto isso, o governo federal optou por não incorporar os efeitos do conflito nas estimativas da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027, citando o elevado grau de incerteza no cenário externo.