A partir desta quarta-feira (6), entra em vigor a tarifa de 50% imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma ampla gama de produtos brasileiros. A medida, anunciada em julho, impacta 35,9% das exportações brasileiras para os EUA — incluindo itens de destaque como carne, café e frutas — e já pressiona empresas de todos os portes, com impacto desproporcional sobre pequenos exportadores.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta manhã que o plano de contingência contra o tarifaço de 50% sobre exportações brasileiras aos Estados Unidos será enviado ainda hoje para o presidente Lula.
Segundo o Sebrae, micro e pequenas empresas representam 40% das exportadoras brasileiras. Muitos desses empreendimentos já enfrentam cancelamentos de pedidos, incerteza nas negociações e expectativa de queda no faturamento. Mas empreendedores de diversos setores relataram dificuldades antes mesmo da entrada em vigor da tarifa, como os exportadores de mel.
Na terça-feira (5), o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, que está à frente das negociações com o governo Trump, afirmou que o Executivo segue em negociação para retirar a taxa de 50% para produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, além de preparar um plano de contingenciamento (veja mais abaixo).
“A orientação do presidente Lula tem sido de negociação, diálogo, e nós vamos trabalhar para reverter esse processo e, além disso, apoiar as empresas, apoiar o emprego e apoiar o setor produtivo, e abrir mercado”, disse o vice-presidente.
Setores mais afetados pela medida de Trump
O Sebrae estima que 11,4 mil micro e pequenas empresas brasileiras atuam na exportação, movimentando cerca de US$ 2,6 bilhões ao ano. Entre os principais produtos estão:
- Cafés especiais e em cápsulas
- Produtos químicos e resinas
- Calçados, móveis e artigos de couro
- Sucos, mel, alimentos processados e agroecológicos
- Eletroeletrônicos e têxteis artesanais
Uma pesquisa Sebrae/FGV de junho já mostrava que mais de 50% dos pequenos empresários do setor de comércio previam impactos diretos da medida.
Governo articula pacote de resposta
Sem diálogo direto com a Casa Branca, o governo brasileiro trabalha em medidas para mitigar os efeitos da tarifa. Segundo Alckmin, o plano inclui:
- Negociação com autoridades e empresas dos EUA
- Busca por novos mercados
- Apoio financeiro, tributário e creditício
- Entre os programas já anunciados está o “Acredita Exportação”, lançado em 1º de agosto. Ele prevê a devolução de até 3% em créditos tributários para exportadores, incluindo os do Simples Nacional, além de redução nos custos logísticos até 2027.
Outras ações em estudo
- Compra governamental de perecíveis, como frutas e mel, para absorver estoques.
- Nova linha de crédito via BNDES para financiar capital de giro e abertura de mercados, com garantia entre R$ 1,5 e R$ 2 bilhões, mobilizando até R$ 20 bilhões em empréstimos.
- Exigência de insumos naturais na indústria alimentícia nacional, para escoar produtos antes exportados.
- Há ainda previsão de um programa de compensação temporária para redução de jornada e salários, com complementação de renda.
Lula evita Trump e foca em agenda ambiental
O presidente Lula afirmou na véspera que não pretende telefonar a Donald Trump para discutir o tarifaço. Em vez disso, disse que vai convidá-lo para a COP30 (Conferência do Clima das Nações Unidas), que acontecerá em Belém, no Pará.
A diplomacia brasileira aposta em um “esforço por fora”, usando acordos estratégicos — como o da exploração de minerais críticos — para abrir espaço para uma reaproximação. Lula tem defendido uma política de exploração que beneficie o povo brasileiro e preserve o meio ambiente.
Embraer ajusta resultado
A Embraer informou em fato relevante, na noite de terça-feira, que realizou “ajustes” em seu resultado referente ao segundo trimestre, divulgado mais cedo na véspera, com o resultado líquido passando de prejuízo de R$ 53,4 milhões para lucro de R$ 675 milhões.
Segundo a fabricante brasileira de aeronaves, a alteração se deu devido a um ajuste no valor reportado na linha de imposto de renda e contribuição social diferidos.
Caminho diplomático segue travado
A expectativa no Ministério da Fazenda é que o diálogo com autoridades americanas, como o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, possa abrir uma nova frente de negociação. O governo brasileiro aposta em separar a questão econômica das alegações políticas feitas por Trump — que citou o STF (Supremo Tribunal Federal) e decisões internas do Brasil como parte da justificativa da tarifa.
Para o ministro Fernando Haddad, a prioridade é proteger as famílias e negócios afetados. “Temos os instrumentos necessários para socorrer as famílias prejudicadas por uma agressão injusta, indevida e incompatível com os 200 anos de parceria com os EUA.”
No entanto, o ambiente geopolítico segue instável. A prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, decretada pelo STF, é vista como um fator que torna o diálogo ainda mais delicado.
Apesar disso, o tarifaço de Trump não é visto pelo governo como uma “guilhotina”, mas como o início de uma nova fase de negociação — dura, com impactos reais e efeitos assimétricos. Para os pequenos exportadores, especialmente, o momento exige adaptação, criatividade e apoio público.