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Em busca de uma solução para as sobretaxas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o vice-presidente e ministro do MDIC (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Geraldo Alckmin (PSB), vai tentar marcar nova reunião com o secretário do Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, ainda neste mês. A data, no entanto, ainda não foi definida.
A reunião entre os dois estava prevista inicialmente para ser realizada na última sexta-feira (28), de forma virtual. O encontro, no entanto, acabou não acontecendo.
No mês passado, Trump anunciou que implementaria sobretaxas ao aço e alumínio importados. O Brasil é o segundo maior exportador de aço aos EUA, atrás somente do Canadá. Outros produtos, no entanto, também estão na mira do republicano.
Na ocasião, Alckmin afirmou que o governo brasileiro já estava em contato com o setor siderúrgico no Brasil, desenvolvendo soluções em parceria com a CNI (Confederação Nacional da Indústria).
Por ora, o governo brasileiro tem adotado uma postura cautelosa. No encontro, Alckmin deverá argumentar que as exportações brasileiras não representam uma ameaça às indústrias norte-americanas, como Trump quer fazer crer. O vice-presidente deve explorar o fato de que as economias não são concorrentes, mas sim, complementares.
Além da tarifa de 25% sobre as importações norte-americanas de aço e alumínio, Trump anunciou um memorando para estudar a aplicação de tarifas recíprocas, que devem valer a partir de 2 de abril.
Ao anunciar o plano para um comércio internacional “justo e recíproco”, o presidente dos EUA colocou o etanol brasileiro na mira de sua agenda econômica.
Guerra comercial de Trump pode ajudar o Brasil em outras parcerias
Se, por um lado, a guerra comercial iniciada por Donald Trump pode prejudicar setores econômicos específicos do Brasil, por outro, o país pode sair ganhando com as mudanças que devem ocorrer no comércio global.
Um dos principais alvos dos Estados Unidos, a China já anunciou medidas em resposta às sobretaxas de Trump a produtos chineses, as quais podem beneficiar o Brasil, principalmente em produtos como soja e frango.
A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Em segundo lugar estão os Estados Unidos. O Brasil está entre os maiores exportadores globais dos dois produtos.
Embora não seja o alvo principal do tarifaço de Trump, o Brasil foi citado pelo presidente dos Estados Unidos durante longo discurso ao Congresso norte-americano, na terça-feira (4). Ele acusou o país de cobrar tarifas desiguais e “injustas” dos produtores norte-americanos.
“Nós fomos roubados por décadas por todos os países da face da Terra, e não vamos deixar isso acontecer mais”, disse Trump. “Em média, a União Europeia, China, Brasil, Índia, México, Canadá e inúmeras outras nações nos cobram tarifas muito mais altas do que cobramos deles, o que é extremamente injusto”, completou Trump.
No entanto, a balança comercial entre os dois países é favorável aos Estados Unidos por mais de duas décadas, pelo menos.
Segundo dados do Cepea-USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo), os EUA foram o terceiro maior importador do agronegócio brasileiro em 2024, com uma participação de 7,4%.
O destaque foi a madeira brasileira, com os EUA recebendo 42,4% das exportações do produto. Nesse caso, o Brasil pode sentir os efeitos das tarifas, já que Trump anunciou no final do mês passado que deve impor uma tarifa de 25% sobre madeira e produtos florestais importados.
O país também pode ser atingido pelas tarifas recíprocas, como no caso do etanol brasileiro já citado por Trump.
Ganhos com a China
Há uma avaliação dentro do governo brasileiro de que o Brasil é o substituto natural para muitos dos produtos dos EUA agora sobretaxados pela China, conforme reportagem da Folha de S.Paulo.
Cenário parecido aconteceu no primeiro mandato de Trump (2017-2020), quando o Brasil se beneficiou, principalmente em um primeiro momento, de retaliações tarifárias contra os EUA aplicadas por China e outros sócios comerciais dos norte-americanos.
Os ganhos do Brasil na época só não foram maiores por causa de uma trégua assinada por EUA e China em 2020.
À época, um estudo do Departamento de Agricultura dos EUA apontou que, em 2018, os chineses deixaram de comprar cerca de US$ 8 bilhões em itens agrícolas dos norte-americanos, enquanto as vendas brasileiras desses produtos tiveram um salto de cerca de US$ 4 bilhões, em relação ao ano anterior.
Em resposta à decisão de Trump, de dobrar de 10% para 20% as tarifas sobre produtos comprados da China, o governo chinês anunciou tarifa adicional de 15% sobre frango, trigo, milho e algodão e de 10% sobre sorgo, soja, carne suína, bovina, produtos aquáticos, frutas, vegetais e laticínios comprados dos EUA. A medida vale a partir de 10 de março.
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