Enquanto o mundo tem todas suas atenções voltadas para os estádios dos EUA, Canadá e México, um outro torneio ocorre num lugar que foi alvo de uma tentativa de apagamento e limpeza étnica.
Em Gaza, entidades da sociedade civil se reuniram neste fim de semana para organizar uma Copa do Mundo para aqueles que sobreviveram ao genocídio. Sem parte de seus corpos, ele entram em campo no estádio Al Anan com a missão de existir e resistir.
E vestem justamente a camisa de uma seleção que, ao longo da história, mexeu com corações e mentes entre os palestinos: a do Brasil.
Se por décadas eram os craques brasileiros que justificavam a aura do país entre os palestinos e, de forma geral, no Oriente Médio, hoje vestir a camisa da seleção é buscar uma armadura para a própria existência de uma Palestina soberana e livre.
O governo brasileiro foi um dos primeiros a assumir a defesa da criação do estado da Palestina e, nos últimos anos, passou a ser um pilar estratégico da construção de uma aliança internacional pelo reconhecimento dos palestinos.
Muhammad Abu Samra, de 28 anos, admite que aqueles jogadores que entravam em campo mutilados pela guerra “sonham em ir um dia ver uma Copa do Mundo”. “Sonhamos também um dia levar a bandeira da Palestina a um torneio internacional”, afirmou.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) acredita que entre 5.000 e 6.000 palestinos em Gaza tiveram seus membros amputados desde o início da guerra de Israel em outubro de 2023.
Além disso, o conflito representou um golpe sem precedentes para o esporte palestino em Gaza.
De acordo com um relatório da Associação Palestina de Futebol (PFA) de março, 1.007 membros da comunidade esportiva em Gaza foram mortos por Israel desde outubro de 2023, incluindo jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes e funcionários do esporte.
As instalações esportivas não escaparam da destruição que Israel causou no restante de Gaza, reduzindo grande parte do enclave a escombros. A PFA afirmou que 265 instalações esportivas foram danificadas ou completamente destruídas por ataques israelenses, incluindo campos de futebol, ginásios, prédios de clubes, piscinas e outras infraestruturas esportivas.
Muitos dos principais estádios de Gaza foram afetados, enquanto algumas instalações foram transformadas em abrigos para famílias deslocadas.
No total, 42 mil palestinos em Gaza sofreram ferimentos com consequências para toda a vida durante os dois anos de conflito.
Antes da bola rolar entre jogadores e suas muletas, uma criança amputada também entrou em campo. 15 mil outras crianças palestinos não sobreviveram.

As fotos para esta reportagem são do palestino Mohamed Ahmed, morador de Gaza.