Fui criada no catolicismo. Frequentei catecismo, ia à missa todos os domingos. Mas confesso: nunca me senti realmente à vontade naquele ambiente. As imagens dos santos me observavam, eu tinha a sensação constante de pecado, os sermões eram longos, os cânticos solenes demais, e até as senhorinhas, com seus olhares de desaprovação, me causavam desconforto. A roupa de domingo parecia um uniforme de obediência. De certo modo, tudo aquilo me assustava.
Ainda assim, havia uma exceção: o padre Nivaldo. Baixinho, sempre sorridente, ficava na porta após a missa para cumprimentar os fiéis. Quando chegava minha vez, ele estendia a mão e repetia, invariavelmente: “pão de milho”. Nunca compreendi. Nunca perguntei. Apenas sorria e seguia adiante.
Anos mais tarde, voltei àquela paróquia. No fim da celebração, lá estava ele, igualzinho, como se o tempo não tivesse passado. Cumprimentou-me outra vez, e dessa vez disse: “bom domingo”. Fim do mistério e finalmente me dei conta: durante toda a infância, o que eu ouvira como “pão de milho” era, na verdade, um simples “bom domingo”. Sorri sozinha.
Esse episódio sempre me fez pensar no quanto minha relação com a fé é particular. Tenho crenças, sim, mas não sou de frequentar templos. Talvez por isso certas experiências tenham marcado tanto minha trajetória.
Lembro-me de quando comecei a apresentar o ICL: minha mãe frequentava a Igreja Universal do Reino de Deus. Já contei essa história algumas vezes. Durante a campanha de 2022, Edir Macedo afirmou que havia o Deus da direita e o Deus da esquerda — e que todo jornalista era do diabo. Naquele mesmo dia, minha mãe deixou a Universal. Foi um gesto simbólico.
Agora, vemos o pastor Silas Malafaia no centro de uma investigação da Polícia Federal. Por ordem do ministro Alexandre de Moraes, ele teve o passaporte e o celular apreendidos logo após desembarcar de uma viagem a Portugal. É suspeito de tentar obstruir o julgamento de Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe em 2022.
As provas falam alto. Em mensagens recuperadas do celular de Bolsonaro, Malafaia aparece orientando o ex-presidente sobre discursos e comportamentos, além de comemorar pressões de Donald Trump contra o Brasil. Em outro trecho, chama Eduardo Bolsonaro de “babaca”.
Não é a primeira vez que Malafaia atua nos bastidores da política. Foi ele quem financiou e organizou atos golpistas nos últimos anos. Em 2023, bancou com recursos próprios a manifestação da Avenida Paulista, em 25 de fevereiro. Antes, havia dito que os custos seriam cobertos pela Associação Vitória em Cristo, braço beneficente de sua igreja — até perceber que isso poderia trazer problemas judiciais. Rapidamente, mudou a versão: tudo sairia de seu bolso.
A manifestação reuniu 185 mil pessoas, segundo a USP. Foi nesse mesmo ato que Malafaia debochou da Justiça brasileira com a frase: “Vem, pode vir, Polícia Federal”. Hoje, o destino responde: a Polícia Federal veio.
Nos áudios apreendidos, Malafaia aparece nove vezes usando palavrões — “cacete”, “arrombado”, “merda”, entre outros. Palavras que não combinam com alguém que se apresenta como “homem de Deus”.
Nos áudios apreendidos, Malafaia aparece nove vezes usando palavrões — “cacete”, “arrombado”, “merda”, entre outros. Palavras que não combinam com alguém que se apresenta como “homem de Deus”.
Chamá-lo assim, aliás, é uma ofensa para quem vive a fé de verdade, para quem dedica a vida a servir.
Malafaia está cercado. Impedido de deixar o país, com passaporte e celular apreendidos. E, à medida que mais provas forem reveladas, a corda deve apertar ainda mais.
O que está em jogo não é apenas a reputação de um pastor, mas a própria democracia brasileira. Porque Silas Malafaia trai o Brasil, trai a democracia — e trai até a fé que diz defender.
Se, na infância, meu dilema espiritual era tentar decifrar o “pão de milho” do padre Nivaldo, hoje, como jornalista, meu desafio é outro: traduzir os crimes de homens como Malafaia para que suas palavras e seus atos não se percam, não sejam esquecidos nem perdoados.