Fábrica de cliques e raiva

A geração que sai agora da universidade descobre descobre que a tecnologia pode torná-la obsoleta.
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Maio é temporada de discursos de formatura nos EUA. CEOs, políticos e celebridades sobem ao palco das grandes universidades para comemorar o futuro dos recém-formados, geralmente com discursos otimistas sobre o futuro profissional. Existem vários clássicos desse segmento, como o de Steve Jobs, fundador da Apple, em Stanford, em 2005, ou mesmo o fictício “Use protetor solar”, escrito para uma coluna pela jornalista Mary Schmich no formato de um desses discursos, em 1997, e que por aqui ficou famoso na voz de Pedro Bial.

Este ano, uma certa visão de futuro virou motivo de protestos. Na Universidade do Arizona, o ex-CEO do Google Eric Schmidt foi interrompido por vaias ao falar sobre inteligência artificial. Na University of Central Florida, a executiva Gloria Caulfield chamou a IA de “a próxima revolução industrial” e ouviu a mesma resposta da plateia. Ela parou, olhou para o público e perguntou “o que está acontecendo?”.

Uma pesquisa do ZipRecruiter mostrou que 47% dos recém-formados nos EUA dizem que a IA já afetou contratações nas suas áreas. Outros 51% acreditam que a tecnologia vai reduzir empregos de entrada, exatamente aqueles que servem de porta para qualquer carreira. Muitas empresas já anunciaram cortes e culparam a automação.

No RESUMIDO comentei sobre pesquisadores que apontam uma dependência cognitiva em estudantes que delegam tarefas intelectuais para ferramentas como o ChatGPT. O medo de ser substituído e o medo de estar se tornando menos capaz chegaram juntos.

Durante o Festival de Cannes, nomes como George Clooney, Meryl Streep e Peter Jackson defenderam alguma forma de convivência com a IA no entretenimento. Demi Moore foi mais direta e afirmou que “lutar contra a IA é uma batalha perdida”.

O ator e diretor Seth Rogen foi na contramão e falou que quem recorre à tecnologia para escrever “não deveriam ser escritores”. Para ele, o valor da criação está no processo, não só no resultado.

A geração que sai agora das universidades cresceu ouvindo que precisava dominar tecnologia para sobreviver no mercado. Aprendeu a programar, a editar vídeo e a produzir conteúdo. Entrou em faculdades caras com a certeza de que valeria e agora descobre que a tecnologia pode torná-la obsoleta.

A vaia é a reação de quem percebeu que as regras mudaram durante o jogo, sem aviso. A resistência à IA saiu do debate acadêmico e tomou os espaços públicos. O que ninguém sabe ainda é o que vem depois da vaia.

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