Por Cleber Lourenço
Flávio Bolsonaro apresentou seu plano de governo e finalmente alguém teve coragem de propor aquilo que nenhum presidente brasileiro ousou antes: combater o crime.
É extraordinário. O Brasil passou décadas mobilizando policiais, delegados, promotores, juízes, presídios, radares, satélites, inteligência financeira e alguns bilhões de reais sem perceber que talvez estivéssemos complicando demais a questão. Faltava ser contra o crime. Flávio percebeu.
Seu programa começa com o “Brasil sem Medo”, nome que carrega a delicadeza institucional de uma operação policial batizada na porta de uma delegacia. A missão é “devolver o Brasil às famílias brasileiras e tirá-lo das mãos do crime”. Há propostas concretas: dobrar os investimentos federais em segurança, criar cinco novos presídios de segurança máxima, instalar mais de 1 milhão de câmeras e reforçar fronteiras, portos e aeroportos.
O problema é o que acontece quando o programa resolve explicar essas ideias. Uma das propostas recebe o delicado título de “Acabar com a cocaína ‘made in Brazil’”. O Brasil não planta coca, mas é rota internacional da droga. Flávio propõe usar tropas especiais da Marinha e da Aeronáutica para ocupar e monitorar portos e aeroportos.
Até aqui, política pública. Então o programa incorpora o espírito de um filme de ação escrito por alguém que considera Tropa de Elite excessivamente contemplativo:
“Traficante que resistir e enfrentar o Estado vai ser preso ou vai virar pó.”
Excelente. A cocaína que se vire.
O tráfico internacional de drogas, uma indústria bilionária que atravessa continentes, lava fortunas e opera sofisticadas redes logísticas, terá de lidar a partir de 2027 com um obstáculo aparentemente ainda não considerado em seu planejamento estratégico: Flávio Bolsonaro será contra.
Outra proposta é o “Muralha Brasileira”, sistema nacional de reconhecimento facial com mais de 1 milhão de novas câmeras e integração com bancos de dados criminais. Uma política dessa dimensão abre discussões sobre proteção de dados, falsos positivos, governança das informações e limites da vigilância estatal. O programa prefere uma síntese mais elegante:
“Bandido não vai ter mais onde se esconder.”
Pronto. Décadas de discussão sobre inteligência policial resumidas em nove palavras.
Ler o sumário do capítulo de segurança, aliás, é uma experiência no mínimo tétrica. Há algo de funéreo na sucessão de títulos, como se estivéssemos diante do cardápio de um restaurante temático administrado pelo Capitão Nascimento.
“Terrorista vai ser tratado como terrorista.” Durante anos, aparentemente, tratamos terroristas como ortodontistas. “O crime do menor não é menor.” Aqui temos inclusive um trocadilho. “Mais presídios, menos bandidos soltos.” Matematicamente impecável.
Os novos presídios, por sinal, formariam com os cinco já existentes um complexo federal de segurança máxima. O plano já escolheu até o nome: TREVA.
Sim, TREVA. Não é apelido de colunista mal-intencionado. “Para tirar o medo do cidadão e botar medo no bandido, ele vai se chamar TREVA”, explica o documento. É difícil competir com o material original.
Há ainda “Cortar o mal pela raiz”, sobre castração química de condenados por crimes sexuais; “Sem desconto para a barbárie”, sobre o fim da progressão para crimes hediondos; e a delicadíssima “Quem não entrar na linha vai ser desligado da sociedade”. Nesse ponto, já não sabemos se estamos lendo um programa presidencial ou o regulamento de um condomínio administrado por um síndico recém-divorciado.
Mas seria injusto reduzir o programa de Flávio à descoberta de que o crime é ruim. Há outras descobertas. Fila também é ruim.
Por isso existe o “Brasil sem Fila”. Depois chega o “Brasil Mais Barato”, com “Conta de luz mais simples e mais barata”, “Comida mais barata na prateleira” e “Crédito que não afunda a família”. Não foi localizado, até o fechamento desta coluna, nenhum movimento nacional relevante em defesa da comida mais cara.
A metodologia continua. Na educação, Flávio promete “Ensinar de verdade”. No trabalho, “Trabalho que compensa”. Para aposentados, “Fim das fraudes”.
A metodologia inspira uma segunda edição:
Saúde que cura.
Ônibus que chega.
Salário que paga.
Geladeira que gela.
Governo que governa.
Água que molha.
A graça involuntária está em apresentar consensos elementares como escolhas políticas corajosas. Flávio é contra o tráfico, a fraude, a burocracia, a comida cara e a fila. É a favor do emprego, da segurança e da prosperidade.
Uma plataforma perigosamente próxima da unanimidade entre seres humanos.
O próprio documento, porém, oferece a melhor régua para julgá-lo:
“Um plano de governo não vale pelo que promete, mas pelo que consegue sustentar.”
Perfeito. Política começa justamente onde termina a lista das coisas boas que queremos e das coisas ruins que gostaríamos de eliminar.
Até lá, uma questão está resolvida.
Flávio Bolsonaro quer proibir o crime.
Agora só falta combinar com os bandidos.