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A FLIMA 2026 começa nesta quinta-feira (3), em Santo Antônio do Pinhal, na Serra da Mantiqueira, com uma programação que usa a literatura para discutir memória, desigualdade social, censura e acesso aos livros. As atividades seguem até segunda-feira (7), são gratuitas e exigem retirada antecipada de ingressos, conforme a capacidade de cada espaço.

O tema desta edição, PASSADOPRESENTE, parte da ideia de que a memória não funciona como um arquivo neutro. A seleção do que uma sociedade preserva, ensina ou apaga interfere na compreensão do país e nas possibilidades que reconhece para o futuro. “PASSADOPRESENTE é uma palavra que não separa os tempos”, afirma a curadoria do festival.

Criada em 2018, a Festa Literária Internacional da Mantiqueira reúne escritores, quadrinistas, pesquisadores, editores, educadores e artistas. A curadoria geral de 2026 é assinada por Cristiane Tavares, Maria Carolina Casati e Roberto Guimarães. A grade combina mesas de debate, oficinas, lançamentos e a Fliminha, programação voltada a crianças e adolescentes.

Ana Maria Gonçalves e a disputa pelo cânone

A programação principal homenageia Ana Maria Gonçalves nos 20 anos de Um defeito de cor. Publicado em 2006, o romance acompanha Kehinde, mulher africana escravizada que narra sua trajetória entre o Brasil e o continente africano. Ao deslocar o ponto de vista para uma mulher negra, a obra confronta versões da formação brasileira que reduziram pessoas escravizadas à condição de objeto da história.

A homenagem ocorre um ano após Ana Maria se tornar a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Ela tomou posse em novembro de 2025, 128 anos depois da fundação da instituição. O intervalo expõe a distância entre a produção intelectual de mulheres negras e o reconhecimento concedido por instituições que definem prestígio e legitimidade no campo literário.

Um defeito de cor atravessa a mesa de sexta-feira (4), às 19h, sobre maternidade e maternagem, com Fabiana Carneiro e Ronaldo Vitor da Silva.

A Fliminha homenageia Marcelo D’Salete, autor de quadrinhos que pesquisa a escravidão e as formas de resistência negra no Brasil. Cumbe venceu o Eisner em 2018, enquanto Mukanda Tiodora recebeu o Jabuti de Histórias em Quadrinhos em 2023 e concorre ao Harvey Awards de 2026 na categoria de melhor livro internacional.

D’Salete participa no sábado (5), às 10h, da conversa “Quadros da nossa história”, mediada por Cristiane Tavares. Sua obra ajuda a entender o eixo político do festival: documentos oficiais registram, em geral, a perspectiva de instituições e grupos que controlavam a escrita, a propriedade e o Estado. A ficção e os quadrinhos podem trabalhar as lacunas desses arquivos sem se apresentar como substitutos da pesquisa histórica.

FLIMA 2026 trata a leitura como um direito

O debate sobre memória depende de uma questão anterior: quem consegue acessar livros e formar repertório para disputar interpretações sobre o país. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, do Instituto Pró-Livro, mostrou que 53% da população não havia lido nem sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. O país perdeu 6,7 milhões de leitores em comparação com 2019.

Os números ajudam a dimensionar o papel e também o limite de um festival gratuito. Eventos literários aproximam autores, editoras e público, mas não substituem bibliotecas, escolas, renda disponível, tempo de leitura e políticas permanentes de formação de leitores. A legislação brasileira reconhece esse acesso como um direito desde a Política Nacional de Leitura e Escrita, de 2018, regulamentada em 2024.

Essa contradição será discutida no domingo (6), às 10h, por Bel Santos Mayer e José Castilho, com mediação de Fabíola Farias. A mesa “Literatura e democracia: leitura para todos?” examina como renda, educação, bibliotecas e políticas públicas condicionam o acesso ao livro.

A gratuidade também envolve financiamento público e privado. Segundo a organização, a Fliminha é realizada pelo Ministério da Cultura, pela Bizu Estúdio e Editora e pela Associação Literatura Viva, com patrocínio da Neoenergia por meio da Lei Rouanet e apoio da Prefeitura de Santo Antônio do Pinhal. FLIMA e Fliminha ainda recebem apoio do Sesc São Paulo e de editoras.

Palco da FLIMA 2025
FLIMA 2025. Foto: Ana Melo

Censura e disputa sobre o que crianças podem ler

A programação dedicada às infâncias evita tratar crianças e adolescentes como leitores incapazes de lidar com conflitos sociais. Na segunda-feira (7), às 10h, Fabíola Farias e nina rizzi discutem censura, conservadorismo e os critérios usados para classificar determinados temas como inadequados para o público infantil.

O debate ocorre após uma sequência de tentativas de retirada de livros de escolas brasileiras. Em 2024, O avesso da pele, de Jeferson Tenório, foi alvo de ordens de recolhimento e pressões em redes de ensino por abordar racismo, violência policial e sexualidade. O episódio mostrou como a alegação de proteção de crianças e adolescentes pode ser usada para impedir o contato com obras que expõem conflitos raciais e sociais.

Tenório participa da FLIMA no sábado, às 16h, ao lado de Natália Zuccala. A conversa parte dos romances De onde eles vêm e Ainda não para discutir políticas de cotas, permanência estudantil, elitismo acadêmico e as marcas de raça e classe na formação de jovens.

Biografias, afetos e saberes indígenas

Outro eixo da programação discute quem entra para a história e por quais meios. No domingo, às 16h, Bruno Rodrigues de Lima e Cibele Tenório abordam as trajetórias de Luiz Gama e Almerinda Gama. A mesa trata a biografia como recurso para reconstruir vidas negras que foram reduzidas ou excluídas dos registros dominantes.

No mesmo dia, Cidinha da Silva e Rosane Borges discutem a escrita de mulheres negras, enquanto Lígia Moreli e Rômulo Fróes analisam a dimensão política da obra de Elza Soares. Também estão previstas conversas sobre a implementação das cotas no ensino superior, maternidade negra, poesia, relações afetivas e os efeitos do extremismo político.

Na segunda-feira, às 11h30, Geni Núñez conversa com a jornalista e curadora Jéssica Balbino. A mesa relaciona saberes ancestrais indígenas, descolonização dos afetos e formas de vida comunitária a um cotidiano mediado por plataformas digitais e pela lógica da propriedade.

A abertura ocorre na quinta-feira, às 19h30, com o Sarau das Pretas e o espetáculo “Encontros de Realezas: Yabás”. O encerramento será na segunda, às 15h, com o Coletivo Clã do Jabuti. A programação completa e a retirada de ingressos estão disponíveis no site oficial da FLIMA.

Serviço

FLIMA 2026
Quando: de 3 a 7 de setembro de 2026
Onde: Santo Antônio do Pinhal (SP)
Ingressos: gratuitos, com retirada antecipada de acordo com a capacidade dos espaços
Programação: site oficial da FLIMA

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