Forças Armadas e Polícias diante do ataque à Venezuela: desafios para a soberania brasileira

Este texto mira um temor que carrego há anos: que ações de agentes aloprados dentro das polícias e das Forças Armadas conduzam à ruptura da soberania nacional
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*Por Pedro Chê

A situação venezuelana continua profundamente incerta, e ainda é cedo para medir o alcance das consequências do ato de pirataria conduzido pelo ‘King’ Donald Trump ‘Primeiro’. Inclusive, para compreender melhor o que está em curso — e o que pode estar por vir —, vale a leitura atenta dos textos de Jamil Chade no ICL Notícias.

Este texto mira um temor que carrego há anos: que ações de agentes aloprados dentro das polícias e das Forças Armadas conduzam à ruptura da normalidade institucional e da soberania nacional — um risco que se confirmou de forma concreta nos eventos de 8 de janeiro.

Há, aliás, um relaxamento pouco palpável sobre o tema – lastreado previsivelmente pelas prisões de altas patentes do Exército brasileiro e do ex-presidente, mas com a ataque e sequestro de Maduro, esse conforto ilusório tende a ruir. É, portanto, um bom momento para a discussão sobre o que fazer.

A chamada “FRENTE ÚNICA”, que se articulou nas eleições de 2022 para derrotar o extremismo bolsonarista, mantém uma relação, no mínimo, complexa — para ser econômico — com as forças que dispõe de armas no país, isto é, as Forças Armadas e as polícias. Trata-se de uma relação que precisa ser transformada o quanto antes.

E infelizmente, não há condições políticas para que tal se resolva até as eleições de 2026, mas – pelo menos – podemos acelerar esse processo.

Começarei pelas Forças Armadas, por se tratar do caso menos complexo. É notório que a frieza e distância marcam sua relação com a esquerda, a ponto de até mesmo atos institucionais — como a nomeação de seus comandantes — são carregados de constrangimento. Temos ainda poucas informações concretas se a autopercepção das FA’s foi alterada em virtude do envolvimento de diversos quadros na trama golpistas.

Para alterar essa realidade, ou ao menos mitigá-la, há três exercícios a serem realizados:

[1] O primeiro exercício consiste em pactuar, junto à direita democrática, a construção de canais próprios de comunicação, assumindo — de forma gradual — que quadros e setores da esquerda estabeleçam um diálogo direto com as instâncias de gestão das FA’s.

[2] O segundo diz respeito a uma ampliação estratégica e assertiva da interação, de ações conjuntas e de intercâmbios com potências globais, especialmente Rússia e China, reforçando assim uma perspectiva multilateral, o que está mais alinhado aos interesses nacionais nesta quadra histórica — em contraposição a uma postura meramente servil ao imperialismo norte-americano. Tal movimento, inclusive, tende a impactar a formação das nossas Forças Armadas, ampliando a presença de outros espectros políticos nos espaços de disputa interna e rompendo o atual monopólio ideológico, algo intrinsecamente perigoso para a correta execução de suas atribuições.

[3] O terceiro — e mais complexo — exercício diz respeito a um reaparelhamento robusto da indústria de defesa, abrangendo sua infraestrutura, equipamentos e softwares. Sua implementação enfrenta ao menos três grandes desafios: (i) a restrição orçamentária – somos um país com muitas demandas reprimidas, então cada R$ é importante; (ii) o enfrentamento do corporativismo militar, o que implica promover reformas nas carreiras, eliminando penduricalhos e mordomias injustificáveis — condição necessária para financiar a expansão da infraestrutura e recursos humanos, sem que isso estrangule em demasia o orçamento e a previdência; e (iii) e , por fim – lidar com as retaliações e sabotagens advindas de outras forças, especialmente dos EUA.

Por fim, as polícias. Elas representam um risco menos direto à soberania, mas funcionam como ferramentas centrais de desestabilização em uma lógica de guerra híbrida. As pontes que a Direita Democrática mantém com as Forças Armadas, simplesmente não existem mais no campo policial. Aqui, pensando nas forças estaduais, a ligação sempre foi com oligarquias locais — hoje em grande medida fragilizadas ou fagocitadas pelo bolsonarismo.

Desde a década de 2010, a relação entre as esquerdas e as polícias tornou-se abertamente antagonista. O caminho de volta não é simples, mas tampouco é impossível. Nos governos Lula I e Lula II houve interlocução real — a ponto de policiais se elegerem por partidos de esquerda e centro-esquerda, mesmo sem alinhamento ideológico real.

A reconstrução dessa ponte não virá de medalhas ou afagos, mas de mudanças estruturais.

[1] O primeiro passo é a elaboração, por parte da esquerda, de um projeto nacional específico para a área de segurança pública — um projeto capaz de alterar o status quo, e não diluído em palavras ocas como “integração”, “modernização” ou “sistematização”, desprovidas de qualquer valor político. Trata-se de um projeto que estabeleça contraste — ainda que não de oposição total — com aquele propagado pela extrema direita. Para isso, será necessário assumir riscos políticos, inclusive por meio da criação de um Ministério da Segurança Pública.

[2] Outro passo necessário é a restrição do uso do cargo e da estrutura policial como instrumentos de proselitismo político. Isso implica vedar o uso de designações funcionais — como “coronel” ou “delegado” — em campanhas e mandatos, bem como a exposição em redes sociais utilizando fardas ou a própria estrutura das polícias.

Para essa tarefa, há aliados potenciais no interior das próprias instituições, ainda que não de forma homogênea. Existem castas de poder nas corporações policiais que não veem com bons olhos a projeção política dessas figuras, uma vez que tal fenômeno redistribuiu o poder político interno: aquilo que antes se concentrava quase exclusivamente no grupo dominante passou, em alguns casos, a ser compartilhado com agentes eleitos e, em menor medida, com associações representativas da base. O caminho, portanto, está dado; a viabilidade política e os custos dessa escolha caberão aos atores políticos envolvidos.

[3] Encerrando pelo arranjo mais áspero, a criação e o fomento de quadros de esquerda no interior dessas instituições. O objetivo não é a busca por dominância, mas a abertura de um campo real de disputa interna, capaz de constranger adesões extremistas e obrigar aqueles que ocupam posições de comando a operar sob composições plurais, sob pena de perda de legitimidade e controle.

Trata-se de um movimento especialmente complexo não tanto pela oposição do bolsonarismo, mas porque contraria diretamente os interesses das elites institucionais, ao implicar fracionamento de poder.

Ainda assim, sua importância é proporcional à dificuldade que apresenta. Sem essa disputa interna, a esquerda jamais exercerá influência efetiva nessas instituições — inclusive para frear movimentações extremistas —, permanecendo dependente da mediação de setores das elites institucionais, na esperança de que contenham os “aloprados”, em geral oriundos de espectros ideológicos muito próximos aos seus.

 

*Pedro Chê é policial civil e historiador

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