Após fracasso em delação, PF suspeita que Vorcaro aposta em vitória de Flávio Bolsonaro

Mudanças no ambiente político  poderiam alterar as condições de negociação ou até mesmo o contexto do julgamento
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Por Cleber Lourenço

As sucessivas idas e vindas do empresário Daniel Vorcaro nas negociações para um acordo de colaboração premiada passaram a despertar desconfiança entre membros da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal. Segundo relatos obtidos pelo ICL Notícias, cresce a avaliação de que as tentativas de delação podem estar sendo utilizadas como estratégia para prolongar as negociações enquanto o empresário observa a evolução do cenário eleitoral do país. A avaliação do banqueiro seria de que uma vitória de Flávio Bolsonaro o livraria da cadeia.

A leitura ganhou força após a avaliação de integrantes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República de que as informações apresentadas por Vorcaro em suas mais recentes investidas não trouxeram fatos inéditos capazes de justificar o avanço de um acordo de colaboração.

Segundo fontes com conhecimento das discussões em torno do caso, a percepção é que Vorcaro pode estar apostando no fator tempo. Mudanças futuras no ambiente político  poderiam alterar as condições de negociação ou até mesmo o contexto em que os processos serão julgados.

O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) afirma compartilhar essa interpretação.

“Ele tem dois caminhos: fazer agora uma delação e denunciar aqueles que o enriqueceram ou esconder isso agora e esperar que essas pessoas tenham poder no futuro para não condená-lo. Eu acho que ele, por ora, faz essa segunda opção e espera o processo eleitoral”, disse o parlamentar ao ICL Notícias.

Na mesma linha, o deputado federal Rogério Correia afirma que a trajetória do Banco Master e as relações construídas por Vorcaro ao longo dos últimos anos ajudam a explicar essa expectativa.

“O Banco Master é, de fato, um BolsoMaster. Isso não é só um nome, mas um conceito. Foi um banco feito para que você pudesse ter acesso a muitos recursos e, a partir dele, compromisso com o bolsonarismo”, afirmou.

Para o parlamentar, Vorcaro teria razões para acreditar que uma eventual mudança de cenário político poderia beneficiá-lo no futuro.

“Ele tem dois caminhos: fazer agora uma delação e denunciar aqueles que o enriqueceram ou esconder agora e esperar que estes tenham poder no futuro para não condená-lo”, acrescentou.

O deputado federal Tarcísio Motta (PSOL-RJ) também considera plausível que fatores políticos e eleitorais estejam influenciando a estratégia adotada pelo empresário.

“Eu acho que essa interpretação faz todo sentido. Não imagino que uma delação de um cara com tantas vinculações com o andar de cima do poder não tenha alguma interferência do cenário político eleitoral”, afirmou ao ICL Notícias.

Segundo o parlamentar, as movimentações de Vorcaro podem estar relacionadas à expectativa de mudanças futuras no ambiente político e institucional.

“Eu acho super possível que haja uma interferência política eleitoral e que o mercado esteja tentando fazer cálculos com as movimentações eleitorais no Brasil”, disse.

Relações políticas

A avaliação dos parlamentares ocorre em meio a uma série de elementos que reforçam a proximidade histórica entre Vorcaro e setores do bolsonarismo.

O empresário Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, foi o maior doador individual da campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2022. Sozinho, Zettel destinou R$ 3 milhões à tentativa de reeleição do então presidente. No mesmo pleito, também repassou R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo, totalizando R$ 5 milhões em doações eleitorais.

Vorcaro também aparece no centro das discussões envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, produção ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O projeto passou a ser alvo de questionamentos após a revelação de aportes associados ao empresário e a estruturas financeiras que vêm sendo analisadas por autoridades brasileiras e estrangeiras.

Também foi durante o governo Bolsonaro que Vorcaro obteve autorização para assumir o controle do então Banco Máxima, posteriormente rebatizado como Banco Master.

O negócio havia encontrado resistência inicial no Banco Central. Em fevereiro de 2019, ainda sob a gestão de Ilan Goldfajn, a operação foi barrada em razão de pendências envolvendo o empresário. O cenário mudou meses depois. Em outubro daquele mesmo ano, já durante o governo Jair Bolsonaro e sob uma nova composição da diretoria da autoridade monetária, a aquisição foi aprovada, permitindo que Vorcaro assumisse o controle da instituição que mais tarde se tornaria o Banco Master.

Para fontes que acompanham o caso, esse histórico de relações políticas ajuda a explicar por que parte dos envolvidos passou a enxergar as movimentações recentes de Vorcaro com maior cautela.

Essa percepção ganhou ainda mais força após o esfriamento das negociações de colaboração. Fontes ligadas ao caso afirmam que nem mesmo a perspectiva de recuperação financeira por meio do acordo desperta hoje o mesmo interesse que existia anteriormente na Procuradoria-Geral da República.

Nesse contexto, fontes que acompanham o caso passaram a considerar que as vantagens de uma eventual delação diminuíram significativamente, ao mesmo tempo em que aumentou a percepção de que as sucessivas negociações podem estar servindo mais para ganhar tempo do que para efetivamente colaborar com as autoridades.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail