Por Cleber Lourenço
O gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), ouviu Daniel Vorcaro na Papudinha, em Brasília, na manhã de 27 de agosto, no mesmo período em que o ex-banqueiro deveria prestar depoimento à Polícia Federal. A oitiva da PF estava marcada para as 10h, por videoconferência, mas acabou não ocorrendo naquele dia sob a justificativa de problemas técnicos.
Auxiliares de Mendonça confirmaram ao ICL Notícias que o depoimento conduzido pelo gabinete do ministro ocorreu durante a manhã. Vorcaro foi ouvido presencialmente por João Azambuja, juiz auxiliar de Mendonça, dentro da unidade onde está preso. Ainda segundo essas mesmas fontes, Azambuja era um magistrado que não acompanhava o caso master e por esse motivo teria sido escolhido por Mendonça.
A coincidência de horários acrescenta um elemento novo à sequência de acontecimentos daquele dia. Enquanto a PF tentava realizar uma oitiva previamente agendada, o gabinete do próprio relator das investigações envolvendo o Banco Master colhia, presencialmente, outro depoimento de Vorcaro.
O depoimento à PF acabou transferido para o dia seguinte, 28 de agosto.
A oitiva policial do dia 27 já era uma remarcação. Inicialmente, Vorcaro deveria ter sido ouvido em 20 de agosto, mas a defesa pediu o adiamento sob o argumento de que precisava de mais tempo para analisar o material relacionado à investigação.
No dia 27, portanto, a PF fez uma segunda tentativa. O depoimento estava previsto para ocorrer por videoconferência, com Vorcaro dentro da Papudinha. Foi justamente naquela manhã que o juiz auxiliar de Mendonça foi até a unidade para ouvi-lo pessoalmente.
Até agora, não há informação de que a sobreposição entre as duas oitivas tenha sido a causa do adiamento do depoimento policial. A versão apresentada para a frustração da videoconferência foi de problemas técnicos.
A coincidência, porém, coloca uma questão sobre a logística daquele dia: em que momento a PF tentou estabelecer a conexão com Vorcaro e como essa tentativa se encaixou na oitiva presencial que ocorria na unidade prisional.
Vorcaro fez acusações contra diretor da PF
A relevância da sobreposição aumenta por causa do conteúdo do depoimento colhido pelo gabinete de Mendonça.
Na oitiva, Vorcaro fez acusações contra o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, além de citar personagens ligados ao governo federal. As declarações passaram a integrar uma investigação conduzida sob a relatoria de Mendonça no Supremo.
Ou seja: enquanto a PF aguardava para interrogar Vorcaro, o ex-banqueiro prestava outro depoimento no qual fazia acusações contra o próprio chefe da corporação.
A sequência ocorreu ainda em meio a um ambiente de tensão entre Mendonça e a Polícia Federal por causa das investigações relacionadas ao Banco Master.
Regalias na Papudinha
A logística da custódia de Vorcaro também ganhou atenção na véspera da oitiva. Em 26 de agosto, o site Poder Paraná revelou que o ex-banqueiro teria recebido tratamento diferenciado dentro da Papudinha.
Segundo a reportagem, uma sacola de supermercado com cerca de 25 produtos foi entregue a Vorcaro em julho. Entre os itens estavam picanha, queijos, presunto, doces, bebidas vegetais e suplementos.
O ICL Notícias confirmou com fontes o episódio relatado pelo Poder Paraná. A reportagem também apurou que, após a publicação do caso, servidores da unidade passaram a comentar que a entrada de alimentos e outros itens na prisão havia ficado mais restrita.
O Poder Paraná revelou ainda que o tenente-coronel Allenson Nascimento Lopes teria autorizado Vorcaro a utilizar a academia reservada aos policiais da unidade. De acordo com fontes ouvidas pelo site, o ex-banqueiro frequentaria o local três vezes por semana.
A Polícia Militar do Distrito Federal afirmou ao Poder Paraná que cumpre as determinações judiciais relacionadas à custódia, mas não respondeu especificamente sobre o acesso à academia e a entrada dos alimentos. A defesa de Vorcaro disse desconhecer a existência de regalias.
Um dia depois da publicação da reportagem, a Papudinha seria palco de duas diligências relacionadas ao ex-banqueiro: uma prevista pela PF, às 10h, e outra realizada presencialmente pelo gabinete do ministro responsável pelas investigações no Supremo.