Por Cleber Lourenço
Autoridades envolvidas no caso Banco Master e integrantes do governo avaliam que Daniel Vorcaro pode ter usado o depoimento prestado ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), para alimentar a tensão entre o magistrado e a Polícia Federal e produzir desgaste político contra o governo Lula em plena campanha eleitoral.
A avaliação considera tanto o conteúdo quanto o momento em que a oitiva ocorreu. Vorcaro concentrou suas acusações em personagens ligados ao governo federal e no diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. O depoimento foi prestado em 27 de agosto, na mesma semana em que Mendonça cobrava da corporação informações sobre conversas encontradas no celular do banqueiro envolvendo Rodrigues, o ministro Alexandre de Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Naquele mesmo dia 27, Mendonça recebeu da PF o relatório que detalhava as conversas extraídas do aparelho de Vorcaro. O banqueiro apresentou, portanto, novas acusações contra a corporação e integrantes do governo justamente quando a relação entre o gabinete do ministro e a cúpula da PF atravessava uma escalada de tensão.
Uma das hipóteses consideradas é que Vorcaro tenha percebido o conflito institucional como uma oportunidade para fortalecer sua própria narrativa e aumentar o desgaste sobre personagens que passaram a ser tratados por ele como adversários.
Sentimento de abandono
A ofensiva também é vista como uma possível reação de Vorcaro ao sentimento de ter sido abandonado por autoridades das quais esperava ajuda antes de sua prisão.
Mensagens apreendidas pela PF mostram que o banqueiro buscou interlocução no alto escalão do poder enquanto tentava entender e conter o avanço das investigações. Em 30 de outubro do ano passado, chegou a pedir ajuda a Alexandre de Moraes para interceder junto a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet. Pouco depois, em novembro, acabou preso.
No entorno de Mendonça, a impressão é de que Vorcaro passou a se sentir abandonado depois de não obter o resultado esperado dessas interlocuções. A hipótese de vingança nasce dessa sequência: o banqueiro procurou ajuda antes da prisão e, meses depois, passou a apresentar acusações contra integrantes do mesmo aparato estatal com o qual havia tentado estabelecer pontes.
A motivação, porém, não foi admitida por Vorcaro e é tratada como uma interpretação sobre seu comportamento. Uma fonte do entorno de Mendonça, ao falar sobre o sentimento de abandono, ressalvou não ter informações sobre o que efetivamente passa pela cabeça do banqueiro.
A própria oitiva teve uma organização particular. Mendonça escalou um juiz auxiliar de seu gabinete que não atuava diretamente no caso Master para participar especificamente do depoimento e depois deixar o caso. Um representante da Procuradoria-Geral da República também acompanhou o ato.
Eleição entra no cálculo
O ICL Notícias revelou em junho deste ano que integrantes da PF e do STF desconfiavam que o banqueiro pudesse estar prolongando as negociações em torno de uma possível delação enquanto acompanhava o desenrolar da eleição presidencial.
Naquele momento, a avaliação era de que Vorcaro apostava em uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como forma de melhorar sua própria situação. A expectativa atribuída ao banqueiro era de que uma mudança de governo pudesse alterar o ambiente institucional enfrentado por ele e até ajudá-lo a deixar a prisão.
O depoimento de 27 de agosto passou a ser observado também sob essa perspectiva. Em vez de distribuir suas acusações entre diferentes personagens com quem manteve interlocução, Vorcaro concentrou sua narrativa em figuras ligadas ao atual governo e na direção da Polícia Federal.
O movimento ocorreu em plena campanha presidencial, na qual Lula e Flávio estão em campos adversários. As declarações de Vorcaro, portanto, têm potencial para produzir desgaste justamente sobre o governo cuja derrota já havia sido apontada como um cenário favorável aos interesses do banqueiro.
Há ainda outro elo com a disputa eleitoral. Vorcaro está no centro da investigação sobre o financiamento do Dark Horse, projeto cinematográfico sobre Jair Bolsonaro que envolve personagens próximos à família do ex-presidente e passou a integrar o debate político da campanha.
A combinação desses elementos — a expectativa anteriormente atribuída a Vorcaro sobre uma vitória de Flávio, sua participação no caso Dark Horse e o direcionamento das novas acusações contra o governo Lula — fez crescer a avaliação de que o depoimento não pode ser analisado apenas por seus possíveis efeitos jurídicos.
Isso não retira a necessidade de investigar as acusações feitas pelo banqueiro. Elas precisam ser confrontadas com documentos, depoimentos e demais elementos de prova. O que despertou atenção foi o momento escolhido e a direção da ofensiva.
Quando Vorcaro prestou o depoimento, Mendonça já pressionava a PF por informações sobre as conversas envolvendo Moraes, Gonet e Andrei. No mesmo dia, o ministro recebeu o relatório da corporação. Em meio a essa disputa, o banqueiro colocou sobre a mesa novas acusações contra a direção da Polícia Federal e personagens vinculados ao governo Lula.
É essa sequência, somada ao sentimento de abandono e ao interesse atribuído anteriormente a Vorcaro no resultado da eleição, que alimenta agora a leitura de que sua ofensiva pode ter objetivos que ultrapassam o processo criminal.