Indígenas deixam sede da Cargill em Santarém após revogação de decreto de hidrovias

Manifestantes acampavam, em protesto, no porto da empresa desde o dia 22 de janeiro
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(Folhapress) — Indígenas desarmaram suas barracas, fizeram as malas e deixaram a sede da Cargill, em Santarém (PA), nesta quarta-feira (25). Eles protestaram bloqueando a entrada da empresa do agronegócio por mais de um mês contra o plano de hidrovias, do governo Lula (PT), em rios da Amazônia. No último sábado (21), invadiram a área interna da companhia e colocaram cartazes.

Na segunda (23), o governo cedeu à pressão dos atos, que cresceram desde janeiro, e anunciou a revogação do decreto 12.600/2025, alvo das críticas dos manifestantes. A medida foi publicada na terça (24) no Diário Oficial da União, o que levou à desmontagem do acampamento, realizado na área externa da empresa.

Indígenas Munduruku do Baixo Tapajós
Indígenas Munduruku do Baixo Tapajós se reúnem com autoridades. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Povos indígenas da região do Tapajós, oeste do Pará, iniciaram a ocupação do terminal portuário da empresa em 22 de janeiro. O grupo exigia o fim do projeto, assinado pelo presidente, que incluía hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND). Ao longo deste período, o número de pessoas no ato chegou a 1.200, segundo a organização.

O governo, antes da revogação, defendeu que o decreto tratava apenas da realização de estudos e que o transporte hidroviário é o tipo mais sustentável, com menores emissões de carbono. A gestão Lula também afirmou que o impacto ambiental seria considerado nas obras de dragagem. Os indígenas, por sua vez, criticaram que não houve consulta prévia, como determina a lei.

A Cargill, em nota, classificou o ato ocorrido em frente ao escritório da empresa em São Paulo, na última sexta (20), e a entrada na sede em Santarém como “duas ações violentas”. Os protestos, segundo o comunicado, resultaram em vandalismo em ambos ativos da empresa e no interrompimento total das operações no terminal portuário.

A companhia afirma que houve danos à fachada do escritório na capital paulista. Manifestantes usaram tinta em portas e vidraças do prédio. A Cargill, no comunicado, não detalhou que estragos identificou em Santarém.

Indígenas deixam sede da Cargill em Santarém (PA) após revogação de decreto de hidrovias
Indígenas deixam sede da Cargill em Santarém (PA) após revogação de decreto de hidrovias. (Foto: Coletivo Apoena Audiovisual)

Alessandra Korap Munduruku, líder indígena, destaca que as manifestações contra o decreto se iniciaram logo após sua publicação, em agosto de 2025. O plano de hidrovias se somou à reivindicação dos povos contra o projeto da ferrovia Ferrogrão — ambos encampados pelo governo Lula –, que também busca dar vazão ao escoamento de produtos do agronegócio.

“Quando saiu o decreto 12.600, a gente sabia que tinha que fazer algo antes que saísse o leilão das hidrovias”, disse à reportagem. “Depois disso, ocorreram os leilões das ferrovias, inclusive uma delas era a Ferrogrão. Aí vieram os editais das dragagens, e entendemos, naquele momento, que eles queriam perfurar os rios.”

Esse conjunto de medidas do governo, sem consulta aos indígenas afetados, levou a protesto na COP30, a conferência do clima das Nações Unidas que ocorreu em novembro em Belém, lembra Alessandra. Na ocasião, mundurukus bloquearam o acesso à zona azul, o espaço diplomático do evento, ainda no quarto dia de programação.

“Mesmo com a demarcação do nosso território, ainda corremos riscos”, avalia.

Na visão de Alessandra, o governo demorou a dar uma resposta. Para serem ouvidos, diz, os atos tiveram que elevar a tensão, como na interceptação de balsas no rio Tapajós e no protesto no interior da Cargill no último final de semana, em resposta a uma ordem judicial de desocupação do terminal portuário, concedida a pedido da empresa.

“A gente não veio para cá para ficar com medo de governo, de juiz e de empresas”, afirma.

“A gente teve que fazer esse enfrentamento em lugar que antigamente era nosso. Eu me arrepiava todos os dias e pensava: ‘tem alguma coisa muito séria aqui’. Quando meus parentes chegaram, também sentiram. Por mais que tenha concreto no chão, os espíritos ainda estão vivos, eles resistem e pedem socorro. As empresas chegam aqui, não consultam e derrubam locais sagrados.”

No dia 6 de fevereiro, o governo federal já havia suspendido a licitação que habilitou uma empresa para a dragagem do rio Tapajós, após as manifestações.

Como mostrou a Folha de S. Paulo, o governo Lula selecionou uma firma para dragagem a um custo de R$ 61,8 milhões sem obter a licença ambiental — e sem protocolar um pedido com esse propósito — para a retirada de material em sete pontos do rio, entre Itaituba e Santarém.

Documentos da Semas (Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade) do Governo do Pará, do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) apontam impactos considerados “significativos” a partir de dragagem no Tapajós.

Entre esses impactos estão a alteração da qualidade da água, o assoreamento do leito do rio, o prejuízo à pesca, a alteração de rotas de transporte usadas por comunidades ribeirinhas e indígenas, o risco de insegurança alimentar nessas comunidades e a alteração em ciclos de reprodução da tartaruga-da-amazônia, numa área que é a segunda maior em reprodução da espécie.

Agora a avaliação do Palácio do Planalto é que o presidente Lula não vai voltar a discutir o programa de concessões de hidrovias nos rios da Amazônia, segundo apuração da coluna Painel. A tensão estava crescendo e poderia haver uma ruptura do governo com uma base social importante em ano eleitoral.

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