Guerra desloca milhares de pessoas e ONU alerta para crise humanitária

787 pessoas morreram no Irã em quatro dias de ataques; Israel diz que atacou palácio presidencial
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A ONU soa um alerta sobre o risco de uma crise humanitária de enormes proporções diante da guerra no Oriente Médio. Nesta terça-feira, a entidade alertou que pelo menos 30 mil pessoas no Líbano abandonaram suas casas nos últimos dias em meio ao agravamento dos confrontos entre Israel e o grupo Hezbollah.

A entidade destaca ainda que pelo menos 11 mil sírios que viviam como refugiados no Líbano voltaram a ser obrigados a deixar suas casas, por conta das ordens de evacuação por parte de Israel, e cruzaram mais uma vez as fronteiras. Desta vez, em direção ao território sírio. A expectativa é de que o número de deslocados continue crescendo diante da escalada da violência. Com 1,5 milhão de refugiados sírios vivendo no Líbano, o fluxo pela fronteira também deve aumentar nas próximas horas.

Os bombardeios israelenses se intensificaram em diferentes regiões libanesas desde segunda-feira, após o Hezbollah lançar foguetes contra território israelense no domingo à noite. Segundo relatos, a ofensiva do grupo teria sido uma resposta a ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã.

De acordo com o porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, Babar Baloch, estimativas iniciais indicam que quase 30 mil pessoas já foram registradas e encaminhadas para abrigos coletivos. Ainda assim, há muitos deslocados que passam as noites dentro de veículos ou enfrentam congestionamentos ao tentar deixar áreas afetadas pelos confrontos.

O governo libanês abriu 21 centros de acolhimento em diversas regiões do país, mas autoridades locais e representantes da ONU alertam que a demanda pode aumentar consideravelmente caso os combates persistam.

A crise também tem impactado refugiados sírios que viviam no Líbano, alguns dos quais estão retornando à Síria diante do agravamento das condições humanitárias. O Acnur informou que prepara um plano de contingência para lidar com um eventual novo fluxo de deslocamentos na região.

Em Gaza, a preocupação se refere ao fato de que os ataques levaram o governo de Israel a fechar os pontos de fronteira, ameaçando uma vez mais deixar milhares de palestinos sem abastecimento. Num apelo nesta terça-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, insistiu que Israel não tem o direito de desfazer os acordos que tinham sido estabelecidos no cessar-fogo com os palestinos.

No Irã, a ONU alerta que 1,6 milhão de refugiados de diversos países poderiam ser profundamente afetados, caso a guerra se prolongue. Muitos deixaram o Afeganistão e a Síria, em busca de proteção, e nem sempre tem a opção de voltar a seus países de origem.

Enquanto isso, o Golfo vive outra realidade, com turistas e estrangeiros ricos incapacitados de deixar locais como Dubai ou Doha. Cerca de 30 mil turistas alemães estão em navios e hotéis pela região.  Mais de 200 mil franceses também vivem no Golfo, assim 130 mil britânicos.

Avanço de Israel sobre o Líbano

O governo de Israel intensifica os bombardeios, com ataques simultâneos contra o Líbano e Irã, enquanto as autoridades de Teerã ampliam ataques contra bases e instalações dos EUA em toda a região. De acordo com as autoridades israelenses, o palácio presidencial na capital iraniana foi atingido, assim como o local onde se reúne o Conselho de Segurança do país.

O quarto dia do conflito no Oriente Médio aprofunda ainda mais o impacto global, com a interrupção do fluxo de comércio pelo estreito de Ormuz, abalo no mercado financeiro e possível desabastecimento em setores estratégicos.

De acordo com o Crescente Vermelho, 787 pessoas já morreram no Irã como resultado dos bombardeios. A Unicef ainda indicou que crianças morreram no Irã, Israel e 7 no Líbano.

Os dados das entidades internacionais ainda apontam que:

  • Pelo menos 153 cidades em todo o Irã foram afetadas pelos ataques.
  • 504 locais foram atingidos até agora por ataques EUA-Israel.
  • 1039 ataques foram registrados.

A guerra ainda começa a dar sinais de tragar para o palco de conflito os governos europeus. A França anunciou que irá mandar sistemas de defesa aérea para o Chipre, depois de a base britânica na ilha ter sido atingida por drones iranianos. O governo iraniano alertou os europeus que qualquer envolvimento no conflito será respondido por Teerã.

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Agentes de segurança controlam um portão na base aérea britânica de Akrotiri após dois supostos ataques com drones perto de Limassol em 2 de março de 2026. A base soberana britânica no Chipre está sendo evacuada após o soar das sirenes, informou um correspondente da AFP. (Foto: AFP)

Nesta noite, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou em entrevista à emissora Fox News que a guerra levaria “algum tempo”.

Horas depois, seu governo anunciou que a Força Aérea “está agora atacando Teerã e Beirute simultaneamente”. “A Força Aérea iniciou uma onda de ataques extensivos contra o regime terrorista iraniano e a organização terrorista Hezbollah”, indicou nas redes sociais.

O objetivo seria realizar múltiplas operações visando o sistema de defesa aérea do Irã e eliminando várias de suas forças, de acordo com o porta-voz militar israelense Avichay Adraee.

Em uma publicação no X, Adraee disse ainda que aeronaves israelenses alvejaram vários funcionários que operavam os sistemas de defesa do Irã, incluindo seus sistemas de radar, bem como lançadores de mísseis. Ele também disse que a Força Aérea de Israel atacou locais ligados às plataformas de lançamento de mísseis balísticos do Irã.

Avanço sobre áreas estratégicas no Líbano: 80 cidades evacuadas

No Líbano, Israel também ampliou os ataques, principalmente contra bases do Hezbollah. A operação levou centenas de libaneses a dormir nas ruas das cidades, enquanto enormes filas se formaram com famílias tentando deixar as grandes cidades.

O governo israelense lançou um alerta para que 80 cidades libanesas sejam evacuadas.

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Fumaça sobe do bombardeio israelense na área de Kfar Tibnit, no sul do Líbano, em 3 de março de 2026. (Foto: Rabih Daher/ AFP)

Nesta terça-feira, Israel Katz, ministro da Defesa de Israel, anunciou ainda que autorizou suas tropas a controlar novas posições no Líbano, aumentando a suspeita entre diplomatas estrangeiros de que o governo de Netanyahu esteja usando a ocasião para ocupar partes do país vizinho.

Ele afirma que ele e Netanyahu “autorizaram as Forças de Defesa de Israel a avançar e tomar áreas estratégicas adicionais no Líbano, a fim de impedir ataques contra comunidades israelenses na fronteira”.

“As Forças de Defesa de Israel continuam a operar com força contra alvos do Hezbollah no Líbano. A organização terrorista está pagando — e continuará a pagar — um preço alto por seus ataques contra Israel”, disse.

Katz insistiu que Israel está determinado a “defender as comunidades fronteiriças”. “Prometemos segurança às comunidades da Galileia, e é isso que cumpriremos”, completou.

No Irã, os ataques foram registrados na capital, assim como nas cidades de Isfahan e Shiraz.

Irã implementa plano de Khamenei

Apesar de ter sido duramente afetado pela morte de mais de 40 de seus líderes, o Irã continua a oferecer uma ameaça importante aos interesses e bases dos EUA na região. A estratégia é a implementação do plano do líder supremo Ali Khamenei, morto no fim de semana. Ele defendia que, em caso de ataque, o Irã deveria alvejar não apenas Israel, mas principalmente os países da região com base dos EUA.

A Guarda Revolucionária do Irã, portanto, anunciou que atacou uma base aérea dos EUA no Bahrein. “A Guarda Revolucionária Islâmica anunciou que suas forças navais realizaram um ataque em grande escala com drones e mísseis ao amanhecer contra a base aérea dos EUA na área de Sheikh Isa, no Bahrein”, publicou a agência Irna. 20 drones e três mísseis foram lançados, “destruindo o principal quartel-general da base”.

EUA ordenam que norte-americanos deixem 15 países

O governo de Donald Trump anunciou que todos os cidadãos americanos deveriam sair imediatamente do Bahrein, Egito, Irã, Iraque, Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Catar, Arábia Saudita, Síria, Emirados Árabes Unidos e Iêmen.

A ampliação da guerra ainda levou o Departamento de Estado a retirar uma parte substancial de seus funcionários de embaixadas pela região.

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Embaixada dos EUA no Kuwait. (Foto: reprodução)

Na noite de segunda-feira, o governo saudita confirmou que a embaixada dos EUA em Riad foi atacada. Horas depois, a embaixada dos Estados Unidos no Kuwait suspendeu suas operações.

Em um comunicado, a embaixada afirmou: “Devido às tensões regionais em curso, a Embaixada dos EUA no Kuwait permanecerá fechada até novo aviso. Cancelamos todos os agendamentos consulares, tanto regulares quanto de emergência. Informaremos quando a embaixada retomar suas operações normais.”

Impacto global

Enquanto isso, nesta terça-feira, os preços do petróleo subiram pelo terceiro dia consecutivo, com o contrato futuro do Brent se aproximando de US$ 80. Um dos principais temores é de que esse valor chegue a US$ 100.

O impacto tem sido resultado do que parece ser um fechamento do Estreito de Ormuz, que fica entre o Irã e Omã, é uma das rotas de trânsito de petróleo mais importantes do mundo, com cerca de 20% do fornecimento global de petróleo passando por ele.

Atualmente, cerca de 160 navios estão parados na região, depois de o governo iraniano ter alertado que iria incendiar qualquer embarcação que tente cruzar o estreito.

Hoje, a maior parte do petróleo bruto transportado pelo Estreito de Ormuz vai para a Ásia, principal para China, Índia, Japão e Coreia do Sul. Cerca de 30% do suprimento europeu de combustível de aviação tem origem no estreito ou transita por ele, enquanto fertilizantes que chegam até a Índia ou o Brasil também passam pelo estreito.

China faz alerta

Num comunicado, Pequim soou o alerta diante do impacto do fechamento do estreito.

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Porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning. (Foto: WikiMedia Commons)

“A China insta todas as partes a cessarem imediatamente as operações militares, evitarem uma escalada das tensões, manterem a segurança das rotas marítimas no Estreito de Ormuz e impedirem um impacto ainda maior na economia global”, declarou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, em uma coletiva de imprensa regular na terça-feira.

“A segurança energética é de suma importância para a economia global. A China tomará as medidas necessárias para garantir sua segurança energética”, afirmou. A China é a principal compradora de petróleo iraniano, cuja maior parte passa pelo estreito.

Em Omã, o governo anunciou que drones iranianos afetaram uma refinaria de petróleo, em mais um sinal de que Teerã está focando parte de seus ataques contra instalações de energia na região.

Na Coreia do Sul, a bolsa caiu em mais de 5% e o temor é de que o impacto chegue rapidamente às economias da Europa. Philip Lane, economista-chefe do Banco Central Europeu, ao Financial Times, afirmou que o cenário pode causar inflação na região e um abalo no euro.

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