Por Cleber Lourenço
A Linha 8-Diamante, uma das principais linhas de trem da região metropolitana de São Paulo, operada pela ViaMobilidade, registrou nesta sexta-feira (14) o segundo descarrilamento de um trem em menos de 24 horas. A nova ocorrência aconteceu entre as estações Osasco e Comandante Sampaio e afetou a circulação no horário de pico, um dia depois de outra composição sair dos trilhos nas proximidades da Estação Júlio Prestes, na região central da capital paulista.
Os acidentes voltam a colocar sob pressão uma concessão marcada por problemas desde seus primeiros meses de operação. A ViaMobilidade assumiu as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda em janeiro de 2022, após a concessão realizada pelo governo João Doria. Desde então, a Linha 8 acumulou falhas, interrupções e uma sequência de descarrilamentos que chegou a levar o Ministério Público a discutir a possibilidade de rompimento do contrato.
O novo episódio ocorre em um momento sensível da política de privatização dos trens metropolitanos de São Paulo, que impacta diretamente milhões de passageiros que dependem diariamente do sistema — tanto na capital quanto em cidades da região metropolitana, como Osasco, Barueri, Itapevi e outras. Menos de um mês atrás, as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade começaram a ser operadas pela concessionária Trivia Trens, mas uma sucessão de problemas levou o Estado a determinar o retorno temporário da CPTM apenas três dias depois.
Dois descarrilamentos em menos de 24 horas
O segundo descarrilamento da Linha 8 ocorreu na tarde desta sexta, no trecho entre Osasco e Comandante Sampaio, na zona oeste da Grande São Paulo.
A própria ViaMobilidade confirmou o acidente em sua página de acompanhamento da operação. Às 17h46, porém, a concessionária informou inicialmente apenas que havia uma “intercorrência” entre as duas estações. A circulação passou a ocorrer com maiores intervalos e o sistema PAESE, que mobiliza ônibus para substituir temporariamente os trens em trechos afetados, foi acionado.
Às 17h53, uma nova atualização continuava tratando o problema como “intercorrência”.
Quatro minutos depois, às 17h57, a concessionária mudou a informação publicada aos passageiros e passou a registrar explicitamente a ocorrência: “Devido ao descarrilamento de um trem entre as estações Osasco e Comandante Sampaio, a circulação de trens ocorre com maiores intervalos na linha”.
Passageiros precisaram deixar composições e foram registrados usuários caminhando pelos trilhos no trecho afetado.
O acidente aconteceu poucas horas depois de a Linha 8 recuperar sua operação integral após outro descarrilamento.
Na quinta-feira (13), por volta das 17h30, um trem saiu dos trilhos nas proximidades de Júlio Prestes, no centro de São Paulo. A composição estava fora de operação, sem passageiros e em baixa velocidade quando descarrilou ao passar por um aparelho de mudança de via. Não houve feridos.
O problema obrigou a ViaMobilidade a fechar a estação Júlio Prestes e interromper a circulação entre o terminal e Palmeiras-Barra Funda, importante ponto de integração com outras linhas da CPTM e do metrô. Os trabalhos para retirar a composição atravessaram a madrugada. A operação integral foi retomada às 4h40 desta sexta.
Pouco mais de 13 horas depois da reabertura, portanto, a Linha 8 enfrentava outro descarrilamento, desta vez em Osasco — um dos principais municípios da região metropolitana e ponto de grande fluxo de passageiros que se deslocam diariamente para a capital.
Linha 8 acumula descarrilamentos e falhas
Os dois episódios não são os primeiros acidentes registrados na Linha 8 desde que a ViaMobilidade assumiu sua operação, em 27 de janeiro de 2022.
Os problemas apareceram ainda nas primeiras semanas da concessão.
Em 10 de março daquele ano, menos de dois meses depois da transferência da operação, um trem da Linha 8 bateu contra a barreira de contenção no final da plataforma da Estação Júlio Prestes. Um passageiro e um funcionário da concessionária ficaram feridos.
Naquele mesmo mês, a Secretaria dos Transportes Metropolitanos abriu processos administrativos contra a ViaMobilidade por descumprimento de procedimentos operacionais e interrupções do serviço. As sanções previstas naquele momento poderiam alcançar R$ 4,3 milhões. Os problemas continuaram ao longo do ano.
Dados obtidos posteriormente por meio da Lei de Acesso à Informação mostraram que as linhas 8 e 9 registraram 157 falhas entre 27 de janeiro e dezembro de 2022 — média próxima de uma ocorrência a cada dois dias. Considerado o período até 31 de janeiro de 2023, primeiro ano completo de operação privada, foram contabilizadas 166 falhas.
No final de 2022 começou outra sequência, desta vez marcada por descarrilamentos.
Em 7 de dezembro, um trem com passageiros descarrilou na Estação Domingos de Moraes. A composição envolvida era a mesma que havia batido contra a barreira de contenção em Júlio Prestes nove meses antes. A operação só foi normalizada durante a tarde.
Pouco mais de um mês depois, em 16 de janeiro de 2023, outro trem descarrilou nas proximidades da Estação Lapa, também na zona oeste da capital. Passageiros deixaram a composição e caminharam sobre os trilhos. O trecho entre Lapa e Júlio Prestes ficou interrompido por horas e o PAESE precisou ser acionado.
A ocorrência levou o Ministério Público a elevar o tom contra a concessionária. Naquele momento, a Promotoria chegou a afirmar que poderia recorrer à Justiça para tentar romper o contrato das linhas 8 e 9 caso os problemas não fossem solucionados.
Dois meses depois, um novo acidente
Em 18 de março de 2023, um trem com passageiros descarrilou entre Sagrado Coração e Itapevi, na região metropolitana. Usuários ficaram dentro das composições sem refrigeração e alguns abriram as portas e caminharam pelos trilhos. A ViaMobilidade atribuiu o acidente a uma “falha de equipamento da via”.
Naquele mesmo dia, dois vagões de manutenção se desacoplaram durante uma manobra no pátio de Presidente Altino e chegaram à via principal. Segundo a concessionária, os vagões estavam vazios e foram recolhidos sem colocar passageiros em risco.
Depois do acidente de 18 de março, a operação das linhas passou a ocorrer com redução de velocidade em determinados trechos como medida de segurança.
Nem isso impediu um novo descarrilamento
Na manhã de 30 de março, uma composição com cerca de 50 passageiros saiu dos trilhos novamente nas proximidades de Júlio Prestes. Os usuários precisaram desembarcar e caminhar pela via. Segundo a ViaMobilidade, houve falha em um equipamento responsável pela transferência dos trens entre os trilhos.
A sucessão de ocorrências levou a concessionária a identificar 60 pontos críticos na infraestrutura das linhas 8 e 9. A empresa passou a reduzir a velocidade nesses locais enquanto realizava substituição de trilhos e dormentes.
Em outubro daquele ano, a própria ViaMobilidade reconheceu que problemas poderiam ter sido identificados anteriormente, embora também sustentasse que havia recebido da CPTM uma infraestrutura deteriorada. A concessionária afirmou que trabalhava para substituir dezenas de quilômetros de trilhos e dormentes.
A discussão sobre quem herdou ou deixou de corrigir os problemas atravessou boa parte dos primeiros anos da concessão. Ainda em 2022, a ViaMobilidade recusou um Termo de Ajustamento de Conduta proposto pelo Ministério Público e atribuiu parte das falhas às condições em que as linhas teriam sido entregues pela CPTM.
O governo estadual, por sua vez, manteve a concessão. Em abril de 2023, já na gestão Tarcísio de Freitas, o governador convocou representantes da empresa depois da sequência de descarrilamentos e cobrou providências. Apesar da crise, o Palácio dos Bandeirantes descartou naquele momento romper o contrato.
Três anos depois, os descarrilamentos desta quinta e sexta voltam a colocar a Linha 8 diante de um problema que marcou os primeiros meses da operação privada.
Nova concessão também começou cercada de problemas
A reincidência na Linha 8 acontece enquanto o governo Tarcísio amplia o modelo de concessões ferroviárias no estado, que afeta diretamente passageiros da capital e de toda a região metropolitana.
Em 21 de julho deste ano, a Trivia Trens iniciou a operação assistida das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, além do Expresso Aeroporto. O contrato de concessão tem duração de 25 anos e prevê bilhões de reais em investimentos.
A transição, porém, entrou em crise praticamente de imediato.
Segundo o Ministério Público de São Paulo, mais de sete falhas operacionais graves foram registradas apenas nos três primeiros dias de operação da Trivia.
O episódio mais grave aconteceu em 23 de julho. Uma falha de energia afetou simultaneamente as três linhas e o Expresso Aeroporto durante o horário de pico da manhã. Houve princípio de incêndio em uma composição na região da Bresser-Mooca e passageiros tiveram de deixar trens e caminhar pelos trilhos.
As consequências se espalharam pelo sistema de transporte metropolitano. O PAESE precisou ser acionado, estações ficaram lotadas e a Prefeitura de São Paulo chegou a suspender o rodízio municipal de veículos diante do impacto provocado pela paralisação.
A resposta do governo foi incomum pela rapidez. Apenas três dias depois do início da operação assistida da Trivia, a Artesp determinou que a CPTM retomasse a operação das linhas por até 90 dias, em conjunto com a concessionária, enquanto as causas das falhas fossem investigadas.
O diretor-presidente da Artesp, André Isper, classificou os problemas registrados naquele início de operação como “inaceitáveis”.
O Ministério Público também abriu um inquérito civil para investigar a qualidade e a segurança dos serviços. A apuração envolve a Trivia, a CPTM, a Artesp e a Secretaria dos Transportes Metropolitanos e analisa tanto os problemas da nova operação quanto as condições anteriores das linhas.
Os problemas continuaram mesmo durante o período de operação conjunta.
Na terça-feira (11), uma falha no sistema de energia próximo à Estação USP Leste voltou a afetar a Linha 12-Safira. O problema começou por volta das 5h50, provocou maiores intervalos entre Brás e Calmon Viana e obrigou os trens a circular por uma única via em parte do trajeto. O PAESE foi novamente acionado, desta vez com 29 ônibus.
A sequência deixa duas das principais concessões ferroviárias paulistas sob questionamentos simultâneos.
De um lado, a Linha 8, que atende diariamente milhares de passageiros da capital e da região metropolitana, privatizada em 2022 e marcada desde os primeiros meses por falhas e descarrilamentos, registrou agora dois novos acidentes em menos de 24 horas.
De outro, as linhas 11, 12 e 13, recém-transferidas à iniciativa privada, precisaram voltar à operação conjunta com a estatal apenas três dias depois da estreia da nova concessionária, em meio a uma crise que também afetou usuários de toda a Grande São Paulo.