Liquidação da REAG: BC entra na caixa-preta de fraudes em série no Sistema Financeiro

Operadora criada por João Carlos Mansur é investigada por praticar condutas vedadas e era hub de negócios alavancados por Tanure, Quadrado, Vorcaro, Lima, Zettel e “Mineiro”
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Por Luís Costa Pinto e Leandro Demori

A REAG Trust DTVM foi liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central na manhã desta 5ª feira, 15 de janeiro de 2026, porque o Banco Central recebeu informações seguras de que a empresa operava irresponsavelmente, ousadamente e ilegalmente emprestando dinheiro a seus controladores. Essa é uma irregularidade que, sozinha, levaria a “distribuidora de títulos e valores mobiliários” à liquidação. É conduta vedada pelas regras de operação do BC brasileiro. Mas, o ataque da REAG às normas do mercado financeiro e do próprio capitalismo minimamente civilizado não pararam ali.

A DTVM criada e comandada com mão-de-ferro pelo contador João Carlos Mansur, considerado um “às” do mercado financeiro brasileiro até o dia 28 de agosto de 2025, quando a Operação Carbono Oculto foi às ruas e começou a lançar uma nuvem pesada e sombria sobre seu modus operandi,  também figurava como sócia em operações estruturadas dos fundos administrados por ela. A fiscalização do Banco Central apura, agora, se a REAG fazia com que fundos sob sua operação confundissem o patrimônio deles com o do próprio administrador. Tudo isso é considerado conduta vedada pelas regras do Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários, que trata de regular o mercado financeiro a fim de tentar domar a selvageria.

Em síntese, a REAG DTVM, ou “CBSF DTVM”, como passou a se chamar depois da ultra exposição negativa de agosto do ano passado, quando vieram à tona as primeiras (e tênues) suspeitas de irregularidades operacionais misturadas com pesadas desconfianças de que “distribuidora” fundada por Mansur era um hub financeiro de lavagem de dinheiro e alavancagem de negócios tanto pelo PCC (Primeiro comando da Capital, uma organização criminosa facínora) quanto pelos controladores do extinto Banco Master.

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João Carlos Mansur. Reprodução/Linkedin

Reag: agressivo, arrogante, assediador

Mansur imprimiu à REAG um modelo de ação à sua imagem e semelhança: agressivo, ousado, assediador incansável de novos clientes e parceiros comerciais e arrogante. Foi fazendo uso desses diferenciais competitivos, não necessariamente qualificantes, que atraiu o banqueiro Maurício Quadrado e o investidor Nelson Tanure para formarem o trio de ferro da DTVM – não explicitamente como sócios, mas como parceiros. Os dois, Quadrado e Tanure, compartilham os mesmos valores de atuação no mercado.

Os três começaram, então, por meio de uma extensa e engenhosa rede de fundos e corretoras derivadas da REAG – Planner, Bravox, Sefer, Trustee, Arleen, Advanced – a fazer investimentos cruzados em outras empresas de capital aberto ou fechado. Entravam nelas como investidores-salvadores, assumiam o controle e esmagavam os sócios minoritários. Os investigadores que estão na REAG receberam informações dando conta que, vencida a primeira fase do controle das empresas e dos negócios nos quais entravam, criavam-se empréstimos sem lastro, muitas vezes remuneravam-se os constrangidos sócios com um percentual daquele falso empréstimo e calçava-se a ficção contábil com títulos podres como debêntures de bancos quebrados no passado (por exemplo, o BESC – Banco do Estado de Santa Catarina) ou instituições financeiras claudicantes do presente, como o liquidado Master e profundamente enrolado Banco Regional de Brasília (BRB).

Antônio Pereira de Souza, liquidante determinado pelo Banco Central para fechar as operações em aberto da REAG/CBSF, enviará aos investigadores o que tiver de ser investigado e passar adiante operações saudáveis (que existem), terá acesso a todo o rol de irregularidades, ilegalidades e irresponsabilidades que teriam sido cometidos pela turma que estava lá.

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Daniel Vorcaro

A chegada de Vorcaro, Lima e Zettel

Quando o sistema começou a rodar pesado no mercado e a REAG ganhou fama de dínamo operacional do “capitalismo brasileiro”, isso durante a pandemia por coronavírus de 2020 e sob os anos trágicos da “Era Bolsonaro”, os ainda banqueiros (agora ex) Daniel Vorcaro e Augusto Lima se uniram à trinca. Cunhado de Vorcaro e considerado igualmente arrogante e agressivo como Mansur, o pastor e investidor Fabiano Zettel completou o sexteto. Esses três últimos são acusados de performarem como uma espécie de obreiros da engrenagem de irregularidades e de ataques às regras do mercado financeiro que funcionava a partir do comando de Mansur, Tanure e Quadrado.

Por fim, assegurando que criaria um sistema de proteção midiático capaz de reduzir exposições à “marca” da turma, uniu-se ao sexteto o sétimo integrante da cúpula ora em ruína e no foco dos holofotes e das lentes das fiscalizações do BC, da Polícia Federal e do Ministério Público: Antônio Carlos Freitas Júnior, vulgo “Mineiro”. Ele foi levado para dentro do sistema pelas mãos de Vorcaro e de Zettel e já tratava de estruturar uma rede de veículos de mídia destinada a dar curso e capilaridade aos interesses e às versões do grupo. “Mineiro” havia comprado a operação digital da revista Istoé, quebrada nas mãos da família Alzugaray, criou uma empresa guarda-chuva para compartilhar share de mercado com o “Brazil Journal”, uma espécie de “diário oficioso” de um núcleo determinado de instituições da avenida Faria Lima (coração financeiro do país) e com o site “Platô.Br”. Por meio desse site, os controladores do Platô.Br tentaram até o fim de dezembro de 2025 adquirir o controle da massa quase falida dos Diários Associados. Antônio Carlos Freitas Jr não aparecia diretamente nessa operação. O combalido conglomerado jornalístico montado por Assis Chateaubriand ainda conserva os prestigiosos títulos Correio Braziliense, de Brasília, e Estado de Minas, em Minas Gerais.

Um fundo chamado “Leal”, criado por “Mineiro”, era o braço operacional nessa área midiática. Associado a um empresário chamado Flávio Carneiro, dono efetivo de 49% do Brazil Journal e de 100% do Platô.Br, Antônio Carlos Freixo Júnior funcionava como abre-alas essencial aos interesses de Vorcaro, de Lima e do Master em Brasília e na Faria Lima. Essa era a face pública do grupo que se unia embaixo do guarda-chuva da REAG DTVM sem que fossem necessariamente sócios de papéis (públicos) passados em contratos transparentes.

Esquema Ponzi

A teia operacional montada pela turma que agora enfrenta um duro processo de liquidação extrajudicial pelo Banco Central e terá todos os seus documentos, mídias digitais, celulares e vida financeira e patrimonial esquadrinhadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, foi um típico “Esquema Ponzi”. Quando ocorre uma fraude de investimentos onde lucros prometidos aos investidores chegam do dinheiro de novos participantes, e não de um negócio real e palpável, funcionando como uma pirâmide financeira disfarçada, dá-se a isso o nome de “Esquema Ponzi”.

Charles Ponzi foi um vigarista italiano. Tornou-se famoso nos anos 1920, quando criou um esquema de investimentos fraudulentos prometendo lucros altíssimos em curto prazo. Pagava investidores antigos com “lucros novos”. Foi daí que surgiu a analogia com as “pirâmides financeiras” e a denominação é usada até hoje.

Tão logo decretou a liquidação extrajudicial da REAG DTVM, o Banco Central determinou que seu ex-funcionário de carreira, Antônio Pereira de Souza, fosse o liquidante da operadora. Experiente, Pereira de Souza atuou na liquidação extrajudicial do Bamerindus, em 1997. Banco com forte presença no financiamento ao agronegócio, o Bamerindus quebrou justamente por cometer fraudes na estruturação de falsos empréstimos a produtores rurais. José Eduardo Andrade Vieira, herdeiro e controlador do Bamerindus na época da liquidação, havia sido ministro da Agricultura de Itamar Franco e colega de senado e de ministério de Fernando Henrique Cardoso, presidente durante a ruína da instituição – ou seja, o liquidante do REAG tem experiência em lidar com embates políticos e lobbies pesados.

(Este texto foi modificado às 14h do dia 16/01/2026 para incorporar explicações detalhadas do controle dos jornais eletrônicos Platô.BR e Brazil Journal a pedido de Flávio Carneiro)

 

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