Urgente. Leio a nota de alerta na página “Noites Húngaras”, do extraordinário repórter Paulo Motoryn, meu colega de ICL Notícias:
“Consegui um documento interno do Rosewood, hotel de luxo em São Paulo, que revela algo potencialmente importante para a eleição brasileira: uma comitiva ligada a Peter Thiel desembarcou em peso na cidade neste ano.
Sim, se você quer estar preparado para entender o que está em jogo em outubro, é importante saber quem é Peter Thiel. Antes que seja tarde.
Não é só mais um bilionário do Vale do Silício: é um dos homens que melhor representam a aproximação entre poder tecnológico, grandes fortunas e a ultradireita nos EUA”.
Não há como duvidar. Nunca foi teoria da conspiração. A máquina de guerra de Donald Trump está operando nas eleições brasileiras. Temos perfis pró-Flávio a partir de Washington, financiamento de comitês eleitorais pelo fundo Rockbridge, além da pressão direta e a cores do próprio Trump e do secretário de Estado, Marco Rubio.
O relatório urgente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) listou outra penca de sinais de interferências.
No sufoco, volto direto para uma destemida aldeia no sertão do Nordeste:
— Quem nasce em Bacurau é o quê? — pergunta a mulher do Sudeste recém chegada à bodega do povoado.
— Gente —responde o menino, mesmo que a pergunta fosse dirigida a uma vivente adulta, a dona do estabelecimento.
São muitos os sentidos do filme. Diversos como os gêneros e subgêneros que viajam da ficção científica ao western-spaguetti. Dizer que ali mora gente, no entanto, talvez seja a grande moral política da fábula sangrenta.
Rapaz, é como se aquele sertão altivo, apesar de riscado do mapa, puxasse com o violeiro Carranca (personagem de Rodger Rogério, o lendário compositor do Pessoal do Ceará) um coro de provocação ao resto do Brasil: Ai essa terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se uma imensa Bacurau.
Uma imensa Bacurau, repito o refrão, na ideia de sobrevivência, na arte de teimar em ser gente e algum cheirinho de vingança (humanum est) nas ventas. Pego bigu no fado do Chico e do Ruy Guerra para tomar o vilarejo do Velho Oeste pernambucano como exemplo de reação organizada ao tratamento ao plano de extermínio por parte dos gringos invasores aliados ao coronelismo-coxinha do prefeito Tony Jr., na interpretação fria e magistral do ator paraibano Thardelly Lima.
E não se trata de forasteiros comuns do clichê de um bang-bang qualquer. Os norte-americanos brincam de jogos mortais, como em um reality, para eliminar os habitantes da aldeia sertaneja —ponto sofisticadíssimo do roteiro do filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.
Lembro que na sessão que vi no Petra Belas Artes, SP, em pleno Dia da Pátria, o público vibrou e aplaudiu como nas minhas jornadas vespertinas no cine Eldorado (anos 1970), em Juazeiro do Norte, ou no Veneza (década 1980), no Recife. Catarse geral e irrestrita. Bacurau ultrapassa a fronteira do “cult” e resgata esse bafo no cangote dos cinemões de rua nas tardes de sábado e domingo. Deixávamos o escuro da sala para voltar à claridade da rua repetindo os gestos, estripulias e as mungangas dos atores. Ah, O voo do Dragão, com Bruce Lee, que voadora espetacular!
Corta para 2019. Saltei da poltrona e dei de cara, na esquina da Consolação com a Paulista, com manifestantes de luto contra a ordem bolsonarista. Saí imitando o “abuso” genial de Lunga, o vingador representado pelo ator cearense Silvero Pereira.
É o horror no campus universitário, é ciência proibida em nome das trevas, é uma nostalgia da ditadura da moléstia dos cachorros, é a febre do rato, é o estampô-calango, é a besta fubana, é a bobônica, como diria o DJ-narrador Urso, em indumentária “Rap Power”, nos cafundós bacurauenses. Na vida mais ou menos real, o amigo Urso é o artista Jr. Black, o Barry White do Agreste, gênio da música cosmopolita pernambucana, escutem esse cara, senhoras e senhores.
As mulheres de Bacurau miram-se no exemplo das heroínas de Tejucopapo, as destemidas que expulsaram, a pau e pedra, os holandeses que pretendiam saquear o vilarejo a 60 km do Recife, em 1646. Aí vemos Carmelita (Lia de Itamaracá), a matriarca que representa a utopia da água e da fartura da nação semiárida; Domingas (Sônia Braga), com sua blasfêmia alcoolizada e a valentia do cuidado rotineiro com o povo; a Teresa (Bárbara Colen) que retorna mais forte ainda… Sem falar na Deisy (Ingrid Trigueiro), que dá um tiro de escopeta ao melhor estilo Chigurh (Javier Barden) no faroeste americano Onde os fracos não têm vez (2007).
Ai essa terra não está nada em transe, velho Glauber, essa terra está é fora do mapa, como registraram os desautorizados satélites do Inpe sobre a destruição da Amazônia no governo da família Bolsonaro.
Será que precisamos de algum milagroso psicotrópico, caríssimos Kleber e Juliano, para acordar da letargia? Quem sabe mais aulas do professor Plínio (Wilson Rabelo), né? Seriam os vingadores perigosos discípulos de Paulo Freire?
Acho que tomamos, saindo um pouco do bang-bang para a ficção científica, foi aquela pílula antialucinógena servida na água pelo Grande Benfeitor, personagem do conto A fé dos nossos pais, do escritor norte-americano Philip K. Dick. A pílula fitoterápica, me lembra aqui o amigo e fotógrafo alagoano Juarez Cavalcanti, deixou toda a população lesada, em uma eterna lombra alienante.