Por Lúcio de Castro
Sem comprovação de retorno, o Mundial de Clubes irá custar mais de R$ 3 milhões para os cofres do estado do Rio de Janeiro. O desembolso sai da caixa da Secretaria de Turismo (Setur), com Fluminense, Flamengo e Botafogo recebendo R$ 1 milhão cada. Fora as despesas com passagens e diárias.
O titular da pasta, Gustavo Reis Ferreira, o Tutuca, viajou no domingo (15) utilizando passagem emitida com o dinheiro do contribuinte para acompanhar a competição. Torcedor do Fluminense, o político montou um itinerário que coincide exatamente com os locais de jogos do time de coração: chegou em Nova York nesta segunda-feira (16), onde fica até 22, indo para Miami no dia 29. O Fluminense joga em Nova York nesta terça-feirae e no dia 21. Depois, entra em campo em Miami no dia 25.
Em suas redes sociais, o secretário postou vídeo arrumando oito camisas do clube enfileiradas e escreveu: “haverá sinais”. Já o presidente da Turisrio, Sérgio Ricardo, viaja no dia 22 para Miami, com a mesma
justificativa.
O calendário do secretário de Turismo nos Estados Unidos:
15 de junho: ida para Nova York
22 de junho: ida para Miami
29 de junho: volta para o Brasil
O calendário do Fluminense:
17 de junho: Fluminense x Borussia (Nova York)
21 de junho: Fluminense x Ulsan (Nova York)
25 de junho: Fluminense x Mamelodi (Miami)
Além dos R$ 3 milhões destinados aos clubes, o cidadão do Rio de Janeiro irá pagar mais R$ 24.255,95 de passagem para a viagem do secretário tricolor casada com a participação do time na primeira fase. O bilhete já está emitido pela secretaria desde 14 de maio. Com volta para o Brasil marcada para o dia 29, Tutuca ainda terá a possibilidade de ver uma das partidas de oitavas de final da competição, no dia 28. Só não se sabe se com o Fluminense em campo ou não.
Já o presidente da TurisRio, Sérgio Ricardo, sai do Brasil no dia 22 para Miami, ficando até o dia 30.
O custo total das viagens do secretário de Turismo e do presidente da Turisrio para acompanharem o Mundial de Clubes é de R$ 104.707,37. Dividios da seguinte forma:
Gastos do secretário de Turismo Tutuca:
Passagem: R$ 24. 255,95
14 diárias: US$ 460 cada, dólar cotado a R$ 5,57, total R$ 2.555,45 cada dia. Total de
R$ 35.776,44
Traslados: R$ 1.408,00
Total: R$ 61.440,39.
Gastos do presidente da Turisrio, Sérgio Ricardo:
Passagem: R$ 21.405,38
Diárias: 8 diárias a US$ 460, total de R$ 20.497,60
Traslado: R$ 1.364,00
Total: 43.266,98.
Na agenda dos dois, além dos jogos, constam reuniões na Prefeitura de Orlando. O presidente da Turisrio, torcedor rubro-negro, tem previsto em agenda acompanhar o jogo do Flamengo no dia 24, contra o LAFC (Orlando), e no dia seguinte, Fluminense x Mamelodi (Miami).
O objeto alegado pela Setur para justificar o desembolso da verba pública é o “fomento, promoção e desenvolvimento do turismo no estado do Rio de Janeiro”.

Área Vip para convidados de Tutuca nas casas do Fluminense
O Fluminense também terá mais espaços nos Estados Unidos ao longo do Mundial do que os demais, assim como mais contrapartidas dadas para a pasta do secretário Tutuca. O clube da Gávea sedia a “Casa Flamengo” no Icon Park, Orlando. A “Casa Botafogo” será na lendária praia de Venice, Los Angeles. E o Fluminense terá duas sedes fixas.
A “Casa Flu” em Nova York, funciona no Legends Bar, na rua 33. E em Miami será no Magic 13 Brewing Co.
Além das duas sedes terrestres, o Fluminense teve também uma festa no “Flu Boat Party”, tendo como palco um iate cortando Nova York através do Rio Hudson.
As compensações exigidas pela pasta de Tutuca junto aos clubes para concessão da verba também foram mais amplas com o Fluminense. Enquanto o Botafogo cederá 20 ingressos por partida para a Setur e Flamengo 30, o time do secretário, além de 20 ingressos em cada jogo da primeira fase, entra também com a concessão de espaço vip para as festas organizadas pelo clube por onde passar. Em Nova York, a Setur teve 30 convites para o “Flu Boat Party”. E ainda terá uma área vip para 30 convidados da secretaria, tanto na “Casa Flu New York” como na “Casa Flu” de Miami.
De acordo com a planilha apresentada com os custos do Fluminense, a verba de R$ 1 milhão da Setur será assim consumida nos eventos do clube:
– R$ 365.950,00 para locação de espaços (Flu Boat, e as casas de Miami e Nova York)
-R$ 182.975,00 para custos com atrações contratadas como apresentações musicais ao vivo e DJs convidados
– R$ 208.310,00 para cenografia das três locações
– R$ 242.765,00 de pagamento ao staff em Nova York e Miami.
O Flamengo incluiu a Flamengo TV na planilha de custos apresentada à Setur na justificativa da verba de patrocínio do clube. Incluindo passagens internacionais para 12 pessoas, ao preço de R$ 153.360,00 e vôos domésticos a R$ 14.400,00, além de hospedagem em 6 quartos por R$ 180.000,00, verba de transporte a R$ 55.000,00 e produção a R$ 48.000,00.
R$ 150 mil de customização e exurrada de críticas nas redes sociais
A customização da “Casa Flamengo” aparece na planilha de justificativa de gastos apresentada ao governo do estado ao preço de R$ 150.000,00. Inaugurada no último sábado, imediatamente passou a receber uma enxurrada de críticas dos torcedores do próprio clube nas redes sociais. “Casa de quermesse, barracão, rudimentar, meia boca” foram algumas das definições encontradas. Um custo bem mais alto do que a cenografia das três locações dos espaços tricolores, a R$ 208.310,00.
O contrato entre o Botafogo e o espaço alugado em Venice Beach, datado de 1º de abril, foi assinado diretamente pelo proprietário da SAF, John Textor, e pelo diretor, Thairo Arruda, no valor de US$ 125 mil, equivalentes a R$ 721.250,00, através de uma empresa de marketing americana, a Cantwe11 Marketing, como intermediária entre a SAF Botafogo e o 57 Windward. O acordo, ao qual a reportagem teve acesso, tem uma cláusula que proíbe qualquer divulgação pública sobre os termos.
A validade do aluguel do espaço da “Casa Botafogo” em Venice é apenas entre os dias 12 e 23 de junho, exatamente a terceira e última partida do clube na primeira fase diante do Atlético de Madri. Não contemplando eventual avanço na competição. Assim como a “Casa Flu”, que em Nova York vai funcionar no Legends Bar, na rua 33 entre os dias 16 e 21. E em Miami no Magic 13 Brewing Co, dias 24 e 25. E a “Casa Flamengo” está prevista para ficar montada entre 13 e 25 de junho.

Procuradora do estado questionou falta de comprovação de benefícios do patrocínio
Na quinta-feira, 12, antevéspera do início do Mundial, um parecer da procuradora do estado Gabriela Vieira Leonardos questionou diversos aspectos do patrocínio concedido pela Setur no caso do Fluminense e da empresa que assina como recebedora. Entre os questionamentos, está a falta de dados concretos das estimativas que comprovam os benefícios como retorno financeiro ou aumento de visitantes causado pela iniciativa, afirmando que na documentação de requerimento do patrocínio não existem estudos detalhados para embasar como o dinheiro público trará resultados mensuráveis.
O acordo com a empresa beneficiada (“Centro de Estudo Treinamento Assessoria a Cidadania”) sem licitação também foi alvo de questionamento. De acordo com a peça, não há provas de que outras empresas não poderiam ter sido contratadas, apesar das três propostas alternativas apresentadas no requerimento.
A realização do “Flu Boat Party” com dinheiro público também tem sua legitimidade posta em xeque, sob o argumento de que a lei proíbe gastos públicos com artigos de luxo, além da Setur não ter justificado a razão para tal evento ser necessário para promover o turismo. O parecer não é impeditivo para a concessão do patrocínio mas indica a necessidade de ajustes e justificativas.
No dia seguinte, a Setur, por intermédio da assessoria técnica, respondeu aos questionamentos. Sem se aprofundar nos itens levantados no parecer, em respostas genéricas, a secretaria afirmou que a análise técnica realizada estava em conformidade com os valores de mercado, considerando o escopo, o perfil institucional dos proponentes e as particularidades das propostas. A réplica não confronta os pontos levantados e argumenta que as diferenças são justificadas pelo contexto específico de cada evento.
Em itens como o questionamento ao gasto público com artigos de luxo em que a procuradoria questiona a festa no “Flu Boat”, a resposta justificou o patrocínio limitando-se a informar que “ainda que o evento seja realizado em espaço considerado de luxo, o fato é que a SETUR não está locando o espaço, e sim associando sua marca a do patrocinado em um evento de alcance mundial”.
Por fim, a justificativa quanto a verba pública empenhada é subjetiva e não apresenta estudo técnico: “a cota a ser dispendida (SIC) é por discricionariedade, decisão do chefe da pasta, visto entender sua abrangência e as possibilidades de alcance, em razão das estratégias pré estabelecidas pela secretaria”. Em relação a “Casa Botafogo”, a procuradoria também fez questionamentos similares, alegando que não há pareceres técnicos detalhados nos autos, apenas uma declaração genérica para justificar os gastos.
Para Setur, competição nos EUA estimula criação de empregos e investimentos no Rio
Embora a competição seja realizada nos Estados Unidos, no parecer que responde os questionamentos da Procuradoria-Geral do Estado (PGE) sobre o patrocínio, a Setur argumentou que a ação promove o desenvolvimento e qualidade de vida do cidadão do estado do Rio, além de fomentar a criação de emprego e investimento nas cidades. Mas não detalhou como o evento realizado no país estrangeiro pode alimentar a criação de empregos, investimentos e desenvolvimento das cidades do Rio. A justificativa: “Assim, a ação escolhida está intrinsicamente (sic) ligada ao objetivo desta Pasta de Estado no que concerne ao interesse público de promover o desenvolvimento econômico e a qualidade de vida dos cidadãos fluminenses, estimulando diversos setores da economia, fomentando a criação de empregos e os investimentos nas cidades”.
O mesmo questionamento foi feito para o Flamengo, com pedido para que apresentasse estudos detalhados sobre os alegados benefícios econômicos de turismo, empregos e divulgação no Rio de Janeiro.
Os contratos entre a Setur e os clubes, todos sem licitação, também foram assinados por diferentes responsáveis, conforme está no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro.
A Trilha Consultoria assina o acordo pela “Casa Botafogo”. Já a “Casa Fluminense” tem como responsável o “Centro de Estudo Treinamento Assessoria a Cidadania”, que também responde pelo projeto social “Craque do Amanhã”. No caso do Flamengo, o próprio clube aparece assinando pelo contrato de patrocínio, ficando a E.A. Comunicação como prestadora de serviço. A responsável, de acordo com a própria assessoria do Flamengo, por “construir e operar a Casa Flamengo, o que ela também estará fazendo para o Palmeiras. Exatamente por isso ela recebeu parte da verba”.
Nas redes sociais também houve comparação da decoração entre as duas casas, em detrimento da rubro-negra.
Sobre a verba do estado para o evento, o clube da Gávea, através da assessoria de comunicação, respondeu que “o Flamengo, assim como os outros clubes cariocas, recebeu essa verba da TurisRio para a produção de conteúdos na Casa Flamengo e nos canais do clube, com contrapartidas para a TurisRio”.
Tentamos falar com Botafogo e Fluminense sobre a verba do estado e sobre a função das empresas que aparecem responsáveis pelos contratos junto ao governo do estado mas não obtivemos resposta, assim como com a Trilha Consultoria. Eventuais respostas da publicação serão acrescentadas na reportagem. O “Centro de Estudo Treinamento Assessoria a Cidadania”, do projeto “Craque do Amanhã”, enviou a resposta abaixo:
“O Centro de Estudo Treinamento Assessoria a Cidadania é parceria institucional do Fluminense desde 2020, tendo realizado diversos projetos junto ao Clube. A parceria abrange ações e atividades de cunho social, bem como a elaboração e execução de projetos incentivados. Como é de ciência de todos, o Fluminense se encontra, provisoriamente, sem as certidões negativas de débito necessárias, por isso a opção pela parceria com a instituição. O Fluminense participou da escolha e reserva dos locais, comumente utilizados por sua torcida nos Estados Unidos”.
O Flamengo faz suas duas primeiras partidas na Filadelfia (estreou nesta segunda-feira (16), contra o Esperance e na sexta-feira (20) joga contra o Chelsea), e a última da primeira fase em Orlando, no dia 24 contra o LAFC. Já o Botafogo enfrentou o Seattle na casa do adversário no dia 15, vencendo por 2 x 1, o PSG em Los Angeles no dia 19 e novamente nessa cidade em 23 de junho, diante do Atlético de Madri.
Enviamos pedidos de resposta para a secretaria de turismo, para Sérgio Ricardo, presidente da TurisRio e para o governador Cláudio Castro, solicitando respostas específicas sobre a razão da verba pública para clubes com orçamentos milionários. Assim como sobre a agenda do secretário Gustavo Tutuca. Apenas a SETUR respondeu:
“A Secretaria de Turismo destinou R$ 3 milhões – sendo R$ 1 milhão para cada clube (Flamengo, Fluminense e Botafogo) – para ações de promoção internacional do Estado do Rio de Janeiro durante a Copa do Mundo de Clubes da FIFA, nos Estados Unidos, aproveitando a vitrine global do futebol e o forte apelo popular do evento.
Trata-se de uma iniciativa de promoção turística, não de patrocínio esportivo. Os clubes estão cedendo espaços próprios nas cidades-sede da competição para ativações institucionais, divulgação dos atrativos das 12 regiões turísticas do estado e encontros estratégicos com o trade internacional. As ações integram a estratégia de promoção internacional do turismo fluminense em um dos mercados mais relevantes para o Rio de Janeiro: os EUA são o terceiro maior emissor de turistas para o nosso estado.
De janeiro a maio de 2025, quase 115 mil turistas norte-americanos desembarcaram no estado do Rio de Janeiro – um crescimento expressivo 47%, em relação aos 78 mil registrados no mesmo período de 2024. A expectativa do Governo do Estado é ultrapassar, em 2025, a marca de 1,8 milhão de visitantes internacionais, superando em mais de 20% o volume total do ano passado”.