Numa Copa do Mundo marcada por exclusões promovidas por Donald Trump e sediada por um governo com fortes elementos de supremacistas brancos e orgulhoso de suas deportações, o futebol já indicou que guarda sempre a palavra final.
Em pelo menos três jogos desse início de Mundial, imigrantes e refugiados foram as principais estrelas em campo.
No sábado, a Suíça empatou com o Catar. O placar foi aberto por Breel Donald Embolo, que nasceu em 1997, na capital camaronesa, Yaoundé. Seus pais se separaram quando ele era jovem e, aos cinco anos de idade, sua mãe se mudou para a França, onde ele frequentou a escola. Embolo e seus irmãos foram criados entre Toulouse e Paris.
Mais tarde, a família se mudou para Basileia, na Suíça, onde sua carreira começaria. Finalmente, em 2015, Embolo estrearia pela seleção do país alpino.
Seu gol, porém, ocorre num momento particular. A Suíça vai às urnas neste fim de semana para votar uma proposta da extrema direita para colocar um limite de 10 milhões de pessoas na população do país.

Em 2000, a Suíça possuía pouco mais de 7 milhões de habitantes. Em 2025, essa taxa chegou a 9 milhões, com 27% de estrangeiros. Para a extrema direita, o país está “lotado” e a culpa é da imigração, causando altas nos aluguéis e até impacto ambiental.
O projeto estipula que, se a população chegasse a 9,5 milhões de pessoas, o governo teria de agir. O primeiro passo seria recusar a entrada de solicitantes de asilo e impedir a reunificação de famílias de estrangeiros que já estejam no país. As autoridades ainda deveriam, neste caso, renegociar acordos de imigração com dezenas de parceiros.
Quem liderou a proposta foi o Partido do Povo Suíço (SVP, na sigla em alemão). Seu argumento era de que a chegada de estrangeiros tem sido descontrolada e que medidas de controle precisam ser estabelecidos. No fundo, um muro.
A aprovação seria o ápice do movimento que começou há duas décadas. Entre 2007 e 2008, a extrema direita na Suíça causou uma polêmica ao distribuir pelas cidades cartazes contra a imigração. Naquela imagem, ovelhas brancas pastando em território suíço davam um coice para expulsar do país uma ovelha negra. Meses depois, um outro cartaz apareceu. Nele, mãos negras tentavam agarrar um passaporte suíço.
Entre os mais críticos à proposta, os comentários questionam como fariam os suíços para comemorar o gol de um estrangeiro, caso o limite de população já tivesse sido atingido.
No jogo entre o Canadá e Bósnia, quem salvou o time da casa foi Cyle Larin, filho de um jamaicano. A partida terminou com um empate e evitou o vexame dos anfitriões que receberão 10% de todos os jogos do Mundial.
Outro jogo que viu o destaque de um “estrangeiro” foi entre Austrália e Turquia. De filhos de refugiados a pais deslocados por conflitos na África, três jogadores mostraram a nova cara do futebol australiano na Copa do Mundo.
O técnico Tony Popovic depositou sua confiança nos atacantes Mohamed Touré e Nestory Irankunda. E deu certo.
Na estreia neste sábado contra a Turquia, Irankunda tornou-se o jogador mais jovem a marcar um gol na Copa do Mundo pela seleção australiana ao abrir o placar na vitória por 2 a 0 sobre a Turquia, em Vancouver. “É surreal e um sonho realizado”, disse Irankunda logo após o apito final.
Mas este é apenas o passo mais recente em uma jornada incrível para o ex-refugiado. Irankunda nasceu em um campo de refugiados na Tanzânia, em 2006, filho de pais do Burundi que fugiram de seu país natal devido a uma guerra civil. Ele ainda era criança quando se mudaram para a Austrália.
O time ainda conta com Awer Mabil, o “irmão mais velho” da dupla de refugiados. Os três compartilham a experiência de serem filhos de solicitantes de asilo que ascenderam nas categorias de base do futebol na pacata capital australiana, Adelaide.
Lei de Trump teria transformado vida de atacante
Nada, porém, parece rivalizar com a ironia da seleção da casa. Os EUA atropelaram o Paraguai na sexta-feira, com uma placar de 4 x 1.
Numa época em que o governo de Donald Trump usa o torneio para ostentar sua abordagem autoritária no controle de fronteiras, demonstrando força contra torcedores, jogadores, funcionários e até mesmo árbitros somalis renomados, um jovem de origem nigeriana parece ser o exemplo perfeito de uma história bem diferente dos EUA.
Os pais de Balogun moravam em Londres quando viajaram para Nova York no verão de 2001. A viagem se mostrou complicada: comissários de bordo se recusaram a permitir que sua mãe embarcasse no voo de volta para casa depois de perceberem que ela estava grávida de sete meses. Eles foram obrigados a ficar em Nova York e Folarin Jerry Balogun nasceu no Brooklyn em 3 de julho.
O pequeno Balogun recebeu automaticamente a cidadania americana pelas leis de cidadania por nascimento, baseadas na 14ª emenda da Constituição dos EUA, leis que o governo Trump está tentando reescrever.
Se o nascimento de Balogun tivesse ocorrido sob as novas propostas do presidente, os EUA não teriam tido seu atacante estrela em Los Angeles na noite de sexta-feira.