“Arranco a sua cabeça no dente.” A frase é de um escrivão da Polícia Civil do Distrito Federal, dirigida à própria companheira.
“Uma mulher teve parte da orelha mutilada após ser mordida pelo companheiro durante um evento em Piracaia, no interior de São Paulo.”
“O homem preso por suspeita de jogar a namorada do 13º andar de um prédio, no Rio de Janeiro, morreu ao se enforcar dentro da cela da Delegacia de Homicídios.”
Em Aparecida de Goiânia, Goiás, uma mulher é queimada na frente da filha de 3 anos. Outra, no mesmo estado, morreu após ter o corpo queimado pelo ex-companheiro.
“Em Diadema, São Paulo, um homem espanca a companheira e incendeia a casa. O pet morre carbonizado.”
Essas são apenas algumas manchetes recentes. Mas não só aqui; mulheres seguem sendo agredidas, mutiladas e mortas. O mesmo acontece todos os dias em diferentes partes do mundo.
Enquanto o site pornográfico Motherless.com reúne cerca de 20 mil vídeos com cenas de estupro e teve, apenas em fevereiro, 62 milhões de acessos, homens se organizam em grupos de mensagens para trocar dicas sobre como dopar e estuprar suas próprias companheiras. Nos Estados Unidos, em outra frente, líderes religiosos defendem que o voto da família seja decidido pelo marido. Outros afirmam que mulheres não deveriam votar, e dizem isso publicamente, sem constrangimento.
“Um voto por família, mas decidido pelo marido.” Essa é a opinião defendida pela Igreja de Cristo do pastor estadunidense Doug Wilson. Dale Partridge, outro líder religioso, pede o fim da 19ª Emenda — que garantiu o voto feminino há mais de 120 anos. E mais: aqui vai um compilado dos últimos absurdos em que ele, livremente, destila misoginia nas redes sociais.

Aqui no Brasil surge o “Farol e a Forja”, evento idealizado pelo ator Juliano Cazarré, com a proposta de “realinhar a vida, reencontrar o essencial e se alimentar uns aos outros.” O primeiro palestrante confirmado é o psiquiatra Ítalo Marsili. Ele, que chegou a ser cotado para o Ministério da Saúde do governo Bolsonaro, em entrevista ao Brasil Paralelo, em 2020, disse que é muito fácil convencer uma mulher a votar: basta seduzi-la.
Parece exagero? Não é.
Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas analisou 85 comunidades no Telegram, com mais de 7 milhões de mensagens ao longo de dez anos, e chegou a uma conclusão incômoda: a machosfera não é só um espaço de ódio difuso na internet. É política. E, mais do que isso, é um ecossistema que produz visão de mundo. Por trás de memes, piadas e supostos “conselhos para homens”, o que se organiza ali é uma lógica baseada em hierarquia, ressentimento e na ideia de que igualdade é ameaça. A Adriana Ferreira vai falar sobre esse estudo na Liberta deste sábado — leiam.
O efeito mais grave disso tudo talvez não esteja no insulto explícito, mas no que vem depois: a corrosão silenciosa da legitimidade de políticas públicas. A Lei Maria da Penha vira “ameaça aos homens”. Educação sexual vira “doutrinação”. Direitos reprodutivos viram “degeneração moral”.
O que está em jogo não é apenas discurso de ódio. É a construção de um ambiente em que proteger mulheres, garantir direitos e discutir igualdade passa a parecer exagero ou, pior, perseguição.
A machosfera não precisa de liderança única, nem de partido. Ela é mais eficiente do que isso. Se adapta, se espalha, se reinventa. Funciona como cultura.
E cultura, quando naturaliza violência e desigualdade, contamina e organiza comportamento.
Tratar isso como nicho ou “coisa de internet” é não entender o tamanho do problema.