Por Roberto Andrés e Talita Novacoski*
A aprovação da proposta que reduz a jornada máxima de trabalho para 40 horas semanais e cinco dias por semana representa uma grande vitória para os trabalhadores brasileiros. A medida, que acaba com a escala 6×1, será implementada em dois meses e deve beneficiar mais de 30 milhões de pessoas. Há poucos anos, uma mudança dessa dimensão parecia impossível. O que aconteceu nesse intervalo?
Em 12 de setembro de 2023, Rick Azevedo, balconista de farmácia no Rio de Janeiro, publicou no TikTok um vídeo em que desabafava sobre a jornada exaustiva a que estava submetido. Jovem trabalhador, negro e gay, Rick relatava uma realidade compartilhada por milhões de brasileiros. O vídeo viralizou, mas a repercussão nas redes, por si só, não seria suficiente para transformar aquela indignação em mudança política.
Da indignação à organização
O que levou o desabafo a se converter em uma proposta aprovada pelo Congresso foi a combinação de três fatores fundamentais para qualquer luta política: organização, coalizão e resiliência.
Depois que o vídeo viralizou e recebeu milhares de comentários, Rick chamou um amigo para pensar no passo seguinte. O objetivo era ambicioso: mudar a Constituição. Com o apoio do advogado João Victor Felix, ajudou a estruturar o movimento VAT — Vida Além do Trabalho.
Hoje, o VAT é um movimento nacional, com núcleos nos 26 estados. Seus integrantes se organizam em torno da pauta e dividem tarefas como recrutamento, panfletagem e produção de conteúdo. A força do movimento está também em sua origem: muitas de suas lideranças conhecem diretamente as condições de trabalho que procuram mudar.
Lucas Louback, gestor de campanhas nacionais do BONDE, participou de um encontro do VAT em março deste ano e destacou o caráter de base da mobilização: “Me chamou a atenção que as lideranças do VAT eram pessoas que trabalhavam na escala 6×1, muitas delas nunca tinham saído de seus estados. É um movimento orgânico, de base, que vinha se constituindo com muita força. Senti que havia uma grande potência ali, de gente que estava dedicando suas vidas à causa.”
Uma coalizão para fazer a pauta avançar
Mesmo com um trabalho consistente, o VAT não conseguiria sozinho levar adiante uma pauta tão difícil. Foi necessário construir alianças com outras forças políticas e organizações sociais. A deputada Erika Hilton teve papel fundamental nesse processo: elaborou a PEC que propôs o fim da escala 6×1 e reuniu as assinaturas necessárias para iniciar sua tramitação.
Na coleta de assinaturas, realizada no ano passado, a pressão nas redes sociais sobre parlamentares foi decisiva para alcançar o número mínimo. Depois do protocolo da proposta, começou também a articulação com o governo federal. Parlamentares petistas como Paulo Paim e Reginaldo Lopes, autores de propostas semelhantes no passado, contribuíram para esse trabalho.
A mobilização também dependeu da sociedade civil. No BONDE, há mais de um ano atuamos ao lado do VAT, com ações de mobilização e articulação junto a parlamentares e à Presidência da República. Uma das iniciativas de maior repercussão foi a projeção no Copacabana Palace durante o show de Shakira, em maio deste ano, que levou a pauta à cobertura da imprensa.
Persistir quando o debate muda de assunto
Movimentos sociais, organizações e parlamentares enfrentam um desafio permanente: manter o foco em sua pauta em meio a um ambiente digital no qual a atenção se desloca rapidamente. Um dia o debate gira em torno do Banco Master, de Alexandre de Moraes, do STF, de Donald Trump, de Bad Bunny, do BBB ou da Copa do Mundo; no seguinte, outro assunto ocupa o espaço.
A tentação é surfar em cada tema do momento para continuar presente nas redes. Mas, ao tentar falar de tudo, um movimento pode perder relevância e deixar sua própria pauta para trás. A comunicação de Rick Azevedo e do VAT mostra que é possível conectar a luta aos assuntos que mobilizam o público sem abandonar seu objetivo. O foco, a criatividade e a persistência ajudaram a manter o fim da escala 6×1 no debate público.
No BONDE, também procuramos sustentar essa atuação mesmo quando a pauta não estava entre os trending topics. Annie Oviedo, da nossa equipe em Brasília, produziu vídeos virais que mostravam o Congresso vazio enquanto a PEC continuava parada. Em lutas de longo prazo, a resiliência é central para a estratégia.
Com a proximidade do período eleitoral, o governo do presidente Lula intensificou as articulações para que a medida fosse votada antes do segundo turno. Há quem chame esse esforço de eleitoreiro. Preferimos chamá-lo de democracia: eleitores mobilizados pressionam seus representantes a votar medidas que beneficiam a maioria.
A trajetória da luta pelo fim da escala 6×1 deixa uma lição importante: mudanças que parecem impossíveis podem avançar quando há organização coletiva, trabalho em coalizão e persistência. Seja qual for o resultado da eleição, a atuação coordenada dos movimentos sociais será essencial para se avançar em pautas que reduzam as desigualdades e melhorem as condições de vida da população.
*Roberto Andrés é ativista e pesquisador de cidades e política. É professor na UFMG e codiretor executivo do BONDE. É autor de “A Razão dos Centavos”, obra finalista do Prêmio Jabuti.
*Talita Novacoski é codiretora executiva do BONDE e atua na interseção de tecnologia, democracia e mobilização social. É pesquisadora e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com foco em tecnopolítica.