“(…) Em vez de reza, uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém”
(De frente pro crime. João Bosco e Aldir Blanc)
O caminhão do lixo é um veículo incômodo. Ele é grande e cheira mal, muito mal. Sua caçamba recolhe o quebrado, o rasgado, a podridão e os restos. O caminhão de lixo atravanca o trânsito para que não tenhamos que conviver com a nossa imundície e o nosso desperdício. Ele poupa o nosso nariz arriscando a saúde de quem o conduz e de quem o alimenta com a nossa indiferença ao meio ambiente e a sujeira das casas e das ruas.
Por tudo isso e muito mais, um gari deveria receber todas as homenagens, mas como todo trabalhador que está involuntariamente no front das nossas tragédias cotidianas, não raro o que ele recebe é escárnio, desprezo e preconceito. O gari Laudemir de Souza Fernandes, além de tudo isso, recebeu tiros.
O empresário suspeito do assassinato — Renê da Silva Nogueira Júnior — queria mesmo era atingir a motorista Elen Dias Aparecida Rodrigues. “Se você esbarrar no meu carro, vou dar um tiro na sua cara”, disse ele à Elen, iniciando uma discussão que precisou da intervenção dos colegas da motorista, argumentando que havia espaço suficiente.
“Ele no carro dele, eu no caminhão, eu chamando ele para passar, aí ele foi e colocou a arma em punho”.
As testemunhas disseram que o empresário passou, freou bruscamente, desceu do carro e atirou com a arma da mulher delegada.
Simples assim. Renê foi preso na academia, malhando os músculos hipertrofiados que lhe garantem a valentia, suando sua estupidez nas barras de ferro, exibindo sua figura — em sua mente — intocável de homem, branco e com dinheiro. O perfil que parece imune a qualquer coisa no Brasil e quem diz isso é o passado. Não apenas o do país, mas o deste homem em questão.

Conforme registros da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Renê foi encaminhado ao juizado especial criminal por agredir uma mulher em 2003. Dois anos depois, voltou a uma delegacia por um caso de violência doméstica, quando teria mordido as costelas da ex-noiva.
Em 2011, ele atropelou uma mulher, que morreu em consequência dos ferimentos. Finalmente, em 2021, Renê, que se define nos perfis das redes sociais como “cristão, marido, pai e patriota”, foi investigado por violência contra a ex-mulher, quando ele teria ameaçado e causado lesões corporais graves por conta de brigas durante o divórcio.
O que aconteceu nestes episódios para que uma pessoa tão violenta continuasse a vida como se nada tivesse acontecido? É como se aquelas mulheres, que tiveram a falta de sorte e o desprazer de cruzar o caminho deste homem com comportamento de besta-fera, nunca tivessem existido. O que aconteceu é uma coisa chamada machismo e seus pactos.
Ludemir morreu porque tentou proteger uma colega de trabalho. O alvo era ela, mas como os trabalhadores — outra categoria desprezada por tipos como Renê — ousaram tentar impedi-lo…
Renê foi para a academia. Laudemir foi para o cemitério.
“Sem pressa, foi cada um pro seu lado
Pensando numa mulher ou no time
Olhei o corpo no chão e fechei
Minha janela de frente pro crime”
As câmeras da rua captaram o momento em que o carro importado do empresário passa e o instante em que Laudemir tomba na calçada.
“Está lá o corpo estendido no chão”.